Capítulo - 20

Lincon

A sala da mansão está envolta em uma penumbra suave, a luz prateada da lua filtrando-se através das janelas amplas e refletindo nas superfícies polidas. O piso, de mármore, encontra-se manchado de sangue que se espalha lentamente. Eu seguro o castor, ainda quente e pesado em minhas mãos.

Ouço passos suaves se aproximando, e Clara aparece de repente. Seu olhar, inicialmente curioso, logo se transforma em horror ao deparar-se com a cena. Os olhos dela se arregalam, e a expressão de choque é quase palpável.

— Mas o que é isso, Lincon? — Sua voz é um misto de incredulidade e reprovação.

Desvio o olhar do corpo inerte do castor e, por um breve momento, apenas observo Clara. A tensão na sala beira e eletricidade.

— Existe uma pequena represa do outro lado da minha propriedade. Esse camarada aqui veio de lá. Ele estava causando arruaças, então eu o matei — digo, sério.

Ela fixa o olhar no castor, o desapontamento crescendo em seu rosto, como se estivesse testemunhando não apenas a morte de um animal. Então, diz:

— Precisava mesmo disso?

Neste instante meu lobo responde, sua voz grossa ecoando em minha mente:

"Poxa, eu estava me divertindo correndo atrás dele. Agora, ela falando assim, parece até que eu sou mal, Lincon."

Contenho um sorriso, um impulso que luta para emergir diante da situação absurdamente cômica e trágica. Em vez disso, pigarreio, buscando um tom sério, ao dizer:

— Ele iria derrubar a árvore do meu jardim, Clara. Então, sim, precisava disso.

Ela balança a cabeça, a frustração evidente nas suas feições. A atmosfera torna-se carregada, como se o ar estivesse mais denso, e a brisa noturna sussurra através da sala, quase um aviso.

— Você não pode simplesmente sair matando tudo que causa problemas, Lincon. Há outras formas.

As palavras dela ressoam em mim, um eco profundo que me fez reconsiderar. Eu estava tão focado em proteger o que era meu que havia ignorado a fragilidade do que nos cercava. A visão do castor, agora sem vida, fez com que eu me sinta como um vilão.

Solto um suspiro profundo, a frustração misturada com a culpa pairando no ar. Olho para Clara, tentando encontrar as palavras certas.

— Você tem razão. Eu não quero que você pense que sou alguém que apenas resolve tudo à força.

Nesse instante, a voz do meu lobo ecoa na minha mente, com um tom zombeteiro:

"Mas você é."

Decidido a ignorar sua provocação, volto minha atenção para Clara. Ela se aproxima, seu olhar fixo no castor em minhas mãos, a realidade do momento pesada e visceral. O sangue ainda pinga lentamente no piso, formando pequenas poças vermelhas que contrastam com a frieza do mármore.

— Ok, Lincon, lembre-se disso da próxima vez. Agora você precisa enterrar o bichinho, é o mínimo — diz ela, firme.

Suas palavras me atingem como um golpe, e eu aceno, reconhecendo a verdade que há nelas, e digo:

— Claro, vou enterrá-lo no jardim. Já volto.

Começo a me afastar, caminhando em direção ao jardim. A mente ainda trabalhando com pensamentos confusos. Cada passo que dou parece mais pesado, como se o castor, agora uma vítima das minhas decisões, carregasse um peso que não é só físico.

Enquanto caminho, sinto a brisa fresca da noite acariciar meu rosto, como se o próprio ar tentasse me confortar. As sombras do jardim se tornam mais nítidas à medida que a luz da lua se filtra entre as árvores. Cada folha, cada sombra parece pulsar com vida, e eu me pergunto se o castor, de alguma forma, ainda faz parte deste ciclo.

(...)

Assim que enterro o castor, volto para dentro da mansão e encontro Clara terminando de limpar o chão. O cheiro metálico do sangue ainda paira no ar, e o contraste com a opulência do lugar é desconcertante. Apressado, digo:

— Ei, Clara, não precisa fazer isso.

Ela dá de ombros, mantendo os olhos focados na tarefa, e bate uma mão na outra, afastando vestígios do que aconteceu.

— Não custa nada. O sangue iria secar e ficaria ruim para limpar depois. Aliás, Lincon, tem algo que quero te perguntar.

A curiosidade me leva a inclinar a cabeça, intrigado, e respondo:

— Pergunte, estou ouvindo.

Ela coça o rosto, parecendo confusa, e seu olhar se distancia, como se estivesse tentando conectar pontos soltos em sua mente.

— Lá no beco, quando você me ajudou... tinha algo, não sei se era um animal, mas aquilo era enorme. Por Deus, eu juro que aquilo pulou sobre seu carro, o teto até afundou um pouco... e as patas, as patas daquilo ficaram na lataria do seu carro.

Um frio percorre minha espinha, e engulo em seco, sabendo exatamente a que ela se refere. Nesse instante, a voz do meu lobo sussurra em minha mente:

"Aproveite a oportunidade e conte a ela sobre mim, Lincon. Deixe-me emergir, deixe-me falar com ela."

Sinto-me paralisado, um turbilhão de emoções me envolvendo. Olhando profundamente nos olhos de Clara, busco a coragem necessária para abrir meu coração.

— Clara, se você soubesse algo inimaginável sobre mim, você ficaria com medo?

Minha pergunta reverbera na escuridão da madrugada, enquanto a lua brilha através das janelas, como se fosse uma testemunha silenciosa desse momento. O silêncio que se segue é denso, e o olhar dela muda, os olhos se tornando mais alertas.

Ela hesita, o semblante sério, e finalmente diz:

— Eu... não sei. O que você está tentando me dizer?

O tom da sua voz é suave, mas há uma firmeza que me encoraja. A vulnerabilidade que sinto me faz querer me abrir, mas o medo do que isso pode significar para nós dois é paralisante.

— Há uma parte de mim que eu não revelei a você — confesso, as palavras saindo em um sussurro tenso. — Aquela coisa que você viu ter pulado sobre o carro, era... eu.

Clara me observa com os olhos arregalados, a confusão se destacando em seu rosto, acompanhada de uma curiosidade intensa.

— Lincon, você está falando de... de algo sobrenatural? — pergunta, franzindo o cenho.

— Algo assim — respondo, a voz tremendo. — Existe uma fera dentro de mim, algo que carrego comigo desde que nasci.

Ela dá um passo atrás, e meu coração dispara, temendo que a revelação a afaste. Mas, em vez de recuar, Clara me encara, a mente trabalhando rápido.

— Você... você tem um lobo dentro de você?

As palavras dela têm um peso, e eu sinto que a verdade está agora em nossas mãos. O silêncio se torna quase palpável, cada segundo carregado de tensão.

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Comments

Marcia Gomes muchny

Marcia Gomes muchny

e gora será que ela vai aceitar ele como um lobo espero que sim

2024-12-03

0

Marcia Cristina Carneiro

Marcia Cristina Carneiro

colega VC tá certíssima concordo plenamente com VC 8/01/25/

2025-01-09

0

Maria Das Graças Costa

Maria Das Graças Costa

olha margarete eu tambem tenho a mesma opinião o pai da clara é lobo e quem sabe pode ate ser um ALFA!!!!!

2024-12-04

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