* Celeste Venturi *
Estava em um sono profundo, os lençóis apertados ao meu corpo, quando fui despertada por um som suave vindo da porta. O quarto estava escuro, e por um momento, pensei ter ouvido errado. Mas então, a sombra de Leandro surgiu ao lado da cama. Ele estava visivelmente alterado, cambaleando um pouco, com o rosto levemente corado e o hálito pesado, exalando o cheiro de álcool. Eu sabia que ele tinha saído para resolver algo, mas não imaginava que voltaria assim.
O que me fez prender a respiração, no entanto, não foi o cheiro de álcool. Foi o perfume. Um perfume doce, inconfundível e forte demais para ser ignorado. Era o mesmo que eu tinha sentido no dia do nosso casamento, vindo de Victoria. Esse cheiro me invadiu como uma flecha, cortando o silêncio da madrugada.
— Leandro? — Minha voz saiu rouca, ainda embriagada pelo sono e pela surpresa. Eu me sentei na cama, a raiva começando a brotar, mas não queria fazer nada precipitado.
Ele parou em frente à cama, tentando se equilibrar. O sorriso em seu rosto era desajeitado, como se estivesse tentando fazer graça, mas não conseguia esconder o desconforto que exalava dele.
— O que foi? Está brava comigo por eu ter demorado? — A voz dele estava arrastada, entrecortada, mas ele parecia tentar ser indiferente, como se tudo estivesse normal.
Mas não estava. O perfume de Victoria ainda estava no ar, e eu sabia o que isso significava.
— Onde você estava, Leandro? — Eu perguntei, mais firme agora, tentando controlar o tom de minha voz. Não queria explodir com ele ali, mas não podia deixar passar em branco.
Ele não respondeu imediatamente. Apenas olhou para mim como se estivesse tentando entender se eu estava falando sério. Depois, balançou a cabeça e deu um passo para frente, escorando-se na cama, sem nem perceber a dor que causava.
— Eu não devo satisfação a você, Celeste — Ele murmurou, mais para si mesmo do que para mim. — Você sabe que eu quem mando, não é? O que eu faço ou deixo de fazer, não é da sua conta.
Aquelas palavras me cortaram, como uma lâmina afiada. A raiva que eu estava tentando segurar finalmente tomou conta de mim. Eu o encarei, os olhos marejados de tanto desprezo.
— Não é da minha conta? — Falei, tentando não gritar, mas com as palavras saindo pesadas. — Eu sou sua esposa, Leandro! Não posso ser tratada assim! E você está me dizendo que não tem nada a me dizer sobre isso?
Ele se inclinou mais um pouco, como se tentasse se aproximar de mim, mas eu me afastei, sentindo aquele cheiro ainda mais forte. O perfume de Victoria, com sua doçura barata, me invadiu e, com ele, a lembrança amarga do dia do nosso casamento.
— E o que você quer que eu faça? Me desculpe? — Ele disse, com um sorriso torto e cínico. — Você vai me ensinar agora como viver minha vida? Eu já te disse, Celeste. Eu faço o que eu quiser, e você vai ter que aceitar isso.
Ele estava me desrespeitando de uma forma tão descarada que meu corpo inteiro tremia. A dor que eu sentia não vinha apenas da traição óbvia, mas também da forma como ele tratava nosso relacionamento, como se fosse apenas mais um contrato a ser cumprido.
— Você me faz sentir como se fosse apenas mais um fardo para você, Leandro — Eu respirei fundo, tentando segurar a raiva. — Isso não é casamento. E você não percebe o quanto está me ferindo.
Leandro, ainda cambaleando, ficou por um momento em silêncio. A expressão dele estava pesada, como se fosse mais difícil admitir a verdade do que eu imaginava. Por fim, ele soltou um suspiro, pareceu se entregar ao que estava acontecendo.
— Eu fui à boate — disse ele, com uma voz baixa, mas com uma honestidade relutante. — Estava comemorando o aniversário do meu amigo, Miguel. Era só isso.
Eu não sabia se deveria sentir alívio ou raiva. Ele estava sendo direto, mas as palavras dele não me acalmavam. O perfume de Victoria ainda estava no ar, um lembrete claro de que ela estava em algum lugar perto. A lembrança do cheiro doce, mas barato, parecia sufocar qualquer tentativa de paz.
— E foi só isso, Leandro? — Minha voz saiu mais fria do que eu gostaria, mas eu não conseguia esconder a decepção. — Só o aniversário de um amigo e esse... perfume?
Leandro fez uma careta, claramente desconfortável com o rumo da conversa, mas não parecia querer discutir mais. Ele deu mais um passo em direção à cama e se deitou com um suspiro exausto. O olhar dele parecia vago, como se estivesse tentando afastar a situação com seu cansaço.
— Já falei, Celeste. Não tem mais nada. Foi só uma noite. — Ele se virou de lado, virando as costas para mim.
O silêncio que se seguiu foi pesado, denso e ainda mais doloroso. Ele não parecia disposto a se preocupar com minhas emoções ou entender o quanto aquilo me afetava. Eu observava suas costas, o jeito como ele se jogava na cama, como se estivesse fugindo de qualquer responsabilidade sobre as palavras que acabara de dizer.
E então, a raiva começou a crescer dentro de mim. Eu não suportava mais aquela frieza, o modo como ele se afastava de mim sem nem tentar melhorar a situação. Fiquei ali, sentindo meu peito apertar, mas não podia mais suportar a presença dele. Ele não estava nem um pouco preocupado com o que eu sentia.
Com os olhos nublados pela raiva e a dor, saí do quarto sem olhar para ele. Não importava mais. Não me importava com o que ele estivesse fazendo ou dizendo, já não podia mais ficar ali, vendo ele se deitar como se nada tivesse acontecido.
Eu bati a porta do quarto atrás de mim com força, a sensação de desespero misturada com a raiva me consumindo enquanto eu me dirigia para um dos quartos de hóspedes. Eu precisava de um espaço só meu, longe dele. Eu não queria mais ver aquele rosto que me tratava como se eu fosse uma mera obrigação, uma peça a ser encaixada em sua vida de negócios e traições. Fui até o quarto, entrando e logo em seguida tranquei a porta do quarto de hóspedes com tanta força que a madeira quase estremeceu. A sensação de que finalmente estava fazendo algo por mim mesma, algo que não envolvia ele, me deu uma espécie de alívio momentâneo. Já estava mais do que cansada disso, principalmente, do cheiro daquele perfume feminino, aquele maldito perfume que me trouxe lembranças de Victoria no meu próprio casamento. Eu estava sendo feita de idiota, e sabia disso.
Meu corpo estava exausto, mas minha mente não parava. Eu estava furiosa e triste, uma mistura de emoções tão fortes que me consumiam. Tentei dormir, mas a raiva queimava dentro de mim como fogo. Eu não ia mais ser a mulher frágil e submissa, esperando por migalhas. A partir de agora, eu ia ser outra pessoa. Uma pessoa que não tinha medo de colocar limites. Uma pessoa que ia lutar pelo que merecia.
Acordei com as batidas na porta. Tentei ignorar, mas as pancadas insistentes se tornaram impossíveis de desconsiderar. A voz de Leandro ecoou pelo corredor, alta e autoritária.
— CELESTE! — Gritou Leandro, batendo com força na porta. — ABRE ESSA PORTA AGORA!
— O que você quer, Leandro? — Perguntei, a voz rouca e carregada de desprezo. — Veio encher meu saco?
Ele me encarou, confuso, como se não tivesse noção do que estava acontecendo. Já não me importava mais. Ele ia ter que entender de uma vez por todas.
— Por que você se trancou aqui? — Ele perguntou, tentando esconder a raiva.
— Eu quero minhas coisas nesse quarto. — A minha voz saiu firme, mais firme do que eu esperava. — A partir de hoje, eu vou dormir aqui, eu não vou mais dividir cama com você. Vai procurar a sua amante para dormir com ela, se é que você é tão cara de pau de continuar fazendo isso.
— Eu não fiz nada de errado. Só fui comemorar com os meus amigos, Celeste. — Ele tentou justificar. Mas a sua voz estava sem força, sem o mesmo poder de antes.
Eu não aguentei mais. A raiva explodiu como uma chama incontrolável dentro de mim, e eu gritei, sem me importar com mais nada.
— Mentiroso! Você estava lá com ela, não estava? Com a puta da Victoria, era isso que você estava fazendo, não é?! — A raiva me dominava agora. — Você acha que eu sou burra? Que vou ficar aqui, em silêncio, aceitando tudo?! EU NÃO SOU A SUA ESPOSA SUBMISSA QUE VAI ENGOLIR SUAS MENTIRAS! — Gritei, a raiva explodindo dentro de mim.
— Eu não quero mais saber de você! — Minha voz saiu ainda mais ríspida. — Não quero mais ouvir as suas desculpas. Você não é nada para mim. Eu vou dormir aqui, no meu novo quarto, e não vou mais compartilhar cama com você! Não aguento mais essa situação.
A expressão dele era de choque, como se ele não esperasse que eu fosse tão direta. Ele olhou para mim, tentando achar algo para dizer, mas não falou nada. Eu estava farta demais para ouvir qualquer justificativa. Ele podia se desculpar, podia tentar qualquer coisa, mas eu já não tinha mais paciência.
Sem dizer mais uma palavra, eu fechei a porta com força, trancando-a. A sensação de ter feito isso, de ter finalmente imposto um limite, me deu um pouco de paz. Fui até a cama do quarto de hóspedes e me joguei ali, com o peito apertado, mas com uma sensação de que finalmente estava no controle.
Leandro podia bater na porta o quanto quisesse. Ele podia implorar, gritar, tentar me convencer. Mas eu já sabia: não ia mais abrir. Não ia mais ceder. Ele ia sentir a mesma dor que me causou.
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Atualizado até capítulo 140
Comments
Fátima Ribeiro
uma história boa, forte.
mas este don é realmente sem noção mesmo de casamento.
2024-12-06
0
Marilena Yuriko Nishiyama
será que o Dom Leandro irá mudar sua postura em relação a Celeste ou será que continuará a mesma coisa trair a esposa como sempre fez
2024-11-13
1
Marcia Cristina Carneiro
19/2/11/24/é isso aí não deixa barato não
2024-11-20
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