Após mais de sete horas de viagem, aterrissamos em Nova Iorque. Uma sensação de urgência me envolve como uma densa neblina. Correndo do aeroporto até o carro que nos aguardava, cada um imerso em seus próprios pensamentos, os olhares pesados e sombrios ao meu redor comunicavam muito mais do que qualquer palavra poderia expressar.
Apesar de estar abalado e atormentado pela culpa pelo que pode ter acontecido com Mia, preciso assumir meu papel como líder da Ordem da ‘Ndrangheta e dirigir a operação.
Logo nos encontramos em frente ao elegante prédio onde Mia reside. Mesmo sendo pela manhã, o céu está escuro e coberto de nuvens, como se até o universo estivesse lamentando o que está por vir.
Diego, Mariano Lucca, Enrico e eu saímos do veículo e trocamos um olhar por um momento antes de seguirmos em direção ao elevador após estacionarmos na garagem do edifício.
Ao chegarmos ao último andar, uma onda de tensão me invade. Empurro a porta do apartamento com força e entro, armado, mesmo sabendo que não haveria ninguém lá dentro que representasse uma ameaça. Logo, os outros me seguem.
Assim que deixamos a sala de estar, o que encontramos é um verdadeiro pesadelo. O chão está coberto de cacos de vidro, os móveis estão desordenados e manchados de vermelho, e há marcas de sangue formando um rastro pela casa.
Fecho os olhos e respiro fundo ao avistar Mia e Antonietta no chão, ambas rodeadas por poças de sangue quase seco. Seus corpos estão pálidos, crivados de balas e ensanguentados. Uma sensação de horror me domina, apesar de já estar acostumado a ver corpos mutilados e mortos com a mesma frequência que um médico legista.
Ajoelho-me ao lado de Mia e percebo a presença dos outros ao meu redor, mas não consigo evitar o nó na garganta. Mesmo conseguindo segurar as lágrimas, sinto a dor e a raiva invadirem cada parte do meu ser. Seguro sua mão fria e fecho seus olhos com o polegar e o indicador, prometendo silenciosamente que vou me vingar daquele que a levou de mim.
Vejo Enrico se abaixando perto de Antonietta, repetindo meu gesto com a mulher que dedicou sua vida à minha família. Eu também faria justiça por ela. Antonietta esteve ao lado de Mia até seu último instante.
Por alguns momentos, noto que, apesar da raiva intensa e da clara promessa de que vamos atrás de quem feriu minha filha, ainda não sabemos como proceder daqui em diante. É como se nossa mente, tão habituada a elaborar rapidamente as melhores estratégias para uma guerra, tivesse simplesmente entrado em pausa.
Lucca murmura maldições enquanto examina o corpo de Antonietta e depois fixa o olhar no corpo da minha filha à nossa frente. Os rostos das duas estão marcados pela violência. O silêncio na sala é ensurdecedor. A perda realmente traz uma dor esmagadora, mesmo para aqueles que já não têm alma como nós.
– Alessandro, achamos a garota – comenta Enrico ao meu lado. Eles devem ter revistado todo o apartamento enquanto eu permaneci ao lado dos corpos na sala de jantar – Provavelmente é a mesma que conversou com você por telefone. Ela está com o celular de segurança preso entre os dedos.
– Cadê ela?
– No quarto da Mia.
– Morta?
Ainda não é tarde, mas se não receber ajuda logo, seu tempo está se esgotando. Ela está bastante ferida. – explica rapidamente, enquanto eu pondero as opções sem desviar o olhar do corpo de Mia.
Sou responsável pela sua morte. Afastei Mia de mim, pensando que isso a protegeria, mas agora percebo o quanto fui tolo.
Mesmo que nossos encontros fossem raros, alguém poderia localizá-la. Eu sabia que meus inimigos sempre procuravam um ponto fraco em mim e, na verdade, eu tinha um: Mia. Embora tentasse agir como se não houvesse ninguém a quem proteger, sempre a tive.
O problema é que algum canalha se aproximou o suficiente para descobrir sobre ela. A consequência da minha irresponsabilidade está bem na minha frente agora, cercada por sangue – meu próprio sangue derramado mais uma vez.
– O que devemos fazer com a garota? – questiona Lucca, ciente de que não podemos nos prolongar na decisão.
– Chame a equipe médica. Precisamos levá-la para San Luca – afirmo, convicto de que ela possivelmente pode nos fornecer informações valiosas sobre os invasores. Caso contrário, eu mesmo tirarei o que precisar dela, fazendo-a passar por um verdadeiro tormento antes de entregá-la ao destino final.
Independentemente de quem seja, parece ter acesso a informações que não deveria. Se soube do celular de segurança que pertencera à Mia, é possível que minha filha tenha revelado outros detalhes sobre nós. Monitorar o inimigo constantemente pode ser uma estratégia eficaz durante a guerra.
Observo enquanto a equipe médica entra no apartamento, tanto para oferecer os primeiros socorros à garota quanto para preparar os corpos de Mia e Antonietta para serem levados à Itália.
Quando os corpos das duas são colocados em sacos pretos, eu decido ir até onde a menina que me ligou pedindo ajuda está recebendo atendimento. Seu rosto está tão inchado e ferido que quase não é possível reconhecê-la. Manchas roxas marcam sua pele e sangue escorre de vários lugares, grudando seu corpo na roupa larga que ela usa.
Enquanto a equipe médica sedava e preparava Vittoria para o transporte, minha atenção ficava dividida entre a dor de ver minha filha e Antonietta brutalmente assassinadas e a desconfiança que surgia na minha mente sobre a presença de Vittoria nessa situação. Não podia ignorar que a garota era a única sobrevivente do ataque e, além disso, parecia ter um papel na vida de Mia há algum tempo, mesmo eu não sabendo disso completamente.
Todos os seguranças pessoais de Mia tinham ordens claras para me informar sobre qualquer pessoa que se aproximasse dela, mas, por alguma razão, nenhum deles cumpriu sua função, pois não havia menção da garota em nenhum dos relatórios. Eu havia revisto cada um deles durante o voo.
Ela foi imobilizada em uma maca de transporte após a avaliação de todos os seus ferimentos. A situação é bastante crítica, mas não há risco de morte. Embora eu deseje respostas, preciso cultivar a paciência. Vou aguardar até que ela esteja minimamente recuperada, e assim que estiver em condições, farei com que compartilhe o que sabe.
Ao retornar à sala, encontro os corpos cobertos por sacos pretos, e meu coração se aperta novamente. Apesar de não ter estado exatamente próximo à Mia, eu a amava profundamente e sempre mantive um olhar atento sobre sua vida.
Acompanhei seu crescimento, desde uma menina curiosa até a mulher extraordinária que se tornou. Linda, educada, obediente e compreensiva. Mia nunca fez julgamentos sobre minhas escolhas nem questionou minhas ordens, exceto nas ocasiões em que tentava me convencer a levá-la comigo para a Itália. Ela não era rebelde como muitos adolescentes, e nós nunca tivemos conflitos significativos.
Antonietta também era uma pessoa muito boa. Quando decidi que ela cuidaria de Mia, não foi por acaso. Conheci-a desde a infância, pois era filha de vizinhos que Riccardo também havia matado. Antonietta me apoiou quando fiquei desamparado, e sabendo que ela faria qualquer esforço para escapar do tormento em que vivíamos, propus que se mudasse com minha filha para os Estados Unidos, prometendo protegê-las de qualquer ameaça. Mais uma vez, não consegui cumprir essa promessa. Antonietta havia falecido, junto com minha filha, a menina que ela tratava como se fosse da família. O canalha realmente me roubou tudo.
Em meio ao caos e ao que aquela noite revelou, uma coisa estava nítida em meus pensamentos: eu descobriria a verdade. E se Vittoria estivesse de alguma forma envolvida na morte de Mia e Antonietta, ela preferiria ter encontrado a morte nas mãos dos criminosos.
Vejo os corpos de Mia e Antonietta sendo cuidadosamente colocados em macas e os sigo para fora do apartamento. Os outros ficarão responsáveis por acompanhar os médicos e a garota. Uma equipe de limpeza se encarregará do apartamento, enquanto nossos hackers já estão atuando tanto no circuito interno do prédio quanto nas ruas ao redor. Nada sobre nossa presença pode ser deixado para trás. Apesar da dor que sentia, ainda era necessário pensar na segurança do clã.
O retorno a San Luca foi frio, silencioso e sombrio. A presença dos corpos de Mia e Antonietta no jatinho, assim como a da garota sendo acompanhada pelos médicos em um leito improvisado na parte de trás da aeronave, era um lembrete constante da tragédia que ocorreu.
No fundo da minha mente, passei as horas do voo refletindo sobre as suspeitas relacionadas a Vittoria. Ela foi a única testemunha do ataque. Sua conexão com Mia e sua chegada repentina à vida da minha filha levantaram questões que não podiam ser ignoradas e para as quais eu precisava obter respostas.
No fundo, tenho plena consciência de que essa batalha está apenas começando. Reconheço que não será simples identificar o traidor, mas uma coisa é clara: estou preparado para fazer o que for necessário para defender o clã e levar justiça às vidas que perdi. O traidor acendeu uma chama dentro de mim com sua traição, mas ele vai descobrir que, no meu mundo, sou eu quem provocará seu fim.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
Helena Pontioli
agora o bicho vai pegar.
2024-11-22
2
Edilaine Marques
autora que do da mia, ela não podia ter morrido, que pena...
2024-11-29
2
marlene cardoso dos santos
nossa esse homem e tudo de bom
2024-11-27
1