Essa é a história de Samira, a mulher que portava o beijo da morte, e que ecoou por gerações na pequena cidade de Eldoria. Ela era uma mulher sedutora, de lábios carnudos e olhos que pareciam conter tempestades, Samira não era apenas temida; ela era desejada e reverenciada num temor distorcido que se arrastava entre as sombras. A sua fama cresceu durante os anos, acompanhada de sussurros sobre a terrível maldição que ela controlava com mãos destreinadas de bondade.
As lendas falam de um beijo, um gesto que deveria ser símbolo de amor e carinho, mas que nas mãos de Samira se tornara uma ferramenta de destruição. Com um toque suave dos seus lábios, as suas vítimas secavam como flores ao sol inclemente, tranformando-se em poeira fina, desaparecendo do mundo em questão de instantes. A cada vida que acabava sob o seu poder, uma nova camada de escuridão se acumulava em seu coração, aumentando sua maldade e solidão.
A origem da maldição era envolta em mistérios. Alguns diziam que ela havia sido amaldiçoada por uma bruxa antiga, enquanto outros afirmavam que a maldição havia sido alto imposta, resultado de um amor não correspondido que degenerou em amargura. Certo é que Samira sentia o peso da sua condição, mas em vez de buscar redenção, ela optou por perpetuar o seu ciclo de terror.
Com o passar do tempo, a vila tornou-se um lugar de desespero. Os habitantes aprenderam a evitar os becos onde Samira costumava vagar, mas a curiosidade humana é insaciável. Numa noite fatídica um grupo de jovens incitados pela bravata, decidiram confronta-la. Com corações pulsando de coragem e medo, eles dirigiram-se ao lar sombrio da mulher.
Assim que chegaram, encontraram a porta entre aberta, como se Samira os estivesse esperando. Ao entrarem, foram recebidos por uma penumbra densa e o cheiro de mofo permaneava o ar. Na sala central, a figura de Samira parecia mais espectral do que nunca. Olhos frios, e um sorriso enigmático. A atmosfera instantâneamente ficou carregada de tensão.
— "Vocês vieram me confrontar?" — ela perguntou, com um tom que misturava sarcasmo e curiosidade.
Um dos jovens, ativo e decidido avançou:
— "Estamos aqui para acabar com o seu reinado de terror!"
A bravura dele era palpável, mas a incerteza emanava dos seus amigos.
Samira riu levemente, uma risada que arrepiava a espinha:
— Vocês não sabem a quem estão enfrentando! — ela advertiu, e num movimento fluido, aproximou-se do jovem desafiante. O ar parecia carregar uma eletricidade insuportável.
Antes que alguém pudesse reagir, Samira se inclinou e deu um beijo no garoto. Em questão de segundos, o corpo dele começou a encolher, foi perdendo a coloração, até que num instante ele se desfez em poeira diante dos olhos horrorizados dos amigos. Um grito ecoou, mas logo foi silenciado pela realidade cruel. A maldição de Samira agiu rapidamente, sem compaixão.
Os jovens restantes fugiram, levando consigo a memória terrível daquele ato. Mas, algo inesperado aconteceu em seguida. O sopro de um destino irônico girou em torno de Samira. À medida que a adrenalina da ação a preenchia, ela percebeu que a força obscura da maldição estava começando a se voltar impiedosamente contra ela.
Nas semanas seguintes, Samira começou a sentir os efeitos do seu próprio poder. Cada beijo que ela havia dado, cada vida que ela havia ceifado, naquele instante voltava como um eco sinistro. As suas forças eram drenadas lentamente. Os olhos que antes brilhavam de malícia agora estavam envoltos em confusão.
Num último esforço para reverter a maldição que a consumia, Samira buscou consolo nas sombras da sua própria casa. Ela trouxe à tona os livros antigos que guardava, cheios de feitiços e encantamentos esquecidos. Desesperadamente, ela tentou encontrar uma solução, uma maneira de desfazer o que havia causado. Mas seus conhecimentos se mostravam inúteis, e os feitiços mais que encantamentos, eram correntes que a prendiam à sua própria ruína.
Com o tempo, as pessoas começaram a notar a transformação. O ar em torno dela já não exalava apenas terror; havia um perfume de tristeza e solidão. Samira, na sua busca por controle, havia perdido a essência do que um dia poderia ter tido: — A capacidade de amar e ser amada. Perdida entre os ecos de sua própria maldade, ela viu-se sozinha, uma sombra do que foi um dia.
Então, num último golpe de ironia, Samira encontrou um antigo diário. Nele estava escrito que o único antídoto para quebrar a maldição estava dentro de um beijo genuíno e puro. Mas, após tantos anos de crueldade, como poderia ela, uma mulher que conhecia apenas o ódio, recuperar tal sentimento?
Naquela noite, Samira olhou para o espelho, as linhas de seu rosto a traíam. A beleza que um dia tivera se desvanecia dela como as suas vítimas. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Lembranças de um amor perdido a assolavam. Compreendeu naquele momento que a verdadeira maldição não era o beijo que secava a vida, mas sim a incapacidade de sentir amor.
Samira lançou-se em uma última tentativa de libertação. Foi até o bosque onde haviam ocorrido os antigos romances. Com o coração pesado, ela proferiu palavras de arrependimento, pedindo perdão a aqueles que havia prejudicado. Após isso sentiu o calor de uma nova presença. Um espírito, invisível aos olhos humanos, envolveu-a como um abraço afetuoso. Era o espírito de uma das suas vítimas.
Ouvindo as súplicas de perdão, aquele espírito respondeu:
— O amor é o antídoto, mas ele deve vir de dentro!"
Naquela momento o eco da sua maldição retornou com uma força avassaladora. Samira lembrou-se de como era ser amada, mesmo que aquele amor proviesse da dor. Com um último desejo intenso elas se deixou levar.
A manhã seguinte trouxe uma cena devastadora. Os moradores encontraram a casa de Samira, em ruínas. No centro do local, estava apenas a poeira deixada por uma vida que se foi, mas no ar pairava uma sensação de alívio. Era como se a própria natureza estivesse celebrando a libertação de uma alma condenada.
A lenda de Samira persistiu, mas não como uma simples história de maldade. Tornou-se uma advertência sobre os perigos do ódio e da solidão. Nos corações dos habitantes de Eldoria, a verdade firmou-se: — O amor pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição, e cada escolha feita pode gerar consequências inimagináveis.
Assim o beijo amaldiçoada se tornara um símbolo de reflexão. As crianças, ao ouvirem essa história aprendiam sobre compaixão, empatia, e os riscos da maldade. Samira a mulher que buscou poder às custas da vida dos outros, tranformou-se em uma lição sobre a luz e a escuridão que habitam em cada coração humano.
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Atualizado até capítulo 47
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