Numa pequena cidade, onde os dias se arrastavam num ritmo monótono e pacífico, havia uma loja de brinquedos antiga, conhecida como "Relíquias de Infância", um relicário de objetos esquecidos pelo tempo. O lugar era um labirinto de memórias, com prateleiras recheadas de brinquedos que foram moldados por épocas passadas. Entre essas relíquias, estava uma boneca de porcelana que se destacava. Com sua pele alva como a lua, de olhos profundos que deixavam claro captar a essência do mundo e por último, mas não menos importante uma expressão enigmática que adornava a sua face.
Uma grande camada de poeira cobria seu corpo, revelando quanto tempo ela estava ali, ignorada. Mas isso estava prestes a mudar, quando Sara para escapar de uma tempestade, cruzou as portas da loja e deu de cara com a boneca, Sara, imediatamente se atraí por ela. Mas mal sabia ela que o seu ato impulsivo de adquiri-la desencadearia em uma série de eventos que transformariam a sua vida e a da sua família para sempre.
Ao voltar para a casa, o clima dentro da residência já era diferente. Era como se a própria atmosfera estivesse assossiada a uma expectativa sombria. A aura do lar, que outrora era acolhedora, estava repleta de uma energia estranha. Para Sofie sua filha de apenas seis anos, a boneca havia sido um achado mágico; seus olhos brilharam ao tê-la segurado em suas pequeninas mãos pela primeira vez. Sofie apaixonou-se pela boneca instantâneamente, dando até um nome a ela: "Luzia". Sara, apesar de estar sentindo um pressentimento inquietante, achou a alegria da filha mais importante e decidiu ignorar as primeiras fissuras nas paredes da normalidade.
Com o passar dos dias, a tranquilidade da família começou a se desvanecer. E as pequenas desavenças entre Sara e seu marido Cláudio tronaram-se mais frequentes, eram sempre discussões por motivos insignificantes e também começaram a acontecer acidentes inusitados, um prato quebrado aqui, uma janela estourada ali, uma panela que caia da mesa, e lâmpadas que queimavam inexplicavelmente. esses eram apenas os primeiros sinais do caos que se instalava com um intruso indesejado. A atmosfera antes acolhedora da casa ficou pesada, como se o ar tivesse sido drenado de alegria. Sara percebeu que a boneca tinha uma presença silenciosa que parecia alimentar-se das tensões que permeavam o ar.
Enquanto isso, as noites de Sofie se transformaram em um campo de batalha contra os pesadelos constantes. No meio da noite ela acordava gritando, chamando a mãe, em seu rosto era evidente o terror que a consumia. Estranhamente a menina começou a conversar sozinha, murmurando coisas que Sara não conseguia decifrar, que deixava seu coração apertado de preocupação. O que mais incomodava Sara era que em alguns momentos, Sofie parecia se dirigir a boneca com uma familiaridade perturbadora, como se Luzia lhe respondesse de alguma forma.
Uma noite, após mais um pesadelo terrível, Sara atraída por uma força inexplicável, decidiu verificar o quarto da filha. Ao abrir a porta seu coração parou. A boneca estava em pé no chão, imóvel olhando para Sofie que dormia pacificamente. O silêncio era tão denso que clara podia ouvir seu próprio coração pulsar em suas têmporas. Quando Sara tentou se aproximar da cama Sofie se transformou subitamente, como se uma sombra tivesse tocado seu corpo. A menina se contorceu em seguida deu um grito agudo, resssoando como se estivesse sendo possuída por algo que não lhe pertencia. Naquele momento Sara sentiu uma onda de calafrios cruzar a sua espinha.
Desesperada com o terror da noite anterior, Sara usando o google deu início a uma investigação árdua sobre as origens da boneca. Mergulhando de cabeça em relatos antigos, folhetins locais e arquivos esquecidos da cidade, o que ela descobriu foi aterrador: Luzia não era uma simples boneca. Em um dos relatos dizia que uma mulher chamada Cíntia havia perdido sua filha em um terrível acidente, desolada, Cíntia fez um pacto obscuro com um entidade maligna, na esperança de trazer sua filha de volta a vida. Mas tudo deu errado e a entidade se apoderou da boneca preferida da filha de Cíntia, passando então a se alimentar da dor e do medo das famílias que a abrigavam. Cada vez que a boneca mudava de dono, a sua força crescia, e logo ganhava uma forma física, capaz de dominar todos aqueles ao seu redor.
Armada com aquelas informações, Sara percebeu que a boneca não era apenas um objeto; era também uma armadilha, uma predadora. Mas o verdadeiro horror começou a se revelar quando Cláudio, influenciado por uma força invisível, começou a agir estranhamente, brigando com Sara por motivos insignificantes e às vezes ameaçando-a de morte com palavras carregadas de muita raiva.
Naquela mesma tarde enquanto Cláudio descansava após o episódio horrendo de raiva, Sara levou a boneca até o jardim, o céu havia escurecido de repente e os ventos começaram a soprar, como se os próprios elementos estivessem reagindo à presença demoníaca de Luzia. Uma tempestade violenta estava se formando, enquanto os relâmpagos cortavam o céu Sara cheia de coragem decidiu confrontar Luzia. A atmosfera imediatamente ficou eletricamente tensa. Sara sentiu o frio da presença da entidade quando olhou bem no fundo dos olhos horripilantes da boneca.
— "Deixe minha família em paz!" — falou, sua voz trêmia mas ao mesmo tempo estava firme."
Para a surpresa e pânico de Sara, a boneca respondeu com uma voz monstruosa:
— "Você não pode me banir, Sara. Eu sou o caos que habita nos teus medos, e nas tuas inseguranças."
Seu sorriso se ampliou de uma forma, grotesca, revelando dentes afiados e pontiagudos, como farpas finas de madeira.
Pegando um pedaço de papel que estava enfiado no bolso da sua calça jeans, em voz baixa ela deu início a um ritual que havia pego da internet e escrito no papel. As palavras escapavam de seus lábios como feitiços esquecidos, enquanto ela cercava a boneca com sal. Quando terminou o círculo sentiu uma mão fria tocando seu ombro. Ela se virou rapidamente e viu Sofie parada, com lágrimas nos olhos ela disse:
— "Mamãe Luzia só quer brincar. Ela disse que vai nos proteger. Por favor mamãe, não a machuque."
O horror apoderou-se de Sara. Em questão de segundos uma onda de energia a empurrou para trás. O ar ao redor de Sara tornou-se pesado, como se entidades invisíveis dançassem no espaço.
A boneca começou a se mexer, gargalhando de uma maneira que Sara sabia que não era bondade. Os gritos de Sofie ecoaram na escuridão, enquanto Sara lutava contra a presença opressiva que se apoderava do corpo da menina. Com um último esforço, Sara abraçou a filha e gritou firme:
— "Luzia! Você não é mais bem-vinda aqui! Nós não temos mais medo!"
O espaço parecia tremer, e em um instante de silêncio profundo, a boneca se levantou ficando em pé completamente paralisada. Sara viu os olhos de Luzia se apagararem, e um lamento distante invadiu a atmosfera, como se a própria casa chorasse. Uma luz azul emanou da boneca em seguida se desfez, e a boneca caiu, quebrando-se em mil pedaços.
No chão uma fumaça escura se afastava e se dispensava enquanto a tesão da casa se dissipava. Sara, exausta, abraçou com mais força Sofie enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. O caos havia terminado, mas a cicatriz emocional permaneceu.
No dia seguinte, enquanto a luz solar infiltrava-se pela janela, Sara, Cláudio e Sofie acordaram para um novo começo. E assim a história de Luzia, a boneca do Caos, passou a ser contada nas sombras das conversas da cidade, um lembrete de que nem todas as alegrias são inocentes.
A boneca do caos deixou suas marcas, mas a coragem de Sara salvou sua família. Embora a loja de brinquedos continue ali, murmúrios sobre uma nova boneca de porcelana com um olhar muito parecido já começaram a circular. O passado e suas sombras nunca podem ser totalmente apagadas, mas Sara sabia que com amor e determinação, poderiam ser enfrentadas.
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Atualizado até capítulo 47
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