Capítulo 16; Dor da lembrança

...24/08/2009 Segunda-feira; Tarde...

Uma mesa esta vazia no meio de uma sala, a câmera grava a visão para esta mesa, a mesa de um repórter que chega carregando alguns documentos.

O repórter ajeitou a gravata vermelha que contrasta com seu terno preto, olhando para a câmera com um olhar sério.

"Na madrugada de ontem, foi encontrado o corpo de Higuruma Makashe, vigia do Shopping Paulownian. A polícia informou que Higiruma sofreu lesões graves de descargas elétricas por todo seu corpo."

Atrás do repórter, as imagens mostravam o corpo sendo retirado do shopping, coberto e cercado por policiais usando lavadoras a jato para limpar o que parecia ser uma cena brutal.

A censura nas imagens só reforçava o peso sombrio do incidente.

"A autópsia do corpo foi feita nesta manhã. O relatório diz que as costelas, junto com a coluna vertebral, foram totalmente esmagadas. O delegado afirmou que o local da morte não foi encontrado. As imagens das câmeras mostram que, em um momento, Higuruma estava na guarita, mas exatamente um minuto depois, ele aparece dentro da fonte do sho..."

Antes que o repórter pudesse terminar, a tela ficou escura com um clique seco.

O presidente Shuji havia desligado a TV. Ele olhou para os membros do S.E.E.S., seu semblante sempre calmo, mas com um olhar acolhedor.

Yukari sentiu sua mão tremer levemente, o silêncio da sala era pesado.

Ela olhou para a tela da TV desligada, como se esperasse alguma explicação que aliviasse sua preocupação.

Akihiko foi o primeiro a quebrar o silêncio, sua voz firme: "Com certeza é uma shadow. Não tem outra explicação."

Hiro, sentado ao lado de Mitsuru, trocou um olhar com ela antes de se voltar para o presidente Shuji, que mantinha uma prancheta em mãos.

"Por acaso a gente tem detalhes de alguma atividade de shadow na área, presidente?" Hiro perguntou, cruzando os braços.

O presidente Shuji ajustou os óculos, um sorriso calmo surgindo em seus lábios. "Um agente da Kirijo Corporation foi enviado para o shopping. E sim, houve atividade de uma shadow. Mas é uma que vocês não vão gostar muito."

Shinjiro, que estava em pé, caminhou até o presidente e pegou a prancheta de suas mãos.

Seus olhos percorrem os números e, quando ele os entendeu, seus olhos se estreitaram.

"É uma shadow arcana." disse Shinjiro com um tom sombrio, estendendo a prancheta para Hiro.

Junpei se levantou assustado, a expressão de choque evidente. "Tá zoando, né? Mas já?"

Hiro pega a prancheta e observa os números. Mitsuru e Akihiko inclinaram-se para olhar também, e seus rostos refletiram surpresa.

Mitsuru franziu o cenho, seus pensamentos já processando a nova ameaça.

"Mas ela apareceu sem ser lua cheia?" Akihiko perguntou, coçando a cabeça em confusão.

Fuuka olhou para o presidente Shuji, sua voz preocupada: "Então... nós perdemos uma arcana?"

O presidente Shuji relaxou contra a poltrona, enquanto mantém seu tom calmo. "Esse é o detalhe onde eu quero chegar. O certo seria ela aparecer apenas na lua cheia."

Ele para de falar e ajusta os óculos, antes de continuar. "Mas por estarmos eliminando as outras arcanas, as que ainda estão por vir, estão à procura maneiras de se fortalecer. Elas aparecem em lugares aleatórios para consumir almas."

Minato, com os braços cruzados, lançou um olhar direto ao presidente: "A gente consegue matar elas quando aparecem nesses momentos?"

O presidente Shuji negou lentamente com a cabeça. "Sim e não. Quando elas aparecem, podemos atacá-las, mas..."

Mitsuru, que agora segurava a prancheta, observou os dados, vendo o pico de energia e, exatamente dois minutos depois, a queda abrupta para zero.

"Mas, não daria tempo." disse ela, olhando para os outros com seriedade. "Mesmo se a shadow arcana aparecesse na frente do dormitório, nós teríamos apenas dois minutos para atacar ela, além de que os ferimentos que ela receber, quando ela aparecer de novo já estaria recuperada."

"Dois minutos?" Yukari olhou para Mitsuru, sua voz trêmula de incredulidade. "É impossível destruí-la tão rápido!"

O presidente Shuji olhou discretamente para o relógio em seu pulso. Era 16:47.

Com um sorriso de satisfação, ele se levantou. "Está quase na hora." Ele fala com um tom firme.

Junpei, curioso como sempre, inclina para frente. "Hora de quê?"

O presidente, com um ar quase solene, levantou-se de vez, como se estivesse prestes a anunciar algo de grande importância. "Quero informar que, ontem à noite, localizei um novo usuário de Persona. Ele deve chegar a qualquer momento."

Mitsuru, arregalou os olhos, com uma surpresa evidente. "O quê? Um novo usuário? Presidente, por que não nos informou antes?"

Antes que o presidente Shuji possa responder, uma batida soou na porta do dormitório.

O Shuji caminhou até a entrada, abriu a porta e trocou algumas palavras com quem está do lado de fora, palavras que ninguém ali conseguiu ouvir.

Ele então se virou, com um sorriso satisfeito.

"Quero apresentar a vocês o novo membro do S.E.E.S., Ken Amada."

Os olhares de todos se voltaram para a porta, e, para a surpresa geral, quem entrou foi um garoto. Uma criança, por volta de 10 ou 11 anos, com cabelos castanhos curtos e olhos igualmente castanhos.

Ele vestia um casaco preto por cima de uma jaqueta laranja, e usava tênis com meias brancas.

A sala ficou em um silêncio espantado. A ideia de uma criança envolvida no mundo do Tartarus e das shadows parecia quase absurda.

Junpei, é o primeiro a quebrar o silêncio, murmura: "Uma criança?"

Ken olhou para todos, então se voltou para o presidente Shuji, com uma expressão séria. "Senhor Ikutsuki, eles sabem sobre os Personas?"

O presidente Shuji apenas afirma com a cabeça, o sorriso nunca deixando seu rosto enquanto ajeitava os óculos.

Ken, entendendo, uniu as mãos e se curvou de forma respeitosa diante de todos. "Meu nome é Ken Amada. É um prazer poder ajudá-los contra as shadows. Não irei decepcioná-los!"

Yukari, Fuuka e Aigis sorriram suavemente, achando a atitude do garoto ao mesmo tempo corajosa e adorável.

Mitsuru, por sua vez, se levanta e caminha em direção ao Ken, parando logo à sua frente.

"Está tudo bem, pode levantar a cabeça." disse Mitsuru com um sorriso gentil.

Ken levantou a cabeça lentamente, seus olhos encontrando os de Mitsuru antes de notar Koromaru se aproximando, esfregando-se contra sua perna.

Com um sorriso, Ken se agacha para acariciar o cachorro.

Enquanto fazia carinho em Koromaru, ele olhou de volta para Mitsuru. "Você não é Mitsuru Kirijo, a presidente do conselho estudantil no prédio principal da Gekkoukan?"

Mitsuru cruzou os braços e sorriu. "Sim. Você também é aluno da Gekkoukan, Amada-kun?"

Ken parou de acariciar Koromaru e endireitou sua postura. "Sim, sou do ensino fundamental."

Hiro, observando a cena com uma expressão meio relutante, coçou a cabeça. "Mitsuru, sem querer falar nada contra o Ken, mas... sério que vamo levar uma criança pro Tartarus?"

Fuuka franziu a testa, confusa. "O que você quer dizer com isso, Hiro?"

"Olha." Hiro cruzou os braços, tentando organizar seus pensamentos. "Eu acho bom ter mais alguém no grupo, só que... Primeiro tem o Koromaru, que já é bem estranho um cachorro ter Persona. E agora, uma criança? Só falta aparecer um gato falante que usa Persona. Se eu ver um é porquê eu tô louco."

Junpei, encostado no sofá, assentiu com um suspiro. "Tenho que concordar com tu, Hiro."

Shinjiro, que até então observava a tudo em silêncio, fixou seu olhar em Ken. Algo na presença do garoto o perturbava.

Um flash de memória invadiu sua mente: o momento em que o Kastor, entrou em frenesi pela primeira vez e atacou a mulher inocente.

E, naquela memória, uma criança... uma criança testemunhava sua mãe ser executada na sua frente.

Um calafrio percorre sua espinha. Ele deu alguns passos para trás, passando a mão pelo rosto enquanto tenta afastar essa lembrança.

Sem dizer uma palavra, ele se virou e começou a sair da sala.

Hiro, sempre atento, notou o movimento. Ele se levantou devagar e seguiu Shinjiro, deixando os outros conversando com o Ken.

...24/08/2009 Segunda-feira; Por do sol...

No terraço do dormitório, o Shinjiro andava de um lado para o outro, tentando, em vão, acalmar a turbulência dentro de si.

Seus passos ressoam contra o concreto do chão, mas era como se cada movimento o deixasse ainda mais agitado.

Até que, sem se conter, ele desfere um murro com força no parapeito de ferro, o som do impacto ecoando no ar.

"Porra! Por que logo ele que tem um Persona?" sua voz saiu embargada de raiva e frustração.

Ele fica parado por um instante, respirando fundo, enquanto tenta controlar a fúria que ele carrega em seu peito.

Com o olhar fixo no chão, sentiu uma presença atrás dele. Sem se virar, já sabia quem era.

Quando finalmente olhou por cima do ombro, viu Hiro se aproximando.

Shinjiro se encostou no parapeito, os olhos ainda cheios de uma mistura de dor e raiva. "Eu sabia que você viria atrás de mim, depois que me viu saindo lá de baixo."

Hiro, se encosta no parapeito ao lado do Shinjiro, os braços cruzados com um tom de curiosidade e preocupação. "Shinjiro, o que aconteceu? Nunca vi você com aquela cara."

Shinjiro suspirou profundamente, como se estivesse tentando puxar do fundo de si a coragem para falar.

As memórias que ele tentava reprimir emergiam com força.

A imagem daquela mulher morta voltou à tona, vívida, como se tivesse acontecido há poucas horas.

Ele coçou o pescoço antes de finalmente soltar as palavras que o atormentavam. "Lembra da mulher que o Kastor matou, quando ele se descontrolou?"

Hiro afirma com a cabeça, lembrando do que Shinjiro havia lhe contado sobre aquele dia.

Ele sempre sente o peso da culpa que o Shinjiro carrega, mas agora, parece haver mais camadas nessa dor.

Shinjiro olhou para o chão, a voz quase se apagando em meio ao vento que passava. "Uma coisa que eu não te contei... é que tinha uma criança perto... era o filho da mulher."

Hiro congelou, um calafrio subindo por sua espinha. Seus olhos se arregalam em choque. "Como é? O Kastor matou a mãe na frente do filho?"

Shinjiro assentiu com a cabeça, enquanto cerrava os punhos com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. "Sim. E essa criança... é o Ken."

As palavras de Shinjiro cortaram o ar como uma lâmina. Hiro se desencostou do parapeito, dando alguns passos até o meio do terraço, tentando processar o que acabou de ouvir.

A coincidência parecia absurda demais para ser real. Ele parou, girou sobre os calcanhares e aponta incrédulo para Shinjiro.

"Tá zoando, né?" Ele fala, querendo confirmar o que ouviu.

Shinjiro, com os olhos pesados, apenas balançou a cabeça negativamente.

O silêncio que se seguiu parecia gritar a verdade que Hiro lutava para aceitar.

Hiro passa a mão pelos cabelos, e tenta organizar os pensamentos.

Ele também passa a mão pelo rosto, parando no meio do terraço enquanto tentava processar aquela coincidência que parecia absurda demais para ser real.

No fundo, ele desejava que não fosse verdade, mas sabia que era.

Ele olhou para Shinjiro, puxando o ar com dificuldade, tentando reunir a coragem necessária para continuar aquela conversa.

"A Mitsuru ou o Akihiko pelo menos sabem disso?" Hiro perguntou, ainda incrédulo, sentindo o peso da revelação.

Shinjiro cruzou os braços, o olhar fixo no chão, antes de levantar os olhos para encontrar os de Hiro. "Sabem. Eles podem ter parecido surpresos quando viram o Ken por acharem que ele é apenas uma criança. Mas além disso... eles também ficaram surpresos por ser o Ken."

O suspiro de Hiro saiu pesado, quase como se carregasse o peso de toda a situação.

Ele começou a andar na direção de Shinjiro, mas algo o fez parar.

O rosto do Shinjiro se transforma em uma máscara de susto, que logo deu lugar a uma expressão de dor intensa.

Shinjiro coloca a mão no peito e cai de joelhos no chão, soltando um grito abafado.

"Shinjiro!" Hiro correu até ele, abaixando-se ao seu lado. "O que foi?"

O corpo de Shinjiro tremia, a dor estampada em cada músculo. "Merda... agora não, Kastor..."

Ele tossiu de forma violenta, e Hiro vê sangue manchar o chão quando a tosse do Shinjiro parou.

Sem pensar duas vezes, Hiro passa o braço de Shinjiro em volta de seu pescoço, guiando ele até um banco próximo.

Com cuidado, Hiro ajuda o Shinjiro a se sentar, e observa enquanto ele tirava do sobretudo um inibidor de Persona, o injetando em seu pulso.

A dor parecia diminuir na mesma hora que injetou, mas logo Shinjiro tossiu novamente, sujando a mão de sangue.

Hiro se sentou ao lado dele, o coração disparado pela preocupação e uma crescente impaciência. "Shinjiro, o que tá acontecendo com você? Não é só o Kastor. Eu posso ver que tem algo muito mais sério."

Shinjiro ergueu o olhar para o céu, suas lembranças o levando de volta às palavras de Takaya: "Isso está te destruindo por dentro, não está?"

Ele sabe que precisa contar a verdade, pelo menos para alguém. O vazio em seu olhar se misturava com uma melancolia, enquanto encara o Hiro.

"Eu... eu tô morrendo, Hiro." Falou Shinjiro com a voz meio rouca.

As palavras são como um soco no estômago de Hiro. Ele franze o cenho, confuso e em choque. "Oi? Como assim?"

Shinjiro olhou para o céu, como se buscasse forças nas nuvens. "Depois que eu saí do S.E.E.S, comecei a usar esses inibidores de Persona... para que o Kastor não machucasse mais ninguém. Mas..."

Lentamente, ele tirou o gorro, revelando seus cabelos castanhos, que caíam até os ombros.

Era raro vê-lo sem o gorro, e essa pequena mudança só acentuava a gravidade da situação.

"Mas toda vez que eu uso esse inibidor, o Kastor se irrita. E quando se irrita, ele começa a sugar a minha força vital aos poucos."

Hiro fica em silêncio, o choque imobiliza seus músculos.

Ele sente cada fibra de seu corpo se arrepiar, os sentimentos misturados em uma tempestade interna: raiva, desespero, tristeza.

Seus olhos começaram a se encher de lágrimas, ele se recusava a aceitar o que acabou de ouvir.

Alguém que ele considera um irmão... está morrendo.

Com um grito desesperado, Hiro deu um soco no banco de metal. "E por que você tá usando essas merdas ainda porra?!" Ele grita, a voz cheia de dor. "Você já devia ter parado há muito tempo!"

Shinjiro olhou para ele, sua voz carregada de resignação. "Eu queria esquecer o que eu fiz... Queria fugir. E essa foi a única alternativa que encontrei. Mesmo que isso me mate, pelo menos ninguém mais vai sofrer por minha causa... pelo menos ninguém inocente vai morrer."

O Hiro aperta o banco com força, sentindo o metal frio em suas mãos enquanto sua mente tentava, em vão, processar o que Shinjiro havia acabado de confessar.

Ele respirou fundo, as mãos indo ao rosto enquanto lutava contra a sensação de impotência que tomava conta de seu peito.

Sua mente estava em caos, com uma voz familiar ecoando. A voz de Igor soava como um aviso distante: "Seu coração está fragmentado, Hiro Mikoshi."

Limpando os olhos, mesmo com poucas lágrimas, Hiro finalmente falou, sua voz carregada de frustração e incredulidade. "Mesmo assim... você tá se matando por isso... quanto tempo você ainda tem?"

Shinjiro suspirou profundamente. Ele olhou para suas próprias mãos, como se o tempo que restava pudesse ser contado nas linhas da palma.

As palavras do médico ressoam em sua mente, a previsão de um fim inevitável. "Três meses." Ele fala com um tom irritado. "Provavelmente eu morra quando chegar novembro."

Shinjiro coloca uma mão firme no ombro de Hiro. Ele sabe o quanto o Hiro odeia a ideia de perder mais alguém, especialmente alguém que ele considerava um irmão.

Mas aquela era a realidade, e não havia como fugir dela.

Hiro soltou um suspiro longo, forçando-se a se acalmar. Havia tantas perguntas rodando em sua cabeça, tantas coisas que ele queria dizer, mas agora... precisa saber o que Shinjiro planeja fazer.

"O quê você vai fazer agora?" Ele pergunta, olhando pro Shinjiro.

Shinjiro tirou a mão do ombro de Hiro e voltou a fitar o céu, como se buscasse nas nuvens a resposta.

Um sorriso sutil surgiu em seus lábios. "Eu lembro da vez que você falou que, se fugisse de todos os erros que cometeu, já teria morrido..."

Ele fez uma pausa, ajeitando o gorro sobre seus cabelos castanhos. E continua: "Às vezes eu pensei que estava desperdiçando seu tempo, andando comigo."

Shinjiro olha direto nos olhos de Hiro, deixando transparecer um raro lado gentil, algo que poucas pessoas viam. "Mas aí lembrei que são as boas memórias que fazem a gente manter a cabeça erguida e continuar andando. Eu preciso usar o tempo que me resta para ajudar vocês e colocar as coisas no caminho certo. E isso significa aceitar meu medo... e cuidar do Ken."

Hiro viu a determinação nos olhos de Shinjiro, aquela chama de propósito que agora arde nele.

O peso da situação era esmagador, mas, ao mesmo tempo, o brilho no olhar dele, o tranquilizava.

"Eu vou te ajudar." disse Hiro com um sorriso genuíno. "Não ligo se você reclamar, mas você não tá sozinho nisso. Eu tô do seu lado, Shinjiro."

Shinjiro sorriu, um calor inesperado enchendo seu coração. "Tá bom, tá bom. Obrigado, Hiro."

...27/08/2009 Quinta-Feira; Meio-dia...

O terraço do dormitório estava envolto em uma tensão silenciosa, mas não era uma tensão de conflito, e sim de expectativa.

Todos observavam Ken ser treinado por Hiro, atentos aos movimentos do garoto.

Ken, embora ofegante, girava a lança falsa em suas mãos com uma destreza impressionante, sua concentração fixa em Hiro, que empunhava uma réplica de sua Kukri, sem fio, apenas para treinar.

Hiro fez um gesto simples com a mão, incitando o garoto a avançar novamente. "Vamos. Tente de novo."

Ken gritou e avançou com uma série de golpes perfurantes e ataques abertos, tentando de tudo para acertar Hiro.

Mas ele esquivava com maestria, seus movimentos precisos desviando a ponta da lança com habilidade.

Ele parecia mais interessado em observar a postura e a técnica de Ken do que em vencê-lo.

Mitsuru, observando à distância, reconhecia essa estratégia. Ela sabia que Hiro estava avaliando até onde o Ken poderia ir.

Yukari, preocupada, sussurrou para Minato: "Eles estão ali desde as dez da manhã. Não seria bom parar um pouco?"

Minato coçou a cabeça, sem tirar os olhos do treino. "O Hiro quer ver até onde o Ken aguenta."

Fuuka, sempre gentil, olhou para Mitsuru. "Kirijo-senpai, a gente nem viu o Persona do Ken-san ainda. Será que é uma boa ideia mantê-lo nesse nível de treino?"

Mitsuru manteve o olhar firme. "Amanhã vamos ao Tartarus testar o Persona do Amada-kun. Preciso ter certeza de que ele está preparado, afinal, ele é apenas uma criança."

O treino continuava. Ken usou sua lança como apoio, impulsionando-se para um salto ágil e tentando atacar Hiro por cima.

Mas Hiro rolou para o lado, esquivando-se com facilidade, e pisa em cima da lança do Ken antes de desferir uma ombrada que fez ele cair no chão.

Ken, com uma mão na cabeça, murmurou: "Droga... quase acertei."

Hiro, girando a Kukri falsa em sua mão, estendeu a outra para ajudar Ken a se levantar. "Você luta bem. Mesmo que não tenha me acertado mais de cinco vezes, você não abaixa a guarda nem um momento, um dia voce pode ficar melhor que eu."

Ken, animado, pegou a mão de Hiro e se levantou, sorrindo. "Obrigado, Mikoshi-senpai. Algum dia eu vou te derrotar."

Hiro sorriu de volta, jogando sua Kukri de treino para dentro de uma caixa.

Ele deu alguns tapinhas nas costas de Ken, tirando a poeira.

Akihiko, com uma garrafa de água nas mãos, se aproximou e a entregou para Ken. "Você é mais ágil do que parece, Ken. Acho que não precisa de mais testes."

Fuuka, observando o garoto enquanto ele bebia a água com avidez, se aproximou. "Amanhã vamos te levar ao Tartarus. Queremos ver como seu Persona se sai."

Ken suspirou, aliviado após beber grandes goles, e olhou para Mitsuru, curioso. "Kirijo-senpai, eu queria perguntar uma coisa. Essas Shadow Arcana... quando vai ser a próxima?"

Todos ao redor se surpreenderam com a pergunta direta.

Hiro coçou a cabeça, incrédulo. "Caralho... essa pergunta eu não esperava."

Akihiko, depois de um momento, explicou: "As Shadow Arcana aparecem a cada lua cheia. Ou seja, a próxima será no dia cinco de setembro."

Minato, com as mãos nos bolsos, adicionou: "Isso quer dizer que é sábado da semana que vem. Fuuka, qual será a próxima Arcana?"

A Fuuka olha pra própria mão e começa a contar a ordem das cartas de taro até o número 9.

Carta 0: O Louco.

Carta 1: O Mago.

Carta 2: A sacerdotisa.

Carta 3: A Imperatriz.

Carta 4: O Imperador.

Carta 5: O Hierofante.

Carta 6: Os Enamorados.

Carta 7: O Carro de Guerra.

Carta 8: A Justiça.

Carta 9: O Eremita.

Fuuka, após um breve momento de concentração, respondeu: "Será o nono Arcano, o Arcano do Eremita."

Yukari cerrou os olhos, pensativa. "O Eremita... será que ele é resistente a ataques mágicos?"

Hiro, com uma sobrancelha arqueada, olhou para Ken. "Por que você quer saber sobre as Shadow Arcana?"

Ken, um pouco envergonhado, coçou a cabeça, forçando um sorriso tímido. "Eu só queria saber quanto tempo a gente tem. Quero ficar mais forte antes que o dia chegue."

Ken, um pouco envergonhado, coçou a cabeça, forçando um sorriso tímido. "Eu só queria saber quanto tempo a gente tem. Quero ficar mais forte antes que o dia chegue."

Akihiko sorriu, impressionado, passando a mão na cabeça de Ken, que riu com o gesto. "Esse é o espírito que eu gosto de ouvir. Querer ficar mais forte é algo bom."

Enquanto o grupo trocava risos, um desconforto crescente começou a tomar conta de Hiro.

De repente, seus olhos captaram uma figura sinistra atrás de Mitsuru.

Era o Lúcifer, com seu sorriso macabro, ria silenciosamente e colocou um dedo nos lábios, sinalizando para Hiro ficar em silêncio.

Mitsuru, notando o olhar estranho de Hiro, perguntou, preocupada: "Hiro? Está tudo bem?"

Ele balançou a cabeça rapidamente, afastando a visão perturbadora. "Ah, foi mal. Só... tava com a cabeça nas nuvens."

Ela pareceu relaxar, voltando sua atenção para Ken.

Mas Hiro apertou as próprias mãos, ainda perturbado, lutando contra a sensação de estar perdendo o controle da própria mente.

Hiro sussurra para si mesmo: "Merda... não é hora de perder a sanidade... Hiro."

...27/08/2009 Quinta-Feira;...

...Dark Hour...

A Dark Hour dominava o mundo mais uma vez, o céu tingido por uma tonalidade esverdeada que parecia se arrastar pelos contornos de cada edifício, cada rua deserta.

No dormitório, o vento batia suavemente nas janelas, quase como um sussurro, mas não havia ninguém para ouvi-lo; todos do S.E.E.S estavam em seus quartos, mergulhados em um sono inquieto.

Minato, em seu quarto, revirava-se na cama. Algo o incomodava.

Não era apenas a inquietação usual da Dark Hour. Havia uma pressão crescente em sua cabeça, um peso que ele não conseguia ignorar.

Então, de repente, tudo ficou claro. Uma visão tomou conta de sua mente, como se fosse arrancado do presente e jogado em um futuro desolado.

Ele viu caos. Os membros do S.E.E.S estavam no meio de uma batalha, cercados por destruição e gritos.

"Protejam a Takeba e o Iori!" A Mitsuru grita de forma firme, mas também carregada de urgência.

Junpei e Yukari corriam em direção a Hiro, que estava desmaiado, encostado em um carro.

O rosto de Hiro estava manchado de sangue, que escorria lentamente da testa cortada, a gravidade do ferimento evidente no tom pálido de sua pele.

Havia uma atmosfera de desespero palpável ao redor.

Em meio ao caos, estátuas de santas, de aparência solene e reverente, estavam enfileiradas, suas mãos juntas em oração, como se fossem espectadoras de uma tragédia inevitável. O contraste era assombroso.

"Ela tá voltando! Se preparem!" Akihiko gritava, apontando para o céu.

Quando Minato seguiu o olhar de Akihiko, viu uma shadow imensa cruzando o céu verde da Dark Hour.

Não era possível distinguir todos os detalhes dela, mas duas coisas eram claras: uma cruz invertida repousava em suas costas, e dois arcos dourados brilhavam em volta, rodeados por inúmeras asas.

Uma presença que não deixava dúvidas de que algo devastador estava prestes a acontecer.

Então, uma voz reverberou nas mentes de todos, como um apito agudo e doloroso, atravessando seus pensamentos com brutalidade.

"O Arauto do Diabo está vindo..."

Minato despertou em um susto, os olhos fixos no teto, o som daquela voz ainda ecoando em sua mente.

Sua respiração estava pesada, e ele sentia o suor frio na testa.

Ele se senta na cama, passando as mãos pelo rosto na tentativa de limpar a névoa do sonho - ou seria uma premonição?

Quando abaixou as mãos, percebeu algo que o fez parar. Uma figura estava de pé, ao lado da cama.

Sua presença, embora inesperada, não trouxe surpresa ao coração de Minato.

O garoto à sua frente tinha uma aparência quase etérea.

Seu cabelo preto e desbotado, com um tom azul pálido, combinava com seus olhos, que pareciam ser de dois azuis distintos, um claro e outro profundo.

Sua pele era tão pálida que mais parecia a de alguém que já havia atravessado a linha entre a vida e a morte.

Vestia um pijama listrado, preto e branco, quase como um uniforme de prisioneiro.

Minato o encarou, sem um traço de surpresa em seus olhos cansados.

"Pharos? Você voltou..." murmurou Minato, sua voz pesada de sono.

Pharos deu alguns passos em direção ao lado da cama, aproximando-se de Minato.

Seus olhos, profundos e enigmáticos, pareciam penetrar diretamente na alma de Minato, como se soubesse mais do que qualquer outro.

"Boa noite, Minato!" disse Pharos, sua voz suave, mas carregada com um significado mais profundo. Um sorriso leve, quase imperceptível, dançou em seus lábios.

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