No coração de uma cidade pequena, onde a névoa eterna envolvia as ruas como um manto de segredos não revelados, havia um ateliê que poucos se atreviam a visitar. Era conhecido como o estúdio de Alaric Voss, um pintor cuja fama crescia em sussurros e olhares furtivos. Suas obras eram hipnotizantes e perturbadoras, retratos que capturavam a essência da dor humana, mas poucos sabiam a verdadeira fonte de sua inspiração.
Alaric era um homem de aparência comum, com cabelos desgrenhados e olhos que pareciam absorver a luz ao seu redor. Contudo, havia algo de enigmático e perigoso nele, uma aura que atraía e repelía ao mesmo tempo. Ele passava horas em seu estúdio, mergulhando suas mãos em paletas repletas de cores vibrantes, mas o que poucos podiam imaginar era que a tinta que escorria de suas pinceladas não era feita de pigmentos comuns.
O artista havia descoberto um método único, um ritual macabro que o tornava imortal em sua arte. Em busca de inspiração pura, Alaric emboscou suas vítimas em noites mais escuras, utilizando artifícios variados para trazê-las ao seu domínio. Uma vez que elas cruzavam a porta do ateliê, estavam perdidas; seus gritos eram silenciados pela excitação de Alaric, que as imobilizava antes de realizar o ato horrendo.
O estúdio, coberto por uma espessa camada de sombras, era um altar profano. Com uma lâmina afiada, ele rasgava os abdômens de suas vítimas, removendo os órgãos internos com a delicadeza de um maestro. O buraco resultante se tornava um recipiente de sangue fresco, e era ali que Alaric mergulhava seu pincel, potencializando cada traço com a essência vital de suas sobras. Cada movimento era um balé de paixão e carnificina, criando obras-primas que revelavam emoções profundas e sombrias, fascinando aqueles que se atreviam a olhar.
Suas criações eram expostas em galerias, atraindo tanto admiradores quanto críticos. As mensagens subliminares contidas em suas telas falavam de sofrimento, perda e a linha tênue entre a vida e a morte. Muitas vezes, os espectadores se sentiam involuntariamente atraídos pelo poder quase hipnótico de suas obras, embora a maioria não soubesse que cada pincelada carregava consigo o peso de uma vida ceifada.
Mas, após anos de dedicação ao seu terrível ofício, Alaric se sentia cada vez mais inquieto. Suas últimas criações o consumiram – uma pintura inacabada que prometia ser a obra-prima de sua carreira. Ele sonhava com uma tela que transcendesse tudo o que havia feito até então, uma composição que unisse a beleza e o horror de maneira perfeita. Sua mente estava atormentada pelo desejo descontrolado de alcançar esse ápice criativo, mas a insaciável ânsia começou a afetar seu corpo, que já não suportava o fardo das consequências.
Certa noite, enquanto o alvorecer se aproximava, Alaric decidiu que precisava de uma última vítima para concluir sua obra. Ele espreitou pelas ruas, com seus instintos aguçados, até que avistou uma jovem chamada Elara, cujo brilho inocente o atraiu como uma mariposa à luz. Com uma estratégia engenhosa, ele a convenceu a visitar seu ateliê, prometendo mostrar suas obras intrigantes.
Ela entrou, maravilhada com as pinturas que cercavam o ambiente, completamente alheia ao destino que a aguardava. Mas, neste momento, algo inesperado aconteceu: a adrenalina correu por Alaric, mas também foi acompanhada por uma sensação de desespero. Quando se preparou para o ato, uma onda de dor e fraqueza o atingiu, como se a própria vida estivesse sendo drenada de seu corpo.
Antes que pudesse agir, seu coração disparou como um tambor furioso. Alaric caiu no chão, sentindo cada batimento como se fosse um eco de sua própria mortalidade. A visão da jovem em sua frente tornou-se turva, as cores da tela se misturaram em um borrão de horror e beleza. Ele estava prestes a deixar este mundo sem terminar sua última e mais inspiradora obra.
Com um último suspiro, Alaric percebeu que a essência da sua arte não residia apenas na dor que infligia, mas na conexão efêmera que selvagemente buscava, mesmo que em um ato tão grotesco. Naquele instante de lucidez final, ele entendeu que a verdadeira beleza estava em viver, não em tirar vidas.
Em seu estúdio, a tela em branco permaneceu sem vida, a paleta de cores estagnada, e Alaric Voss se despediu deste mundo, levando consigo os segredos de seu ateliê sombrio. E assim, ficou a lenda de um artista que pintou com sangue humano, mas nunca completou sua última criação, rivalizando com as sombras que agora o envolviam eternamente.
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Atualizado até capítulo 47
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