Nova Iorque – EUA
–Escuta, Mia... – diz a jovem ao puxar a mão que eu segurava sobre a mesa – Não quero que sinta pena de mim. Na verdade, nem sei o motivo de ter compartilhado isso com você. – O suspiro que solta é carregado de dor – Apenas senti a necessidade de desabafar, então agradeço pelo café, pelos muffins e por me ouvir.
–Espera um pouco, Vittoria. – De alguma forma, sinto que preciso fazer algo para ajudar. Vittoria é tão jovem quanto eu e já enfrentou um verdadeiro pesadelo na vida – Não é que eu sinta pena de você, mas simplesmente não acho justo que enfrente tudo isso sozinha. – Tento convencê-la da sinceridade das minhas palavras e, sem pensar muito no que estou fazendo, ofereço o emprego do qual ela precisa – Quem sabe eu possa te ajudar com o emprego.
Sei que meu papà ficará furioso se descobrir, mas não me importo. Neste momento, só consigo pensar em como posso auxiliar essa garota.
– O que você quer dizer? Você está falando sério? – Sinto um quase sorriso ao perceber a surpresa em seu rosto.
– Muito sério. – Dou um sorriso para tranquilizá-la – Agora, sente-se de novo. Vamos discutir negócios.
Observo quando ela se acomoda na cadeira, ainda duvidando do que acabei de dizer.
– Você tem mesmo um emprego para me oferecer? Precisa de alguém para trabalhar em sua casa? Eu posso fazer qualquer coisa, Mia. Não tenho medo de trabalho pesado. – Ela fala apressadamente, atropelando as palavras, enquanto aproveito o momento para pensar nas minhas próximas ações e no quanto posso revelar sobre mim.
Talvez Antonietta não concorde com a minha decisão, especialmente porque vou precisar convencê-la a não contar para meu papà sobre Vittoria. A garota já enfrentou muitas dificuldades e não precisa de um chefe da máfia italiana bagunçando sua vida apenas para garantir que ela não faça mal a sua filha, no caso, eu.
Algo nos olhos de Vittoria me inspira confiança. Ela está sozinha no mundo. ‘Assim como você’, diz aquela voz persistente na minha cabeça, mas eu ignoro, mesmo reconhecendo que há verdade nisso.
Meu pai cuida de tudo que eu preciso, exceto do essencial. Ele nunca esteve realmente presente na minha vida e, se for honesta, ainda não consigo aceitar que isso nunca mudará. Anseio pelo dia em que ele finalmente me levará de volta para a Itália para viver com ele.
Papà nunca escondeu a minha história. Desde o meu nascimento, ele me enviou para os Estados Unidos com Antonietta. Nos encontramos algumas poucas vezes ao longo do ano. Na verdade, são poucas demais para o que eu realmente desejo. Houve um tempo em que não conseguia compreendê-lo e o culpei por me manter à distância, mas agora pelo menos esforço-me para entendê-lo.
Sei que ele possui muitos inimigos e que sou a última parte da sua família. Mesmo que não admita, estou ciente de que papà teme me perder. Ainda pretendo convencê-lo a me levar para San Luca com ele, pois tenho plena certeza de que meus tios Diego, Mariano, Lucca e Enrico podem me proteger, mas estou disposta a dar-lhe mais algum tempo.
– Para ser honesta, o trabalho que vou lhe oferecer pode não ser muito complicado. – Refletindo um pouco mais, continuo – Quer dizer, talvez seja complicado, porque às vezes posso ser uma pessoa difícil de lidar.
– Não estou conseguindo entender, Mia. – Vittoria se recosta na cadeira, prestando atenção em mim.
– Eu também sou italiana, Vittoria. – falo devagar, escolhendo as palavras com cautela, pois sei que não posso compartilhar muito sobre minha vida pessoal – Na verdade, eu nasci na Itália, mas estou nos Estados Unidos desde o momento do meu nascimento.
– Nossa, que coincidência! – ela exclama, visivelmente surpresa – Seus pais já moravam aqui antes de você nascer? – pergunta ela, enquanto eu tomo um gole do café, ainda pensando em como vou responder.
– Não – digo finalmente – Minha mãe faleceu quando nasci. – explico, sem mencionar que foi meu pai quem a matou para evitar que ela saísse correndo e me deixasse sozinha.
– Sinto muito, Mia. – agora é ela quem segura minha mão sobre a mesa.
– Não por isso – dou de ombros – Eu não a conheci, então nunca senti sua falta de verdade – confesso, pois não senti nada com a sua morte, nem mesmo quando meu pai me contou o que tinha feito com a mulher que me trouxe ao mundo; afinal, eu não tinha nenhuma conexão com ela. E, segundo papà me disse, meu futuro sob seus cuidados não seria nada promissor – Meu pai me enviou para os Estados Unidos com Antonietta assim que nasci. Você vai conhecê-la. – sorrio, porque ela é quem considero uma mãe – Mas ele ainda vive na Itália, em San Luca.
– Ele nunca morou com você? – pergunta ela, ainda parecendo surpresa.
– Quando eu nasci, meu papà tinha apenas dezessete anos e, bem, digamos que ele não sabia muito sobre como cuidar de um bebê.
– Sinto muito – diz ela mais uma vez – Quero dizer, por seu pai tê-la deixado.
– Ele não me deixou – corrijo – Meu pai é um bom homem para mim, só que ele acredita que eu terei mais chances de crescer aqui do que no nosso país. – Minto para Vittoria, porque a verdade é que ele acha que é mais fácil me manter viva aqui.
– Entendi. Desculpe se pensei que ele te abandonou depois da morte da sua mãe.
– Não tem problema. Eu sei que é isso que parece, mas não é a realidade. – Sorrio para ela – De qualquer forma... eu moro naquele prédio. – Continuo explicando nossa situação e aponto para o edifício onde nos encontramos. – Na cobertura – digo, vendo-a ficar surpresa ao abrir a boca – Para ser sincera, não preciso de mais um empregado. – Ela faz uma expressão triste, como se tivesse perdido uma oportunidade esperada, então continuo – Mas preciso de companhia. Alguém da minha idade para conversar sobre as coisas que gosto. Eu adoro Antonietta, mas ela já está idosa e não consegue mais me acompanhar como antes, entende?
– Na verdade, não estou conseguindo compreender muito bem onde você quer chegar, Mia. – Percebo que uma ruga se forma entre suas sobrancelhas, então decido esclarecer melhor a ideia que tive.
– Veja bem, imagine que você vai ser uma espécie de amiga por contrato. Eu vou te pagar para isso – digo rapidamente. – Você vai se mudar para minha casa a partir de hoje, e nós vamos ver se conseguimos nos dar bem, se nossa amizade realmente funciona. Pense que você será como aquelas damas de companhia de antigamente – explico, franzindo o nariz e sem saber se essa foi a melhor forma de me expressar sem fazer com que ela se sentisse um objeto.
– Mas eu seria sua amiga mesmo sem receber nada por isso, Mia – ela responde, seu rosto mostrando que não entendeu exatamente o que estou propondo. – Você é uma pessoa incrível. Qualquer garota da nossa idade adoraria ter você como amiga. Não precisa pagar alguém para isso.
– Sei que não, Vittoria, mas a situação é mais complexa do que parece – aperto as mãos sobre a mesa, um pouco insegura por ter dado a entender que desejava comprá-la – Não foi minha intenção ofendê-la, mas eu realmente gosto de você e quero tê-la por perto. Além disso, você tem um problema, certo? E eu posso oferecer uma solução tanto para o que você precisa quanto para a minha solidão – volto a segurar sua mão na esperança de transmitir confiança sobre o que propus, tentando também esconder a tristeza nos meus próprios olhos.
– Se eu aceitar esse 'trabalho – Vittoria fala com cautela – Você me deixaria buscar outro emprego depois de um tempo? Não quero ser um fardo para você eternamente, Mia.
– Você já terá um emprego, Vittoria – respondo, mas continuo – Sim, claro. Se algum dia você se cansar de mim, estará livre para ir quando quiser – digo isso mesmo sentindo meu coração pesado pela solidão que sempre carrego.
– E quanto ao seu pai? – Ela pergunta, ainda hesitante em aceitar.
– Deixe que eu cuido disso. Eu sei como lidar com ele. E para ser sincera, é bem provável que você more aqui comigo por um bom tempo e nunca o encontre. – Faço um gesto de desprezo com as mãos, mesmo sabendo que isso me dói, pois reconheço que é verdade. Meu pai quase não vem a Nova Iorque; nossos encontros costumam acontecer em lugares neutros, longe da minha casa e também de San Luca.
– Mia, se eu decidir aceitar, será apenas por um tempo curto. Até eu conseguir encontrar outra maneira de me sustentar e arranjar um novo lugar para viver, tudo bem? – Ela questiona com cuidado, avaliando a situação. – Mas pode ficar tranquila, porque serei sua amiga para sempre. Nunca irei me afastar de você, Mia, é uma promessa.
– Agora considero que você aceitou minha proposta, então – digo com um sorriso no rosto, feliz. – Agora vá pegar suas coisas enquanto eu falo com Antonietta. Seja bem-vinda à minha vida, Vittoria. – Levanto-me para puxar a garota para um abraço apertado, pois sinto que nossa conexão será eterna.
Vittoria acha que sou eu quem está ajudando-a, mas, dentro de mim, percebo que é ela quem está me salvando da solidão. Talvez, depois que ela entrar na minha vida, meu papà tenha um momento de paz das minhas cobranças incessantes pela sua presença.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
marlene cardoso dos santos
nossa amei viram melhor amigas
2024-11-27
1
Solange Coutinho
Quê bom que se conheceram
2025-03-11
1