( A Menina que Matava Gatos )

Na pacata vila de Maré Velha, onde o sol parecia brilhar apenas para acentuar as sombras, havia uma menininha chamada Belinda. Sua presença, embora delicada, era envolta em uma aura de mistério e inquietação. Com seus longos cabelos escuros e olhos que refletiam um brilho insensato, a menina era frequentemente vista perambulando pelas ruas desertas em busca de algo para satisfazer sua curiosidade insaciável. Contudo, essa curiosidade logo se tornaria sinistra.

Belinda tinha um fascínio peculiar por gatos. Não os acariciava ou brincava como uma criança comum. Para ela, aqueles pequenos seres ágeis representavam um jogo macabro, um desafio que a instigava a explorar as profundezas de sua própria mente obscura. As primeiras vezes em que pegou um gato, não eram atos de crueldade abertamente calculados. Eram mais como experimentações sem noção do mal, das consequências. Mas o que começou como uma curiosidade inconsciente logo se transformou em uma obsessão doentia.

Os gatos da vila começaram a desaparecer. Inicialmente, os moradores pensaram que poderiam ter se afastado para explorar outros lugares ou que algo poderia tê-los levado a se perder. Mas quando um, dois, três desapareceram, os sussurros começaram a ecoar entre os adultos. Os olhares desconfiados se voltaram para Belinda. Ela, no entanto, parecia alheia às murmurações, sempre com um leve sorriso nos lábios, como se guardasse um segredo obscuro.

Com o passar do tempo, seu fascínio e entusiasmo se tornaram mais vívidos. Criou métodos cada vez mais elaborados e perversos para capturar os felinos; um fio desencapado, uma armadilha feita de papelão e iscas irresistíveis. A cada captura, um novo ritual se desenrolava. Ela estudava suas vítimas, observava seus olhos aterrorizados, e sentia um prazer indescritível ao ver a vida se esvaindo lentamente dos felinos. A crueldade tornara-se uma forma de arte para Belinda; a toda essa malignidade, ela atribuía uma estética sombria, como se fosse uma pintora trabalhando em uma tela carmesim.

Aos poucos, os gatos restantes começaram a se esconder. As noites em Maré Velha tornaram-se silenciosas, quebradas apenas por lamentos distantes de felinos dispersos. Os moradores, temerosos, tentaram proteger os seus animais de estimação, mas a ironia da situação era que o verdadeiro perigo não residia nas sombras, mas na inocência disfarçada da menina.

Certa noite, enquanto os ventos uivavam como lamentos ensandecidos, a escuridão tomou conta da vila. Belinda decidiu que era hora de levar seu "hobby" a um novo patamar. A lua cheia iluminava sua figura enquanto ela se movia pela floresta que circundava a cidade, atraindo um gato negro com um balde de peixes podres. Quando finalmente conseguiu, seu olhar triunfante encontrou os olhos aterrorizados do animal, e o sorriso que brotou em sua face era a evidência de uma alma enegrecida.

O ato final, porém, não seria uma simples morte. Belinda havia criado um elaborado ritual, um sinistro espetáculo que culminaria em um sacrifício que, para ela, simbolizaria uma espécie de poder absoluto. No entanto, naquela mesma noite, algo começou a mudar. Uma brisa estranha percorreu a floresta, e um silêncio gelado envolveu o ambiente.

De repente, as sombras se agitaram na escuridão. O murmúrio sobrenatural se intensificou até que entidades protetoras dos gatos, forças invisíveis que haviam sido invocadas pelas almas dos felinos abatidos, começaram a se manifestar. Seus olhos cintilavam com uma fúria irrefreável. A atmosfera ao redor de Belinda estava eletricamente carregada, consciente do perigo que se aproximava.

Enquanto ela iniciava o ritual macabro, uma onda de terror inundou seu ser. Os grunhidos dos gatos assassinados se tornaram ensurdecedoras, e os espíritos vingativos se materializaram em formas etéreas e distorcidas. Era uma sinfonia cacofonia de miados agonizantes, um chamado coletivo em busca de justiça. Belinda tentou gritar, mas sua voz se perdeu entre os ecos da floresta.

As entidades avançaram com uma velocidade sobrenatural, cercando-a como se fossem correntes invisíveis. Elas a prenderam, impedindo qualquer tentativa de fuga. O que se seguiu foi um verdadeiro espetáculo de punição. Belinda conheceu a verdadeira essência da dor, uma dor que não era apenas física, mas uma tortura da mente. As forças do além não apenas se vingaram; elas fizeram questão de que a menina experimentasse cada sofrimento que impôs aos inocentes felinos.

E assim, a cruel caçadora de gatos encontrou o destino que havia mais do que merecido. Quando os moradores da vila acordaram no dia seguinte, uma cena horrenda os aguardava. No lugar onde Belinda costumava brincar com seus "brinquedos", havia apenas uma pilha indistinta de carne moída destroçada. O silêncio que reinava na manhã era quase palpável, e os olhares se encontraram em compreensão mútua. Sabiam que a paz havia retornado a Maré Velha, mas às custas de uma vida.

O que restou da menina foi um aviso sombrio, um lembrete de que os caminhos sombrios da crueldade nunca permanecem sem resposta. E assim, Maré Velha continuou a viver, mas com os ecos de seus pesadelos reverberando eternamente nas paredes da memória coletiva. É preciso lembrar que há forças na natureza que protegem os inocentes, e que o mal, quando semeado, muitas vezes colhe o que não pode suportar.

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