* Celeste Venturi *
A porta do quarto se abriu, e minha mãe entrou, fechando-a suavemente atrás de si. Eu sabia que a conversa seria difícil antes mesmo de ela dizer uma palavra. Sentada na cama, tentei manter a postura firme, mas o olhar dela me atravessava, cheio de expectativa. A presença dela, sempre elegante e controlada, carregava uma determinação que deixava pouco espaço para qualquer fuga.
Ela começou a andar lentamente pelo quarto, passando a mão pelos objetos sobre a cômoda, como se examinasse os detalhes da minha vida antes de começar.
— Celeste, precisamos falar sobre o futuro.
Sua voz era suave, mas a seriedade no tom deixava claro que não se tratava de uma simples conversa. Cruzei os braços, mantendo meu olhar firme, tentando conter o incômodo crescente.
— Não, mãe. O que você quer dizer é sobre o que esperam de mim.
Ela me olhou, um pouco surpresa com o meu tom, mas logo continuou ignorando minha interrupção.
— Esse casamento com a família Alighieri não é apenas uma união de nomes, Celeste. É a nossa segurança, a segurança da nossa família, que está em jogo.
Aquela palavra, segurança, me soava como uma prisão. Levantei-me da cama e fui até a janela, respirando fundo. Eu queria gritar que não queria nada disso, mas sabia que ela não entenderia. Para minha mãe, tradição e dever estavam acima de qualquer sentimento pessoal.
— Segurança ou prisão, mãe? Porque é isso que parece. Vocês estão me forçando a viver uma vida que não escolhi, com um homem que mal conheço, tudo por uma suposta segurança.
Eu me virei, encontrando o olhar dela. Não havia piedade ou compreensão ali. Apenas a frieza de quem acredita que o destino de sua filha já estava selado.
Ela se aproximou de mim, sua mão pousando levemente no meu ombro, mas o toque não trazia conforto.
— Celeste, isso não é uma escolha. Você é uma Venturi, e sua vida não é só sua. Nós pertencemos a algo maior, e cabe a você entender e aceitar isso.
Respirei fundo, lutando contra a onda de raiva e impotência que ameaçava me consumir.
— É sempre sobre a família, sobre o que vocês querem. E eu? Quando vocês vão pensar no que eu quero?
Ela suspirou, parecendo quase decepcionada, como se eu fosse uma criança fazendo birra.
— Você não entende agora, mas um dia vai entender. Esse casamento não é apenas sobre o que você quer, Celeste. É sobre o que todos nós precisamos. Você é a única que pode fazer isso por nós.
Aquelas palavras me cortaram fundo. "A única". Como se eu não passasse de um sacrifício que eles estavam prontos para fazer. Meus olhos ardiam, mas segurei as lágrimas.
— Se isso é o que todos precisam, então eu sou só uma peça do jogo de vocês, não é?
Ela se afastou, o rosto sereno e imperturbável, como se minha dor fosse uma inconveniência. Em vez de responder, limitou-se a ajeitar os ombros, o olhar frio.
— A vida que temos exige sacrifícios, Celeste. O que está em jogo aqui é o futuro de todos nós. Aceite isso. Não faça as coisas serem mais difíceis do que já são.
Fiquei em silêncio, tentando processar a extensão do peso que minha própria mãe me impunha.
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Assim que minha mãe saiu do quarto, fechei a porta com um pouco mais de força do que deveria, sentindo a frustração e a revolta pulsando em mim. A raiva subia à minha cabeça, e minha garganta apertava com uma necessidade insuportável de gritar. No entanto, sabia que ninguém realmente me ouviria. Ou, pelo menos, ninguém que entendesse o que eu estava passando.
Peguei o celular com as mãos trêmulas e disquei o número de Beatriz. Era a única pessoa que poderia entender o peso que estava carregando. Ela atendeu rapidamente, e o tom animado com que atendeu logo mudou ao ouvir minha voz abafada pelo nervosismo.
— Bia… preciso de você. Não aguento mais isso.
— Celeste, o que aconteceu? Você está bem? — A preocupação na voz dela era evidente, e isso já me dava um mínimo de conforto, uma âncora em meio ao caos.
Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos que pareciam se atropelar em minha mente. Andei pelo quarto, passando as mãos pelo cabelo enquanto falava.
— Minha mãe… ela veio aqui e basicamente me disse que eu não tenho escolha, que meu destino já foi decidido. — Soltei uma risada amarga, sem nenhum traço de humor. — Eles querem que eu me case com aquele cara, o Leandro Alighieri. Eles não estão me dando escolha, Bia. Estou sendo tratada como um peão… como se minha vida fosse apenas um meio para manter a tradição deles.
Beatriz ficou em silêncio por um momento, e eu sabia que ela estava absorvendo cada palavra, sentindo a minha dor à distância. Quando finalmente falou, a voz dela era séria e cheia de empatia.
— Céu, eu nem sei o que dizer. Isso é tão… injusto. Eles acham que você não tem sonhos, que você não é uma pessoa com vontades próprias?
Balancei a cabeça, embora ela não pudesse ver. O peso do conformismo que minha mãe me impusera ainda estava presente, e a indignação só aumentava a cada segundo.
— Exatamente! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Eles nem se importam. Na cabeça deles, é como se eu só existisse para servir ao que a família precisa. Meu futuro, meus desejos… tudo fica em segundo plano. E minha mãe ainda tentou fazer isso parecer um favor, algo "necessário".
— Você não merece isso, Céu. Nenhuma de nós merece — respondeu Beatriz, com a voz carregada de indignação. — Sei que você é forte, mas até quando você vai se sacrificar por algo que só está te prendendo? Tem que haver uma maneira de escapar disso, alguma saída.
Sentei-me na cama, tentando abafar o choro. As palavras de Beatriz ecoavam dentro de mim, me dando coragem, mesmo que por um instante. Ela estava certa. Mas eu sentia que, para minha família, eu nunca seria livre.
— E o pior é que, no fundo, tenho medo. Tenho medo de que, por mais que eu tente lutar, eles encontrem uma maneira de me forçar. Eles controlam tudo, Bia, tudo. Minha vida inteira está nas mãos deles.
— Ei, escuta aqui, Celeste. Você ainda tem a mim. Não vamos desistir de achar uma saída. Vamos descobrir uma forma de contornar isso, de libertar você dessa situação. Eu prometo.
A promessa dela fez algo dentro de mim se acalmar, mesmo que temporariamente. Bia sempre tivera uma força que eu admirava, uma coragem que eu desejava ter. E agora, ao ouvir essas palavras, senti uma pontada de esperança renascer em mim.
— Obrigada, Bia. Só de saber que você está comigo já me ajuda mais do que você imagina.
Ela suspirou, e a voz dela se tornou mais suave, quase maternal.
— Eu sempre estarei, Céu. Você é mais forte do que pensa. E quando chegar a hora, eu sei que você vai encontrar uma maneira de fazer a sua própria escolha.
Desligamos, e o quarto voltou a ficar em silêncio. Mas, dessa vez, o silêncio parecia menos opressor. Havia algo diferente no ar, uma sensação de que, talvez, eu pudesse resistir a essa vida que tentavam impor a mim. Talvez, com Beatriz ao meu lado, eu não estivesse tão sozinha quanto eles queriam que eu acreditasse.
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Celeste Venturi
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Atualizado até capítulo 140
Comments
Marilena Yuriko Nishiyama
a Celeste é tão nova que irá se casar com um homem que ela não o conhece só por tradição da família que nem se importa o que ela sente com isso
2024-11-10
1
Anonymous
Estou adorando!!!Continue…..
2025-02-19
0
Janete Ribeiro
nova e linda
2024-12-28
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