( A Entidade Maligna )

A noite havia caído implacavelmente sobre a cidade, envolvendo cada rua e edifício em um manto de escuridão opressora. O silêncio absoluto dominava o ambiente, quebrado apenas pelo ocasional sussurrar do vento que atravessava os becos desérticos. Em meio a essa atmosfera tenebrosa, um homem, chamado Ricardo, encontrava-se sozinho em um quarto escuro, imerso em seus pensamentos sombrios.

Ricardo era um intelectual, um professor de literatura que, após um dia extenuante de trabalho, decidiu se isolar em sua casa para compor uma nova obra. No entanto, ao entrar no seu pequeno escritório, não podia imaginar que aquela decisão o levaria a um dos episódios mais aterrorizantes de sua vida. As paredes estreitas eram adornadas com prateleiras repletas de livros empoeirados, enquanto a única fonte de luz vinha de uma lâmpada fraca, que piscava nervosamente, como se lutasse contra a escuridão que a ameaçava.

O tempo passava lentamente, e a sensação de claustrofobia começava a permeá-lo. Ricardo, na tentativa de se concentrar, fechou os olhos, buscando inspiração nas profundezas da sua mente. No entanto, ao abrir os olhos, sentiu uma presença estranha no ar — algo que não deveria estar ali, mas que, de certa forma, ele não conseguia ignorar.

A princípio, pensou que fosse fruto de sua imaginação. Contudo, à medida que a noite avançava, a sensação se tornava mais palpável. Os ruídos, antes sutis, agora se intensificaram. De repente um leve arranhar na parede, como se algo estivesse se movendo nos recantos sombrios do escritório. Ele se forçou a acreditar que era apenas o velho prédio gemendo, mas uma inquietação crescente se instalou em seu peito.

Ricardo levantou-se da cadeira, decidido a investigar a origem daquele barulho perturbador. Com passos hesitantes, aproximou-se da porta. Ao abri-la, um frio gélido invadiu o espaço, fazendo sua carne se arrepiar. O corredor estava vazio, mas a mesma escuridão que preenchia seu quarto parecia se estender para fora, como se estivesse viva.

Retornando ao interior do quarto, ele tentou afastar os pensamentos intrusivos que insistiam em se infiltrar em sua mente. Sentou-se novamente, mas agora, um sentimento de angústia o assolava. Olhou para seus livros, cada um guardando fragmentos de realidades distintas, e, com um movimento brusco, começou a folheá-los, buscando alguma resposta para aquela inquietação.

Olhando para as páginas amareladas, as palavras pareciam dançar diante de seus olhos. Uma frase em particular destacou-se: "As sombras se alimentam do medo." Um arrepio percorreu sua espinha, e ele sentiu que a própria frase estava direcionada a ele, como um aviso sinistro.

Naquele momento, o arranhar começou novamente, mas agora era mais intenso, quase desesperado. Ele voltou a se levantar, determinado a confrontar aquilo que o atormentava. Com um lampejo de bravura, lançou um olhar penetrante para os cantos do quarto, onde a penumbra parecia mais densa.

Subitamente, a lâmpada apagou-se completamente, mergulhando-o em uma escuridão absoluta. O coração de Ricardo pulsava freneticamente. Tentou se acalmar, lembrando-se de que a mente humana é uma máquina propensa a criar medos. Mas a verdade era que, naquela escuridão, ele não estava sozinho.

Sussurros começaram a ecoar dentro de sua mente, palavras indecifráveis que o envolviam como uma névoa. Ele sentiu uma presença se aproximar, uma sombra amorfa que se contorcia, desafiando as leis da realidade. Numa mistura de curiosidade e terror, ele estendeu a mão em direção à escuridão, como se tentasse tocar aquilo que tanto temia.

De repente, a lâmpada ressurgiu, iluminando o quarto numa luz fria e mortiça. Porém, o que ele viu fez seu sangue gelar. Em um canto, havia uma figura indistinta, de olhos negros como a noite e um sorriso que refletia um prazer doentio. A sombra parecia observar cada movimento seu, cada batida de seu coração acelerado.

Ele tentou gritar, mas as palavras falharam em sua garganta. A figura avançou lentamente, como se estivesse apenas brincando com sua presa, saboreando o medo que emanava de Ricardo. Os objetos ao redor começaram a se mover, como se a própria atmosfera estivesse respondendo à presença daquela entidade maligna.

Desesperado, Ricardo buscou uma saída, mas as paredes pareciam ter se fechado sobre ele. O ar tornara-se pesado, quase insuportável, enquanto a criatura continuava sua dança macabra ao seu redor. Foi nesse momento que a intenção de seu afastamento tornou-se clara: a sombra se alimentava do pânico do homem, e quanto mais ele lutava, mais forte ela se tornava.

Com uma determinação renovada, Ricardo decidiu enfrentar seu medo. Ele se lembrou das histórias que costumava contar a seus alunos, sobre a coragem diante da adversidade e a luz que sempre pode vencer a escuridão. Inspirando profundamente, ele fechou os olhos e evocou cada fragmento daquela coragem esquecida.

— "Eu não tenho medo", — murmurou, sua voz tremendo, mas firme.

Aquela declaração ressoou no espaço, ecoando nas paredes como um grito de resistência. Para sua surpresa, a figura vacilou, a escuridão ao seu redor pareceu hesitar. Cada palavra que pronunciava se tornava um feixe de luz, enfraquecendo a presença que o cercava.

Com cada declaração de bravura, a sombra começou a se dissipar, como fumaça sendo levada pelo vento. Finalmente, com um último grito de determinação, Ricardo abriu os olhos, e a entidade desapareceu em um estalar de dedos, restituindo ao quarto a normalidade que antes possuíra.

Exausto, mas aliviado, ele afundou-se em sua cadeira. O quarto agora estava silencioso, mas a tensão ainda pairava no ar. Sabia que o verdadeiro confronto não terminara ali; a sombra poderia retornar. No entanto, também compreendeu que a força para enfrentá-la residia dentro dele. Com um novo propósito, Ricardo pegou a caneta e começou a escrever, sua mente inundada de ideias e novas narrativas, uma história de luta e superação, uma ode à luz que, embora frágil, nunca deixaria de brilhar.

E assim, no silêncio da noite, ele transformou seu medo em arte, provando que até mesmo as sombras mais escuras podem ser iluminadas pela força da esperança.

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