* Celeste Venturi *
Na manhã seguinte, minha cabeça estava a mil. A ideia me perseguia desde a noite passada, crescendo a cada segundo, como se já fosse inevitável. Eu precisava encontrar uma forma de controlar meu próprio destino, de tomar o que restava de escolhas para mim. E, para isso, havia apenas uma solução — uma que Leandro jamais poderia descobrir.
Durante o café da manhã, ele estava ali, sentado do outro lado da mesa, imponente e despreocupado, como sempre. Tentei organizar os pensamentos, buscando o tom certo para pedir o que eu precisava sem levantar qualquer suspeita. Por um segundo, nossos olhares se cruzaram, mas eu desviei rapidamente, como se estivesse apenas um pouco... vulnerável.
— Leandro, eu… acho que preciso ver um médico — falei, em um tom baixo, medindo cada palavra. Fiz uma pausa curta, tentando parecer apenas um pouco indisposta. — Tenho me sentido estranha, um pouco fraca talvez… nada sério, mas pode ser bom verificar.
Ele estreitou os olhos, me estudando com aquele olhar intenso que parece enxergar a verdade que ninguém ousa dizer. Respirei fundo, mantendo a expressão suave. Eu não podia arriscar um deslize.
Após o que pareceram minutos inteiros de silêncio, ele assentiu, sem desviar o olhar.
— Muito bem. Providenciarei isso ainda hoje. — Sua voz era firme, autoritária, mas havia algo que eu não conseguia definir ali, talvez uma ponta de preocupação ou só seu desejo inabalável por controle. — Quero que você esteja saudável. Forte.
Forcei um leve sorriso, escondendo o alívio que me inundava. A consulta estava garantida, e eu sabia que só precisava de um instante a sós com o médico para explicar meu verdadeiro pedido: eu queria evitar uma gravidez. Queria um método que me mantivesse protegida, um que ele jamais soubesse. Agora, eu só precisava que o médico concordasse em manter o sigilo.
Leandro se levantou e veio até mim, seu toque firme em meu ombro, seus olhos me perfurando com a intensidade habitual.
— Assim que o médico sair, quero entender o que está acontecendo com sua saúde — afirmou, como se não houvesse margem para mistérios ou recusas.
Meu coração deu um salto. Ele desconfiava de algo? Ou era só o modo controlador e possessivo que sempre trazia consigo? Forcei um aceno de concordância, sabendo que cada palavra teria que ser cuidadosamente calculada se eu quisesse levar isso adiante.
Assim que ele saiu do cômodo, soltei o ar que nem percebi estar segurando, sentindo um misto de alívio e inquietação. Um pequeno sorriso despontou em meu rosto, ansioso. Após o café, fiquei esperando que Leandro saísse para resolver algum assunto fora de casa. Ele sempre estava em reuniões, encontros ou, quem sabe, controlando tudo do jeito que só ele sabia fazer. Cada minuto que passava era como um teste para minha paciência, mas, finalmente, ouvi o som de passos distantes pelo corredor. Esperei alguns segundos antes de me aproximar da janela e observar sua saída. Quando o vi entrando no carro, meu coração desacelerou — agora era minha chance.
Com a ajuda de um dos funcionários, o médico chegou logo depois. Entrei na sala com ele e, assim que a porta se fechou, pude sentir a urgência me invadindo. Eu não podia perder tempo, precisava ser clara, direta e ainda manter tudo em sigilo.
— Doutor, preciso que me ajude com algo... muito importante.— comecei, minha voz baixa e quase trêmula, mas firme. Eu não podia vacilar. — Eu sei que o que vou pedir pode ser incomum, mas você precisa entender que não tenho outra opção.
Ele me observou, seu olhar mais cauteloso, esperando que eu falasse. O peso do momento estava claro em seus olhos, e eu sabia que ele estava ciente do risco. Não estava apenas pedindo uma consulta médica, estava pedindo algo que poderia mudar tudo.
— O que você precisa, senhora Alighieri? — Sua voz estava carregada de seriedade. — Mas entenda, tudo o que for feito o Dom tem que saber.
Eu respirei fundo. Este era o ponto sem volta. Não poderia hesitar agora. Minha mente estava clara, apesar da adrenalina correndo em minhas veias.
— Eu preciso de uma injeção contraceptiva — disse rapidamente, para que ele entendesse a urgência do meu pedido. — Algo que me proteja de engravidar. Não posso correr o risco de uma gravidez, e Leandro... ele nunca deve saber. Ninguém pode saber, exceto você.
O médico pareceu surpreso, mas não negou. Ele se manteve em silêncio por um momento, o olhar sério e analisando cada palavra minha. Eu poderia ver que ele estava considerando o que isso significaria. O risco que ele estava assumindo ao atender a esse pedido.
Eu estava ciente de que o que estava pedindo não era apenas arriscado para mim, mas também para o médico. O medo era palpável no ar entre nós, e eu podia ver a luta interna nos olhos dele. Ele sabia do poder de Leandro e da máfia. Se ele falhasse ou se o segredo fosse revelado, as consequências não seriam apenas profissionais, seriam pessoais e cruéis. Eu sabia disso tão bem quanto ele, mas não tinha outra opção.
O silêncio entre nós pairou, e eu vi o médico hesitar. Ele respirou fundo, como se estivesse tentando reunir coragem para o que estava prestes a fazer.
— Senhora Alighieri, o que está pedindo... — ele começou, mas sua voz falhou por um momento, e ele engoliu em seco, visivelmente desconfortável. — Isso é muito arriscado. Eu entendo que a situação é delicada, mas você sabe o que pode acontecer se alguém souber disso. Não só para você, mas para mim também. A máfia... não perdoa falhas. Se alguém descobrir, não haverá perdão.
Eu o olhei nos olhos, a tensão crescente. O medo dele era visível, e eu podia sentir o peso de cada palavra que ele dizia. Ele sabia muito bem o que estava em jogo. A máfia não fazia misericórdia, e qualquer erro aqui podia custar muito caro. Mas, naquele momento, nada mais importava. Eu precisava dessa injeção. Eu precisava garantir que não haveria consequências irreversíveis para a minha vida.
Ele respirou fundo, a expressão sombria, e finalmente falou com uma firmeza tensa.
— Se eu fizer isso, senhora Alighieri... você entende as consequências. Este é um segredo que, uma vez guardado, precisa morrer aqui. Não pode, de forma alguma, vazar. Eu estou me colocando em risco ao fazer isso.
Eu sentia o peso das palavras dele, e um calafrio percorreu minha espinha. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ele estava certo. Eu estava forçando-o a dar esse passo, e ele estava ciente do que poderia acontecer. Mas eu não tinha mais escolha.
— Eu prometo. Não vai vazar. Isso fica entre nós, doutor.
— Ok, eu vou aplicar a injeção, senhora Alighieri, mas… — Ele hesitou por um momento, como se procurasse as palavras certas. — Não posso ser o único a fazer isso toda vez. Não posso arriscar ser visto por Leandro ou qualquer pessoa que o envolva. Então, vou mandar uma enfermeira em quatro em quatro meses. Ela virá de forma discreta, para aplicar a injeção como você pediu, sem levantar suspeitas.
Eu ouvi suas palavras, o alívio misturado com o medo que crescia dentro de mim. Ele não estava apenas fazendo o que eu pedira, mas estava criando um plano para garantir que ninguém soubesse. Para garantir que eu não fosse descoberta. Uma enfermeira, em intervalos regulares, com a missão de me manter em segredo. A ideia parecia arriscada, mas era a única maneira de garantir que isso não se espalhasse.
O médico continuou, o rosto grave, mas com uma firmeza que não deixava espaço para dúvidas.
— Ela virá disfarçada, sem que ninguém saiba. Vou garantir que todo o processo seja feito sem levantar qualquer tipo de suspeita. Mas, novamente, senhora Alighieri, a responsabilidade por manter isso em segredo é sua. Se alguém souber, as consequências para todos podem ser devastadoras.
Eu senti o peso de suas palavras, o medo de ser descoberta, e a sensação de que, a partir daquele momento, qualquer deslize poderia custar muito. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não podia voltar atrás. O que ele estava propondo era arriscado, mas era a única solução que eu tinha. A máfia não poderia saber, e Leandro nunca poderia descobrir. Eu precisava garantir que ele não soubesse da minha decisão, que não houvesse um risco para o futuro.
Eu assenti, sentindo o peso da situação.
— Entendo. Vou manter isso em segredo. Eu não vou deixar que ninguém saiba. Você tem a minha palavra.
O médico respirou fundo, visivelmente aliviado por eu ter aceitado as condições. Ele aplicou a injeção com a precisão de alguém acostumado a lidar com o risco, e, quando terminou, retirou a seringa com cuidado. Ele me olhou uma última vez, o medo ainda evidente em seus olhos.
— Lembre-se, senhora Alighieri, em quatro em quatro meses.
Depois que ele aplicou a injeção em mim, eu o observei sair da sala, as palavras dele ecoando em minha mente. Não podia deixar que isso vazasse. Eu estava arriscando tudo. Mas, de alguma forma, naquele momento, parecia ser a única maneira de garantir que minha vida não fosse alterada para sempre por algo que não queria.
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Horas depois olhando para o jardim. O vento frio tocava minha pele, trazendo uma sensação estranha de distanciamento, como se eu estivesse em um lugar onde nada mais importasse. O medo de Leandro descobrir, a ameaça constante da máfia, o peso de viver sob um segredo tão pesado. Eu não sabia como lidar com tudo isso. Eu não sabia se teria forças para aguentar mais um dia.
As horas passaram e a casa estava estranhamente silenciosa. Leandro não estava em casa ainda, o que me deixou com mais tempo para pensar. Algo dentro de mim me dizia que ele voltaria em breve, e a tensão aumentava à medida que a noite caía. Olhei para o relógio na parede. Ele costumava ser pontual, mas desta vez, não sabia o que esperar.
Finalmente, A porta da mansão se abriu e ouvi o som de passos firmes ecoando pelo mármore do hall. Não precisei olhar para saber que era Leandro, voltando para casa com aquela presença inconfundível que preenchia o ambiente antes mesmo de sua figura surgir. Ele passou direto pelo hall, a expressão séria, o rosto focado, como sempre.
Eu estava na sala de estar, mas assim que ele subiu as escadas em direção ao nosso quarto, o acompanhei, tentando não chamar atenção, mas também querendo entender seu humor ao voltar. Ele entrou no quarto e foi direto ao banheiro sem sequer olhar para mim, fechando a porta atrás de si com um movimento rápido. Por um instante, fiquei ali, sozinha, escutando o som da água que começava a correr.
Peguei o controle remoto e me sentei na cama, ligando a televisão para disfarçar o silêncio que preenchia o cômodo. Não importava o que estivesse passando, apenas queria algo para me distrair. Me recostei nos travesseiros, tentando manter o foco na tela e parecer tranquila.
Alguns minutos depois, ele saiu do banheiro, os cabelos ainda úmidos e o rosto sério, vestindo uma calça jeans escura e uma camiseta preta simples. Ele se aproximou, cruzando os braços, e me lançou um olhar avaliador antes de perguntar, direto:
— Está se sentindo melhor? — perguntou, direto, seu tom um pouco mais suave do que o normal, mas com um ar de expectativa.
Eu já havia preparado uma resposta em minha mente. Encarei-o com um leve sorriso, tentando não mostrar qualquer desconforto.
— Sim... foi só uma indisposição, nada de mais — respondi, suavemente. — O doutor fez alguns exames e disse que estou bem. Mas, por precaução, ele vai monitorar. Nada com que você precise se preocupar.
Leandro me olhou em silêncio por um longo segundo, seus olhos tentando captar cada nuance da minha expressão. Quando assentiu, o fez de maneira breve, como se ainda ponderasse sobre o que eu havia dito.
— Bom. Se precisar de algo, é só me avisar — respondeu com a mesma firmeza de sempre, mas sem emoção.
Assenti, voltando os olhos para a televisão, mas sentindo que ele ainda me observava. No fundo, sentia um misto de alívio e tensão, sabendo que cada passo que eu dava precisava ser cuidadosamente calculado.
Ele deu um passo em direção à porta e, sem me encarar, anunciou:
— Preciso sair para resolver umas coisas. Volto mais tarde.
O tom foi direto, seco, e parecia esperar que eu não questionasse. Tentei disfarçar minha curiosidade, mas a mudança no modo de se vestir me fez franzir o cenho. Era raro vê-lo saindo assim, sem um traje formal, especialmente para algo que envolvesse seus negócios. Minha mente já começava a tecer uma série de possibilidades, e ele parecia notar a dúvida nos meus olhos.
Leandro parou por um segundo, me observando de relance, mas antes que eu tivesse tempo de formular qualquer pergunta, ele já estava cruzando a porta. O som de seus passos ecoou pelo corredor, enquanto eu ficava ali, sozinha, tentando compreender a razão dessa saída repentina.
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Atualizado até capítulo 140
Comments
Fátima Ribeiro
deve ter ido lá pra vagaba do casamento.
ou outra.
vai saber quantas tem.
2024-12-05
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Fátima Ribeiro
muito perigoso o que ela fez.
2024-12-05
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Fátima Ribeiro
muito perigoso o que ela fez.
2024-12-05
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