( O Artesão )

Na singela cidade de São Silvestre, onde o tempo parecia estagnar, vivia um homem que se destacava não apenas pela sua habilidade como artesão, mas também por um segredo sombrio que o tornava distinto dos demais. O seu nome era Serafim Arantes, um mestre em cerâmica, conhecido por suas peças únicas e impressionantes, que atraíam admiradores de váriados lugares. No entanto, ninguém sabia que a verdadeira origem da sua matéria-prima era muito mais macabra do que qualquer artista poderia imaginar.

Serafim era um homem com grande carisma, capaz de cativar os seus visitantes com histórias sobre a arte de moldar a argila. Ele costumava convidar pessoas para conhecer o seu ateliê, uma antiga construção cheia de charme e mistério. Ele prometia ensinar os segredos da cerâmica, mas havia uma outra intenção por trás de cada convite: — A busca constante por novas vítimas.

A estratégia de Serafim era meticulosa. Ele usava desculpas convincentes para atrair as pessoas para o seu refúgio; desde promessas de aulas gratuitas até a oferta de peças únicas a preços acessíveis. Quando alguém se mostrava interessado, ele se certificava de que a pessoa estivesse sozinha e vulnerável. Assim que cruzavam a porta do seu ateliê, a atmosfera mudava; o cheiro doce da argila se misturava com uma sensação opressiva que poucos conseguiam perceber.

Uma vez dentro, Serafim oferecia uma bebida, geralmente com uma mistura que ele mesmo preparava. Era um coquetel letal, batizado com um veneno que agia rapidamente. Após a ingestão, as vítimas sentiam uma onde de tontura sem saber que suas vidas chegariam ao fim naquele instante. Serafim assistia impassível, enquanto a vida se esvaia dos olhos incautos. A morbidez do momento não afetava a sua mente focada; ele tinha um objetivo.

Os corpos eram cuidadosamente despidos e mergulhados numa banheira repleta de uma substância corrosiva. Um líquido que ele havia desenvolvido ao longo dos anos. O processo de dissolução da carne era muito demorado, mas ele era paciente. Sabia que, após algumas horas, tudo o que restaria seriam os ossos, limpos e prontos para a sua transformação artística.

Com um olhar clínico, Serafim observava cada etapa do processo, anotando as suas observações num caderno encadernado em couro marrom, que ele chamava de "Diário do Artesão", para ele, cada corpo era uma nova oportunidade; os ossos se tornavam um componente essencial da sua arte, transformando tragédias em beleza eterna. Ele desenvolveu uma técnica secreta de moagem, tornando os ossos num pó fino que poderia ser misturado a argila, criando peças que eram tanto arte quanto uma homenagem às almas perdidas.

Com o passar do tempo, as obras de Serafim começaram a ganhar reconhecimento. Crânios decorativos, vasos com detalhes intrincados, e esculturas abstratas foram expostas em grandes galerias de artes. O povo de São Silvestre pensava que as peças eram inspiradas nas formas naturais do mundo, mas a verdade se escondia sob a superfície. O artista estava, na verdade, cultuando as suas vítimas; cada obra era uma representação da vida ceifada, uma memória eterna dos que jamais voltariam a ver a luz do dia novamente.

A fama lhe trouxe potenciais novos clientes, mas as suspeitas, embora raras, também começaram a surgir. Algumas pessoas notaram a estranha ausência de certos indivíduos que visitavam o ateliê, mas Serafim sempre tinha uma explicação convincente. Ele se mostrava preocupado e triste com a "desaparição" dos jovens artistas que não haviam conseguido lidar com a dor da rejeição. O seu talento em manipular emoções e criar narrativas envolventes era quase sobrenatural.

Apesar de todos os cuidados, Serafim sabia que o seu tempo poderia acabar a qualquer momento. Ele vivia em um estado de tensão constante, ciente de que um erro poderia levá-lo à prisão. Portanto, ele decidiu mudar-se de cidade com frequência, levando o seu ateliê itinerante para diferentes regiões, onde poderia continuar a sua prática macabra sem ser detectado.

Em uma dessas viagens, Serafim chegou a uma charmosa vila costeira chamada Punto del Lua, famosa por suas paisagens deslumbrantes e pela comunidade artística vibrante. Nessa vila, ele encontrou uma nova fonte de inspiração e inúmeras oportunidades. As suas peças começaram a ser vendidas em mercados de artes locais, novos visitantes eram atraídos pelo misterioso artesão que apareceu do nada.

A sua popularidade cresceu, mas junto dela, o aroma dos desaparecimentos também começou a pairar no ar. Nos últimos meses, várias pessoas da vila haviam sumido, especialmente jovens que se aventuravam em busca de fama e sucesso nas artes. Serafim mantinha a sua rotina imperturbável, mas a pressão aumentava. Cada nova vítima exigia um maior grau de planejamento e cautela. Ele estava sempre atento aos detalhes, aos olhares desconfiados e ao sussurro das bocas inquietas na praça central.

Certa noite, Serafim decidiu realizar uma exposição das suas obras, na esperança de atrair potenciais vítimas, mas também de se consolidar como uma figura central na cena artística local. O evento foi um sucesso estrondoso. Pessoas de todas as idades visitaram sei ateliê temporário, maravilhadas com a beleza macabra das suas criações. Sentindo-se invencível, ele entregou um sorriso cativante a todos, enquanto o seu olhar carregava um brilho insano.

Entretanto, um detetive que estava de férias na vila começou a notar algo estranho. Ele era um amante da arte e logo interessou-se pelas obras de Serafim. Mas algo o incomodava. Ele então começou a investigar as histórias de pessoas desaparecidas e logo fez a conexão entre elas e o misterioso artesão.

Serafim por sua vez, sentia o cheiro da investigação se aproximando, como um predador que percebia a presença de uma presa. Consequentemente, ele decidiu fazer uma mudança brusca no seu modus operandi. Em vez de usar venenos, ele começou a usar métodos mais brutais, contando com a força física para eliminar as suas vitimas e reduzir os riscos de serem envenenadas.

No entanto, essa mudança trouxe consequências inesperadas. As mortes tornaram-se ainda mais evidentes, e com isso, a atenção da polícia aumentou. O detetive, que se tornou obcecado pela busca da verdade não só analisou as peças de Serafim, mas também começou a observar os seus comportamentos, reações e interações com a comunidade.

Um confronto inevitável estava se formando. Enquanto isso, Serafim sentia a necessidade de matar e criar se intensificando, tranformando-se numa compulsão que não poderia ser ignorada. Ele estava prestes a cometer um erro que mudaria tudo.

Naquela noite fatídica, ele havia escolhido a sua próxima vítima: uma jovem artística local que havia se mostrado encantada com o seu trabalho e pretendia estudar com ele. Durante a conversa inicial, Serafim percebeu que ela era diferente; ela tinha um espírito indomável e uma curiosidade que podia ser potencialmente perigosa. Ao mesmo tempo, essa mesma curiosidade o fascinava.

Ele convidou-a para ir até o seu ateliê, prometendo uma noite de aprendizados e revelações artísticas. No entanto, a jovem não era ingênua. Ao desconfiar do comportamento peculiar de Serafim, pediu que ele a deixasse explorar o seu ateliê. Ao fazê-lo, a artista começou a notar detalhes perturbadores, manchas de sangue secas no chão, um odor forte que permeava o ambiente, e mais importante, a ausência de qualquer outra pessoa que pudesse ter colaborado nas suas criações.

No momento em que ela decidiu se afastar, Serafim ficou furioso e, num ato de desespero, tentou atacá-la. A luta foi intensa, mas a artista conseguiu escapar com algumas pequenas escoriações de defesa. A partir desse momento, o cerco fechou-se. Ela correu até delegacia mais próxima, onde expôs as suas suspeitas e, em pouco tempo, a polícia estava à procura do artesão.

A história de Serafim Arantes ganhou notoriedade quando as autoridades descobriram o seu esconderijo, repleto de provas aterradoras. Ossos moídos, cadernos detalhando as suas técnicas e um alçapão escondido que continha os restos mortais das suas vítimas, agora mostravam quantas vidas foram tragicamente interrompidas por sua busca egoísta pela beleza.

O detetive, ao finalmente colocar as suas mãos em Serafim, percebeu que havia desvendado não apenas um assassino, mas também um artista que acreditava que a morte e a vida podiam coexistir através das suas criações. E assim, o ciclo de terror foi encerrado, mas a memória de Serafim Arantes, o artesão sombrio que transformou a dor humana em arte, permanecerá para sempre gravada na história da cidade de São Silvestre e na vila Punto del Lua.

( Epílogo )

Embora Serafim tenha sido capturado, notícias de sua arte sombria continuam a circular. Peças feitas de "ossos" começaram a aparecer em leilões clandestinos, alimentando uma nova onda de curiosidade e adoração por suas criações macabras. Ele pode ter sido preso, mas suas obras frutos de uma mente perturbada, tornaram-se objetos de cultos satânicos. A linha entre a arte e o crime havia se tornado ainda mais tênue.

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