Clara
Enquanto estou aqui observando minha mãe comer, a imagem dela distraída, mexendo no prato, me faz mergulhar em lembranças. Minha mente divaga para a surpresa que tive quando Lincon falou comigo.
Aquela conversa inesperada pareceu abrir um leque de possibilidades entre nós. Mas, preciso ir com calma; ele é o chefe da minha mãe e, para ser sincera, um completo desconhecido, que pode muito bem ser um maníaco.
Nesse momento de reflexão, sou puxada de volta à realidade pelo chamado dela.
— Clara! Clara!
Viro-me, ainda confusa, e pergunto:
— O que foi, mãe?
Ela me encara, seu olhar intenso enquanto mexe na comida com o garfo, e diz:
— Você ainda está com a foto do senhor Lincon no seu celular?
Pisco várias vezes, a surpresa me deixando sem palavras, até que finalmente respondo:
— Sim, mãe, estou.
Ela suspira profundamente, deixando o garfo cair sobre o prato, um som que ecoa no ambiente silencioso.
— Eu não sei mais o que fazer com você, Clara. Você foi a única que permaneceu aqui. Todos os seus colegas do colégio, ou estão estudando ou já têm um emprego.
Engulo em seco. As palavras dela são como facadas, e sinto as lágrimas ameaçando escapar. É sempre assim; a sensação de que minha mãe me tolera apenas para aliviar sua própria consciência é insuportável.
— Se meu pai estivesse aqui, seria...
Um silêncio pesado toma conta do ar, e então sinto um estalo. O tapa que ela me dá ecoa pelo local, um som que atrai olhares curiosos. O calor sobe ao meu rosto, enquanto ela me fere com suas palavras:
— Não ouse falar daquele infeliz que sumiu no mundo, sua ingrata! Fui eu quem lutou por nós duas. E pelo visto, eu falhei, não é? Olha só para você, Clara, pelo amor de Deus, o que quer da vida?
As lágrimas escorrem livremente pelo meu rosto, e um trovão forte ressoa lá fora, prenunciando a tempestade que se aproxima.
Levanto-me, tremendo, e a encaro, a voz baixa e cortante:
— Então eu te darei o que a senhora quer, mãe. Ficará livre de mim.
Mais um estrondo ressoa, e sem pensar, corro, as lágrimas turvando minha visão. Esbarro em alguém no corredor, mas não paro.
— Clara? Clara, está tudo bem? — a voz forte e firme de Lincon ecoa no espaço.
Somente quando entro no elevador percebo que esbarrei nele. Nossos olhares se cruzam, e meu coração martela no peito como um tambor.
Ele corre em minha direção, mas é tarde demais; as portas do elevador se fecham, e ouço seu grito desesperado:
— Clara!
Enquanto o elevador desce, permito que o choro venha, um lamento compulsivo. É como se todo o sofrimento reprimido se despedaçasse em lágrimas.
(...)
Assim que saio do prédio, a cidade cinza se desdobra diante de mim, o vento frio corta meu rosto. Sem pensar duas vezes, corro em meio ao trânsito, sem direção. Os primeiros pingos de chuva começam a despencar, pesados e frios, sobre minha pele.
Os pingos são um leve incômodo em comparação à dor que me dilacera por dentro. A lembrança fugaz do meu pai assombra meus pensamentos, e entre lágrimas e chuva, murmuro:
— Por que me abandonou, pai? ... Por que?
Minhas palavras se perdem no ar, abafadas pelo barulho das buzinas e pelos gritos raivosos das pessoas. Vejo tudo ao meu redor em um borrão, a vida em movimento, enquanto giro em meio a esse caos, assim como minha própria existência.
"Qual é o meu caminho? Por onde devo seguir? O que devo fazer da minha vida?"
Essas perguntas ecoam na minha mente, incessantes, enquanto continuo a correr sem destino, tentando escapar da dor que me aprisiona.
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Atualizado até capítulo 73
Comments
Au Au❣️
Mas tem de ficar aí à espera que a mãe termine de comer porquê?! 🤣🤦♀️ Ela realmente não tem mais nada para fazer 😄
2025-01-01
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Maia Maia
O pai dela deve ser lobo e ela meia loba. Ou ele foi morto ou voltou pra alcateia...
2024-12-16
0
Elenilda Soares
mais quê mãe ordinária /Smug//Smug//Smug/
2025-01-28
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