* Celeste Venturi *
Assim que chegamos em casa, Leandro permaneceu em silêncio enquanto me guiava pelo corredor até o quarto. Quando cruzamos a porta, Leandro fechou-a com um movimento firme e direcionou seu olhar para mim. A intensidade em seus olhos deixava claro que ele estava prestes a dizer algo sério. Por um instante, ele manteve o silêncio, como se reunisse as palavras exatas que queria usar, até que respirou fundo e finalmente falou, seu tom suave, mas inegavelmente severo.
— Celeste, precisamos falar sobre o que aconteceu hoje. — A pausa em suas palavras parecia proposital, como se ele quisesse que eu absorvesse cada uma delas. — Conflitos assim não são aceitáveis. Eu entendo que certas pessoas têm o talento de testar os limites, mas isso não é motivo para você perder o controle.
Observei-o, tentando conter a resposta imediata que queimava em minha garganta. Ele tinha uma presença autoritária que eu respeitava — embora nem sempre fosse algo que eu quisesse obedecer. Mesmo assim, ele continuou, sem desviar o olhar.
— Apesar disso, apreciei sua postura hoje. Você manteve a compostura, fez o que era esperado de você, e isso, Celeste, é importante. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Espero que isso continue assim. Nosso nome, nossa posição… exigem respeito.
Havia algo em sua voz que misturava uma aprovação sincera com uma expectativa exigente. Aquela postura forte e imponente fazia com que eu quisesse, contra todas as minhas vontades, entender mais dele. Eu podia sentir meu coração pulsando com uma mistura de desafio e curiosidade, e então, deixei que minha pergunta escapasse, sem conseguir mais conter a dúvida que me atormentava.
— Leandro, quem é exatamente aquela mulher, Lucrezia? — perguntei, e notei como a simples menção do nome dela provocava uma leve alteração em seu semblante. — Parece que… há algo entre vocês que eu deveria saber?
Ele me observou por um momento, o maxilar levemente tenso, como se estivesse ponderando até que ponto poderia ou deveria me contar. Então, após uma breve pausa, ele respirou fundo, parecendo ter decidido.
— Ela é do passado, Celeste — respondeu, sua voz firme, mas sem afeto. — Houve uma época em que a família dela quis um acordo de casamento comigo. Eles acreditavam que uma união entre nós fortaleceria as duas famílias. Era conveniente, e era vantajoso para ambos os lados. — Ele olhou para mim, seus olhos carregando algo entre irritação e tranquilidade. — Mas eu recusei. Não estava interessado, e sugeri que ela se casasse com um capo de uma máfia aliada, alguém que também traria benefícios. Para todos.
Eu absorvi suas palavras, tentando entender a dimensão do que ele acabara de revelar. Leandro sempre fora uma figura enigmática e controlada, alguém que parecia estar acima de qualquer vulnerabilidade. Mas ao contar-me sobre Lucrezia e essa história no passado, ele me deu uma visão única do quanto ele escolhera sua vida com cuidado. O olhar dela, suas ações… tudo se encaixava. Talvez Lucrezia ainda nutrisse sentimentos por ele, e a rejeição que sofrera o mantinha vivo em suas memórias, como uma ferida que jamais cicatrizara.
— Então ela ainda… ainda tem sentimentos por você? — perguntei, observando cada movimento dele, esperando alguma pista em seu semblante. Eu já podia imaginar a resposta, mas queria ouvi-la dele.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não havia qualquer hesitação em sua resposta.
— Provavelmente. — Ele deu de ombros, como se aquilo não tivesse grande importância para ele. — Pessoas guardam ressentimentos por motivos que não compreendo, e ela, claramente, nunca aceitou que recusei o casamento.
Eu franzi a testa, absorvendo a frieza de suas palavras. Mesmo diante da possibilidade de alguém amá-lo, Leandro permanecia imutável, como se aquilo fosse apenas mais um fato insignificante em meio a tantos outros em sua vida. E, ainda assim, uma nova dúvida surgiu em minha mente, uma que eu precisava esclarecer.
— Por que você recusou? Quer dizer, você poderia ter aceitado esse acordo. Ela é bonita, influente, e sua família também é poderosa. — Minha voz saiu um pouco mais baixa do que eu esperava, como se a resposta dele tivesse o poder de revelar algo muito maior sobre quem ele realmente era.
Leandro sorriu de canto, um sorriso que misturava sarcasmo e sinceridade, algo raro de se ver em seu rosto. Seus olhos me prenderam, como se ele quisesse ter certeza de que eu entenderia a gravidade do que estava prestes a dizer.
— Eu não queria compromisso, Celeste. Nunca fui alguém que precisasse de uma esposa para garantir minha posição ou minha influência. Naquela época, eu era jovem, e estava determinado a não me prender a ninguém, muito menos a alguém que não escolhi. — Ele pausou por um momento, como se refletisse em suas próprias palavras. — Nunca planejei me casar antes dos trinta. Para ser sincero, pretendia prolongar essa ideia de casamento o máximo possível, até que fosse inevitável. Eu não queria ser pressionado.
Seus olhos estavam fixos em mim, cada palavra dele carregava uma verdade tão crua que me deixava sem ar. Percebi que ele havia vivido uma vida de escolhas muito bem calculadas, controlando até o momento exato de cada passo importante que daria. Isso incluía o casamento, e provavelmente incluía também a escolha de me ter ao seu lado. Eu era uma peça desse quebra-cabeça que ele vinha montando com paciência e precisão.
— Então, você aceitou se casar agora… — minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Por que? O que mudou agora?
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se pesasse cada palavra antes de falar. Finalmente, ele respirou fundo e respondeu, sua voz firme, mas sem a dureza habitual.
— Não foi uma questão de aceitar, Celeste — disse, olhando para mim com seriedade. — Eu não posso mais simplesmente fazer o que eu quero. No futuro, vou precisar de herdeiros. Preciso garantir que a família tenha continuidade, que tudo o que construímos continue.
O peso das suas palavras me atingiu de imediato. Eu sabia que ele estava falando a verdade, mas ouvir aquilo de sua boca me fez sentir uma pontada de tristeza. Ele não estava se casando porque queria, mas porque precisava. Ele não parecia estar em conflito com isso, mas eu estava, mesmo sabendo muito antes.
— Então... é isso? — minha voz falhou por um momento, a amargura tomando conta. — Eu sou só... isso?
Leandro olhou para mim por um instante, como se pensasse em algo a mais para dizer, mas não encontrou. Ele balançou a cabeça lentamente.
— Sim, mas ao mesmo tempo não é só isso.
Eu senti a respiração apertada. Não era só o casamento. Era tudo o que isso representava. Eu não era a prioridade dele, nem a razão do casamento. Era apenas uma necessidade, e isso me cortava mais do que eu imaginava. Leandro se levantou, me deixando ali, sentada na cama, enquanto ele seguia para o banheiro em silêncio. O som da porta se fechando ecoou pelo quarto, e eu me senti ainda mais sozinha. As palavras dele ainda martelavam na minha cabeça. O casamento, a necessidade de herdeiros, a ausência de escolha. Era duro pensar que eu estava ali, não por algo mais profundo, mas porque fazia parte dos planos dele. Tentei afastar esses pensamentos, mas parecia impossível.
Após alguns minutos, ouvi a água do chuveiro parar, e logo Leandro saiu do banheiro. Ele não olhou para mim ao atravessar o quarto em direção à cama, como se já estivesse mentalmente distante. Deitou-se, o rosto fechado, e virou-se para o outro lado.
Levantei-me e fui para o banheiro, desejando que a água quente pudesse lavar, ao menos um pouco, o aperto no meu peito. Me desfiz das roupas lentamente, sentindo o peso daquela conversa em cada movimento. Entrei no chuveiro e deixei a água cair sobre mim, tentando acalmar os pensamentos.
O casamento… a ideia de que aquilo não tinha sido uma escolha de Leandro, ou minha, pesava mais do que eu imaginava. A água quente escorria pela minha pele, mas não era suficiente para levar embora o nó que parecia crescer em meu estômago. Por mais que tentasse, as palavras dele ainda ecoavam na minha cabeça. Fui tomada por uma tristeza que eu não sabia como expressar, nem para ele, nem para mim mesma.
Quando terminei, vesti o robe e saí do banheiro, tentando acalmar minha expressão. Leandro estava na cama, agora com os olhos fechados, sua respiração já estável e tranquila. Deitei-me ao seu lado, um silêncio profundo preenchendo o quarto. Ele não se virou; e, por um instante, me perguntei se ele realmente estava dormindo ou se apenas evitava um confronto desnecessário.
Fechei os olhos, tentando encontrar um pouco de paz, mas sentindo que o abismo entre nós era maior do que nunca.
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Atualizado até capítulo 140
Comments
Auxiliadora Silva
não pode cobrar nada .vc já sabia que era assim. Cabe a vc fazer ele se apaixonar. Faça ser diferente.
2024-12-07
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Auxiliadora Silva
não pode cobrar nada .vc já sabia que era assim. Cabe a vc fazer ele se apaixonar. Faça ser diferente.
2024-12-07
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Fátima Ribeiro
tem que estudar, ser alguém própria . Oferecer um estímulo à altura desse seu don.
2024-12-05
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