Capítulo - 15

Clara

Vestida com as calças cinzas de Lincon, a barra cobre meus pés, enquanto a camisa preta parece quase um vestido, caindo solta sobre mim. Ao me olhar no espelho, não consigo evitar um sorriso irônico.

— Acho que estou perfeita para trabalhar como um espantalho — brinco, abrindo os braços e observando minha própria imagem.

Nesse momento de leveza, em meio ao caos que virou minha vida, uma risada escapa. Mas logo a mente volta à atitude peculiar de Lincon, que me mandou calar a boca sem que eu tivesse dito uma palavra. Será que ele tem algum distúrbio?

Decido deixar isso de lado e começo a descer as escadas luxuosas da mansão. A luz do lustre reflete em detalhes opulentos, enquanto a chuva lá fora martela as janelas de vidro, criando um burburinho relaxante que contrasta com a tempestade em minha mente.

Ao chegar na sala, um aroma inconfundível flutua pelo ar, e minha barriga ronca alto, quase em protesto. Coloco a mão no estômago e murmuro:

— Nossa, nem percebi que estava com tanta fome assim.

Meus olhos se fixam no relógio de parede, que marca exatamente seis da tarde. Um arrepio percorre minha espinha ao perceber como o tempo passou rápido. A chuva escura torna tudo mais confuso, e me pergunto se minha mãe estará preocupada, embora saiba que, no fundo, ela gostaria de me ver longe.

— Clara? Clara?

A voz de Lincon me arranca de meus pensamentos. Ele aparece na porta, os cabelos levemente úmidos, e sua calça preta contorna sua cintura de maneira perfeita. Mas é seu peitoral definido, exposto, que me faz perder o fôlego. Céus, por que ele está sem camisa?

Como se tivesse lido meus pensamentos, ele diz, com um tom descontraído:

— Eu terminei o jantar e fui tomar um banho. Resolvi ficar sem camisa, espero que não se importe.

Passo a mão pelos braços, um pouco sem jeito, tentando disfarçar a quentura que subiu ao meu rosto.

— Não me importo, de forma alguma. Aliás, a casa é sua, e você pode ficar do jeito que quiser.

Por dentro, no entanto, me pergunto como conseguirei me concentrar. Lincon sorri, um sorriso que parece iluminar o ambiente, e assente.

— Pode me acompanhar, já coloquei a comida na mesa. Espero que goste; fiz com muito carinho.

Enquanto caminho ao lado dele, sinto uma mistura de nervosismo e expectativa. A tensão entre nós paira no ar, e, por um momento, esqueço a chuva e tudo que está acontecendo fora dessa casa. É apenas nós dois, e uma refeição que promete ser mais do que simples comida.

A sala de jantar é um espetáculo à parte, com uma mesa elegantemente posta, cada detalhe meticulosamente escolhido. O aroma que flutua no ar é reconfortante, uma mistura de ervas frescas e especiarias que promete um sabor especial, como um abraço quente em um dia frio.

Lincon puxa a cadeira para mim, um gesto inesperado que me faz sentir um calor no peito, uma gentileza que quebra um pouco a tensão que paira no ar.

— Sinta-se à vontade — ele diz, sorrindo enquanto se senta à minha frente.

Observo enquanto ele me serve, suas mãos ágeis movendo-se com confiança. A comida é uma obra de arte: a massa perfeitamente al dente, o molho envolvente com um toque de ervas que exalam frescor. Minha fome, antes contida, agora se intensifica, como se meu estômago soubesse que estava prestes a receber algo extraordinário.

— Uau, você realmente sabe cozinhar — elogio, olhando para o prato com um sorriso genuíno, a expectativa dançando em meu peito.

Ele sorri de volta, e nossos olhares se encontram por um momento que parece durar mais do que deveria. Com um brilho nos olhos, ele diz, quase sussurrando:

— Digamos que cozinhar é um momento sagrado para mim. E cozinhar para você só tornou o momento ainda mais especial.

Sem saber como reagir a essa resposta direta, sinto um nó se formar na garganta. Engasgo com a própria saliva, a sinceridade dele me pegando de surpresa. Rapidamente pego a taça de água e bebo, tentando me recompor.

— Desculpe... é que isso foi bem... estranho — digo por fim, minha voz um pouco trêmula.

Ele assente, seu olhar compreensivo suavizando a situação.

— Tudo bem. Me desculpe.

Um silêncio constrangedor se instala entre nós, pesado, como se as paredes da sala estivessem ouvindo. Para quebrar o clima, pego o garfo e dou a primeira garfada, levando a comida fumegante e cheirosa até a boca.

Assim que saboreio a massa, uma onda de prazer percorre meu corpo. O sabor é indescritivelmente delicioso, uma explosão de nuances que me leva a um estado quase etéreo. Meus olhos se arregalam e, empolgada, digo:

— Meu Deus! Nunca comi nada tão delicioso! Você é realmente bom no que faz!

Ele me observa, e seu sorriso se amplia, sua risada reverberando no ambiente como uma música suave.

— Obrigado, Clara. Você tem um jeitinho que é engraçado — ele diz, seus olhos brilhando com um misto de diversão e curiosidade.

Engulo em seco, ciente do peso de suas palavras, como se houvesse um subtexto que não consigo decifrar. Por um instante, juro ter visto um brilho diferente em seus olhos, algo que vai além do que as palavras podem expressar. A maneira como ele fala torna o clima estranhamente tenso, quase sinistro.

Passo a mão pela nuca, tentando relaxar, e dou um sorriso tímido, mantendo o silêncio enquanto volto a comer. Cada garfada é uma tentativa de escapar dessa sensação inquietante, mas o olhar dele continua a me perseguir, penetrante e intenso, como se ele estivesse examinando cada parte de mim. Logo me vejo comendo de forma rápida, temendo que ele fale novamente e eu precise encontrar as palavras.

— Então, o que você mais gosta de fazer? — ele pergunta de repente, quebrando o silêncio.

A pergunta me pega de surpresa. Olha aí, não disse? Agora terei que responder, sinto meu coração acelerar.

— Ah, eu… bem, eu não sei do que gosto — respondo, e decido ser sincera, deixando a verdade vir à tona. — Na verdade, é como minha mãe diz, eu não sei o que quero da vida.

Ele inclina a cabeça, como se estivesse realmente interessado, a expressão em seu rosto se torna pensativa.

— Isso pode ser complicado, não é? Às vezes, precisamos de um tempo para descobrir o que realmente queremos — ele diz, seu tom é suave, quase encorajador.

Sinto um alívio ao perceber que ele não me julga. Lincon parece entender, e suas palavras soam quase como um consolo, uma luz em meio à incerteza.

— É, realmente é — respiro fundo, decidindo me abrir um pouco mais. — Às vezes, sinto que estou apenas seguindo o fluxo, sem direção, como se estivesse presa em um ciclo.

Ele me observa atentamente, e a intensidade de seu olhar faz meu coração disparar um pouco mais.

— Eu também já passei por isso — diz ele, com um leve sorriso, mas há uma sombra de seriedade em seu olhar. — A vida tem suas voltas, e o que importa é como reagimos a elas.

As palavras dele ressoam em mim, trazendo um pequeno alívio. Aqui, neste espaço acolhedor, sinto que posso ser eu mesma, sem máscaras.

— Você tem algum sonho? Digo além de ser um empresário bem-sucedido, coisa que você já é — pergunto, desejando saber mais sobre ele, sobre sua própria jornada.

Ele hesita por um instante, como se estivesse ponderando suas palavras. Um lampejo de vulnerabilidade atravessa seu olhar, e sinto meu próprio coração acelerar na expectativa.

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Comments

Maria de Fátima Espírito Santo Silva

Maria de Fátima Espírito Santo Silva

também 😃😃😃 penso assim 🙂🙂🙂

2025-01-22

0

Marcia Cristina Carneiro

Marcia Cristina Carneiro

concordo plenamente com VC colega 8/01/25/

2025-01-09

1

Claudia Teixeira

Claudia Teixeira

será que ela é meio humana e meio loba? o pai dela será que era lobo também e sumiu para protegê-la? pq essa conexão deles dele é coisa de lobos, em outros livros que li explicava isso 🤔

2024-12-15

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