Capítulo 3; Os treze arcanos

...29/07/2009 Quarta-feira, Meio dia...

As ruas da cidade estão mais movimentadas do que o habitual, uma massa de pessoas se deslocando por todos os cantos.

Com o início das férias de verão, os estudantes, finalmente livres da rotina escolar, aproveitam ao máximo seu tempo livre.

Entre eles, Fuuka Yamagishi caminha pelo shopping, uma cesta de compras em mãos, escolhendo mantimentos para o dormitório.

Enquanto examina os produtos, seu celular vibra dentro da bolsa.

Ela para e rapidamente atende a ligação, levando o celular ao ouvido.

"Alô?" ela diz, sua voz suave, ainda um pouco distraída.

"Yamagishi, é a Mitsuru." A voz firme e familiar de Mitsuru Kirijo responde do outro lado da linha.

"Kirijo-senpai, aconteceu alguma coisa?" Fuuka pergunta, a preocupação cresce em seu peito.

"Sim, o presidente Shuji informou uma descoberta importante. Por acaso você se lembra das Shadows Arcana?”

Fuuka para de andar, tentando recordar o que Mitsuru acabou de mencionar.

Um flash de memória surge em sua mente, trazendo à tona a imagem de uma Shadow que enfrentaram anteriormente.

A cabeça da Shadow era protegida por um capacete púrpura com um design espinhoso, semelhante a uma coroa com pontas que se projetavam para cima.

O capacete parecia se fundir com a cabeça.

Seu corpo maciço estava coberto por uma armadura pesada e elaborada, predominantemente cinza escuro, com detalhes em vermelho e dourado.

No centro do torso, uma grande cruz vermelha se destaca, simbolizando autoridade.

Seus braços eram longos e esguios, cobertos por mangas largas da armadura, que se afunilavam em punhos ornamentados.

Uma capa vermelha descia pelos ombros, conferindo-lhe uma presença ainda mais majestosa e dominante.

"Ah, aquelas Shadows poderosas que conseguem sair do Tartarus? Sim, eu lembro. O que tem elas?" Fuuka responde, apertando o celular mais perto do ouvido, seu coração acelerando com a lembrança.

"Ele descobriu que elas aparecem em uma data específica." Mitsuru explica. "Mas ele pediu para todos se reunirem no dormitório para poder explicar melhor.”

"Certo. Aliás, Kirijo-senpai..." Fuuka hesita por um momento antes de continuar. "Por acaso o homicídio que ocorreu tem envolvimento de uma Shadow Arcana?"

O silêncio no outro lado da linha é palpável, até que Mitsuru, depois de ponderar, responde com uma voz receosa: "Sim, o computador detectou que a alma do homem foi tirada do corpo."

Fuuka engole em seco, a preocupação tomando conta dela.

Ela se lembra das outras Shadows Arcana que enfrentaram e do quão perto chegaram da morte, especialmente o Minato.

"Entendido. Eu vou voltar agora pro dormitório." Fuuka diz, tentando manter a calma.

"Até mais." Mitsuru despede-se, antes de desligar.

Em outra parte da cidade, Hiro Mikoshi sai do cinema, coçando a cabeça, visivelmente decepcionado.

"Jesus, que filme horrível." ele murmura para si mesmo, enquanto olha para a rua, tentando afastar a frustração.

É então que ele vê Akihiko Sanada conversando com um homem alto, mais alto que o próprio Akihiko, vestindo um sobretudo vinho e um gorro cinza.

"O Akihiko? Quem é aquele?" Hiro se pergunta, curioso.

Ele se aproxima, mas se encosta atrás de uma árvore próxima, preferindo observar e escutar a conversa.

"Me escuta direito, Shinjiro." Akihiko parece meio irritado. "Eu e a Mitsuru precisamos de você. Mesmo que o SEES tenha mais membros agora, você é um dos mais fortes.”

Shinjiro Aragaki, o homem de sobretudo vinho, bufa, desviando o olhar enquanto coloca as mãos nos bolsos. "Aki, já deu pra mim. Depois do que eu fiz... é tudo culpa minha."

Akihiko, com os olhos cheios de determinação, responde: "Você não teve culpa do que fez com ela. O castor perdeu o controle, e você não pôde fazer nada."

Shinjiro, claramente frustrado, tira um Evoker de dentro do sobretudo, exibindo-o diante de Akihiko.

"Eu prometi que nunca mais iria usar isso de novo." Shinjiro declara, sua voz pesada com o peso da culpa.

Akihiko cerra os olhos, visivelmente desapontado, mas ainda determinado. "Você não muda. Mesmo assim..."

Ele olha diretamente nos olhos de Shinjiro. "Eu não vou parar de tentar. Tentar trazer você de volta."

Shinjiro vira as costas para Akihiko. "Pois tente. Eu não vou mudar meu pensamento.”

Akihiko suspira, resignado, e se afasta em direção à estação. Shinjiro caminha na direção oposta, parando ao lado da árvore onde Hiro está escondido.

"Eu te percebi, sabe que não gosto de ser bisbilhotado." Shinjiro diz, sem virar o rosto, mas claramente ciente da presença de Hiro.

Hiro se sobressalta, percebendo que foi descoberto. "Ah. Acho que não tem jeito de enganar você."

Shinjiro, com as mãos ainda nos bolsos, olha de relance para Hiro. "Você também é um dos membros novos do SEES, não é? E, se não me engano, você é da mesma sala da Mitsuru.”

"Então é por isso que eu tinha a sensação de que você era familiar." Hiro comenta, tentando recordar. "Qual era seu nome mesmo?"

"Shinjiro. Shinjiro Aragaki." responde com firmeza. "E o seu?"

"Hiro Mikoshi. Então, Shinjiro, você era do SEES. Por que saiu?"

Shinjiro cerra os olhos, encarando Hiro. "Não te interessa."

Os dois se encaram por um momento tenso, até que Hiro levanta as mãos, em sinal de rendição.

"Calma aí. Não precisa me atacar. Mas, consigo ver nos seus olhos. Você quer acabar com si mesmo." Hiro comenta, sua voz carregada de empatia.

Shinjiro se surpreende com as palavras de Hiro. Passando a mão pelo pescoço, ele avalia Hiro de cima a baixo, ponderando.

"E eu consigo ver alguém que não tem ideia do que faz." Shinjiro responde. "Você não tem um motivo para lutar pelo SEES. Não tem razão para se arriscar tanto para matar as Shadows. Então, por que continua?”

As palavras de Shinjiro ecoam na mente de Hiro, lembrando-o do que Mitsuru também havia questionado. Qual é o motivo para lutar? Você realmente não tem um.

"Eu não sei." Hiro finalmente admite. "Talvez seja porque é divertido? Uma parte de mim ama toda vez que invoco meu Persona. Mas a outra parte... a outra parte nunca quis sequer ter esse poder."

Shinjiro se aproxima, tirando uma seringa do bolso do sobretudo. "Se você não quiser usar seu Persona, use isso. Isso inibe temporariamente seu Persona.”

Hiro olha para a seringa, depois para Shinjiro, que já estava se afastando.

"Como assim, inibe?" Hiro pergunta, confuso.

"Quando usar, você verá seu Persona sumir por um tempo." Shinjiro explica, sem olhar para trás. "Até a próxima, Hiro."

Hiro observa a seringa, contendo um líquido azul. Antes que possa processar tudo, seu celular vibra novamente. Ele o pega e vê uma mensagem de Yukari.

Mensagem: Oi, Hiro. Então, o presidente Shuji tem algumas informações para nos dar. Também, nossos trajes de combate estão prontos. Venha logo. Yukari.

Hiro apenas responde com um "Ok, tô voltando pro dormitório." e começa a caminhar em direção à estação.

...29/07/2009 Quarta-feira; Entardecer...

O dormitório estava agitado. Ao abrir a porta, Hiro foi imediatamente envolvido pelo burburinho de conversas intensas, que ecoavam pela sala de estar.

Yukari se aproximou rapidamente, ansiosa. “Hiro, ainda bem que você chegou. A gente tá falando sobre as Shadows Arcana.”

Hiro parou abruptamente, seu rosto revelando confusão e uma pitada de preocupação.“Hã? Shadows Arcana? Do que você tá falando?”

Minato, que estava sentado próximo à Mitsuru, virou-se para ela, a expressão séria. “Você tem certeza de que essas Shadows só aparecem nas noites de lua cheia?”

Mitsuru assentiu, segurando uma prancheta com dados. “Sim, todas as leituras confirmam isso. Veja os registros dos enfrentamentos com os Arcana dos Enamorados, do Imperador e da Imperatriz. Todos mostram o mesmo nível de energia."

Do outro lado da sala, o Presidente Shuji estava envolvido em uma conversa com Fuuka, segurando um cilindro vermelho. “Este cartucho de teurgia amplifica o poder do seu Persona de maneira extraordinária, sem causar danos ao seu corpo...”

A mente de Hiro parecia prestes a explodir com tantas informações que mal compreendia.

A frustração foi crescendo até atingir um ponto de ebulição.

Seus olhos, por um breve momento, brilharam com uma intensa luz vermelha.

“Calem a boca!” Hiro gritou, sua voz estrondosa ecoando pelo dormitório.

O silêncio caiu como uma bomba. Todos os olhares se voltaram para Hiro, surpresos com sua explosão.

Ele respirou fundo, tentando controlar a raiva, mas sua voz ainda estava carregada de irritação. “Shadows Arcana? Cartucho de teurgia? Trajes novos? Alguém pode me explicar alguma coisa nessa merda?”

Junpei, tentando acalmar a situação, levantou as mãos. “Calma, Hiro, não precisa assustar todo mundo assim.”

Hiro passou a mão pelo rosto, exalando lentamente para tentar se acalmar. “Ok... Desculpa. Mas sério, alguém pode me explicar tudo isso? O que caralhos são essas Shadows Arcana? E o que elas têm a ver com a lua. Imperador e a Imperatriz?”

Mitsuru trocou um olhar irritado com o Presidente Shuji, que suspirou, visivelmente desconfortável.

“Presidente, você não explicou pro Hiro sobre o surgimento da Dark Hour e do Tartarus?” ela disse, um toque de irritação em sua voz.

O Presidente Shuji ajeitou os óculos, claramente incomodado. “É... Admito que esqueci de mencionar alguns detalhes.”

Mitsuru franziu o cenho. “Então, Hiro estava lutando sem saber o motivo por trás da existência do Tartarus e das Shadows Arcana? Isso foi um risco enorme, Presidente. Você não pode esquecer de compartilhar informações tão cruciais.”

Hiro cruzou os braços, intrigado. “Isso era algo que eu tava me perguntando…” ele disse com um tom curioso e olhando para todos.“Então, qual é a origem de tudo isso? De onde surgiu o Tartarus, a Dark Hour, e o que essas Shadows Arcana são?”

Yukari desviou o olhar, a tristeza estampada em seu rosto.

A memória da verdade por trás de tudo aquilo era dolorosa.

Minato percebeu sua angústia e rapidamente a levou para o lado, buscando confortá-la.

“Yukari, calma.” ele disse, a voz suave. “Eu sei que é difícil lembrar disso, mas precisamos explicar tudo ao Hiro.”

Yukari segurou as lágrimas, sua voz trêmula. “Eu sei... Só não consigo suportar o fato de que tudo isso, as Shadows, o Tartarus, a Dark Hour... Tudo isso é resultado de um experimento fracassado que meu pai conduziu.”

Minato segurou o rosto dela, os olhos dela fixos nos dele. “Lembre do que eu te disse. Seu pai não foi o culpado. Ele alertou sobre os riscos de estudar as Shadows, mas a Kirijo Corporation decidiu continuar com os experimentos.”

Yukari tentou sorrir, reconfortada pelas palavras de Minato. Ela limpou a única lágrima que conseguiu escapar.

“Você tem razão. Obrigada.”

Enquanto isso, Hiro observava o breve momento de intimidade entre Minato e Yukari, mas logo voltou sua atenção para o que realmente importava. “Então, qual é o verdadeiro motivo por trás de tudo isso?”

Mitsuru deu um sinal para Akihiko, que rapidamente subiu as escadas, para buscar algo.

“Primeiro, precisamos explicar a razão pela qual a Dark Hour existe.” Mitsuru começou, voltando-se para Hiro. “A Dark Hour foi o resultado de um experimento fracassado liderado pela Kirijo Corporation, a empresa da minha família.”

Hiro piscou, surpreso. “A sua família?”

Fuuka, que estava sentada perto, murmurou, “Mais especificamente, o avô da Kirijo-Senpai. Ele era o diretor principal desse experimento.”

“E o que exatamente esse experimento envolvia?” Hiro perguntou, seu interesse aguçado.

Junpei olhou fixamente para o chão, uma sombra de pesar cruzando seu rosto. “As Shadows.”

O Presidente Shuji continuou a explicação, tentando escolher suas palavras cuidadosamente.

“Anos atrás, antes mesmo da Dark Hour e do Tartarus existirem, a Kirijo Corporation descobriu as Shadows. Mesmo sem o Tartarus, algumas Shadows surgiam em raríssimas ocasiões. Elas foram capturadas para estudo, e foi aí que o avô de Mitsuru entrou.”

O Presidente Shuji ajustou os óculos antes de prosseguir.

“Ele descobriu que, ao usar as Shadows, seria possível controlar o espaço e o tempo. Então, ele contratou cientistas para realizar experimentos com o objetivo de aperfeiçoar esse poder para uso próprio. O local onde esses experimentos ocorriam é exatamente onde o Tartarus aparece hoje. No colégio Gekkoukan.”

Hiro olhou de Mitsuru para o Presidente, a revelação chocando-o profundamente.

Akihiko, que havia retornado com um notebook, colocou-o na mesa.

“Mitsuru, encontrei o vídeo, mas ele tá com aquele defeito de leitura.” Akihiko disse, preocupado.

Mitsuru então olhou para Fuuka. “Yamagishi, você pode dar um jeito nisso?”

Fuuka assentiu e se aproximou do notebook, começando a restaurar o arquivo danificado.

Enquanto isso, Mitsuru voltou a explicar. “Durante esses experimentos, os cientistas descobriram uma profecia que dizia que as Shadows, que se alimentam das almas humanas, trariam o fim do mundo.”

O Presidente Shuji completou: “Essas Shadows são representadas pelos Arcanos Maiores do Tarô. Existem vinte e duas cartas no baralho de Tarô, mas as Shadows só vão até a décima terceira carta, que é o Arcano da Morte.”

Minato e Yukari voltaram para a sala, acompanhando a conversa.

“E o que isso tem a ver com a Dark Hour?” Hiro perguntou, ainda tentando entender tudo.

Mitsuru continuou, seu tom grave.

“Um dos cientistas responsáveis, Eiichiro Takeba, percebeu que o fim do mundo estava se aproximando rapidamente por causa desses experimentos. Ele decidiu dividir a Shadow que representa o Arcano da Morte em doze partes, criando as Shadows Arcana, que representam os Arcanos abaixo do décimo terceiro.”

Hiro arregalou os olhos ao fazer a conexão. “Takeba... Perai, esse cientista é o pai da Yukari?”

Yukari apenas assentiu, o olhar baixo. “Sim, ele fez isso.”

Hiro respirou fundo. “Isso… explica muita coisa. Então, o que fazemos com essas Shadows Arcana?”

Fuuka terminou de restaurar o vídeo e suspirou aliviada. “Consegui. Hiro-san, é melhor você ver isso.”

Hiro se aproximou do notebook e sentou-se. Na tela, a imagem congelada de um homem de jaleco apareceu.

Ele parecia exausto, com olheiras profundas e uma expressão séria. Era Eiichiro Takeba.

Mitsuru deu play no vídeo.

O vídeo começou a rodar. A imagem tremida revelava um laboratório mergulhado no caos, luzes vermelhas piscando incessantemente.

O alarme soava alto e constante, criando uma atmosfera de pânico e desespero.

No centro da imagem, um homem de jaleco branco ajustava a câmera. Eiichiro Takeba, com o rosto marcado pelo cansaço e pela urgência, iniciou a gravação enquanto uma explosão ecoava ao fundo.

“Deu tudo errado...” As palavras saíram de seus lábios como um lamento. “Caso alguém encontre este vídeo, por favor, entregue ele à minha filha. Yukari Takeba.”

Um rugido ensurdecedor balançou a câmera, seguido por gritos e o som de tiros.

Equipamentos começaram a pegar fogo atrás de Eiichiro, a situação se tornando cada vez mais desesperadora.

“Yukari.” ele continuou, com a voz embargada pela emoção e pelo desespero, “eu peço desculpas por não ter voltado para casa, mas preciso que preste atenção no que vou dizer. A humanidade está em risco. As Shadows Arcana... as Shadows que fugiram daqui, nunca as deixe se fundirem. Eu as dividi em doze partes, e elas vão desaparecer assim que fugirem daqui.”

O fogo aumentava, e o alarme se tornava mais intenso, abafando parcialmente sua voz.

“Alerta: Cobaias saíram dos tubos de contenção. Auto destruição da instalação foi ativada!” soava uma voz robótica através dos alto-falantes do laboratório.

Eiichiro apertou os punhos, o desespero evidente em seus olhos.

“Por hipótese alguma, deixe elas se juntarem novamente. Posso ter separado elas, mas é questão de tempo até que se fundam e tragam a Morte de volta. A cada certa fase da lua, elas vão aparecer. Mate-as... Mate cada uma delas assim que surgirem. Só assim a humanidade terá uma chance de sobreviver.”

A imagem começou a sofrer interferências, com a tela piscando e a voz de Eiichiro falhando, como se a própria gravação estivesse se desfazendo.

“Yu...ka...ri... eu te...amo... fi...” A voz dele se perdeu no meio das falhas, e o vídeo congelou, a tela ficando embaralhada.

Hiro assistiu a tudo com a mão cobrindo a boca, tentando processar o que acabou de ver.

“Puta merda...” Ele sussurrou, com a voz baixa e trêmula. “Essas Shadows Arcana podem acabar com a humanidade…”

Yukari, apesar de já ter visto aquele vídeo antes com os outros membros, não conseguiu conter as lágrimas.

A visão do pai, mesmo naquela gravação antiga, ainda era dolorosa demais para suportar.

Junpei colocou uma mão gentil no ombro de Yukari. “Eu sei... calma.” disse ele, tentando confortá-la.

O Presidente Shuji limpou a garganta antes de falar, sua voz grave. “Já derrotamos seis das doze Shadows Arcana. O décimo terceiro Arcano só aparecerá caso as outras Arcana se fundam. Eliminando todas elas, a Dark Hour e o Tartarus serão destruídos.”

Hiro, ainda processando as informações, levantou-se, mas foi interrompido por um som vindo do notebook.

“O... arauto do diabo... você... preci...” A voz falha de Eiichiro Takeba soou novamente, quase inaudível.

Hiro franziu o cenho, confuso. “Vocês ouviram isso? ‘Arauto do diabo’?”

Minato olhou para ele com preocupação. “Hiro, o vídeo parou aí.”

Akihiko se inclinou para o notebook. “Ou melhor, ele ainda tá rolando, mas só aparece estática na tela. E o som nao funciona.”

De repente, Fuuka deu um grito de susto. “Hiro, seu nariz!”

Hiro tocou o nariz, percebendo que estava sangrando.

No momento em que olhou para o próprio sangue, sua visão embaçou, e um flash cegante o atingiu.

Ele se viu pressionado contra a parede por uma figura imponente, um ser de aparência demoníaca com olhos sedentos por sangue.

Era Lúcifer, com um sorriso cruel e ameaçador.

Os olhos de Hiro se dilataram, a cor sumindo de sua pele, que ficou pálida como papel.

Em questão de segundos, ele perdeu as forças e começou a desabar no chão, mas Akihiko e Mitsuru correram para segurá-lo antes que caísse.

“Hiro!” Mitsuru gritou, a voz carregada de preocupação.

Akihiko, tenso, verificou os sinais vitais de Hiro. “O que aconteceu? Ele simplesmente desmaiou.”

Todos se reuniram ao redor de Hiro, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

O Presidente Shuji, no entanto, manteve-se um pouco afastado, observando a situação.

Seus olhos, que antes mostravam preocupação, estreitaram-se de forma sinistra.

“O Arauto do Diabo...” ele sussurrou para si mesmo, com um tom sombrio. “Eu jurava que nunca mais ouviria esse nome.”

Sua expressão sombria logo se desfez em uma máscara de preocupação, e ele se ajoelhou ao lado de Hiro, segurando seu rosto com delicadeza.

“Aigis, o que você consegue detectar?” perguntou o Presidente Shuji, com urgência.

Aigis, ativando seus scanners, respondeu rapidamente. “A pressão arterial dele está caindo. Ele vai precisar de uma dose de adrenalina.”

Mitsuru imediatamente se levantou, a decisão clara em sua mente. “Eu tenho uma na caixa médica. Vou buscá-la.”

Ela saiu correndo, subindo as escadas em direção ao segundo andar, onde ficavam os quartos.

Correndo pelo corredor, ela entrou em seu quarto, onde uma caixa médica estava sobre a escrivaninha.

“Cadê ela?” Mitsuru murmurou, vasculhando rapidamente os itens até encontrar o que procurava. “Achei!”

Em outro lugar, Hiro estava perdido em um vazio escuro, onde a escuridão se estendia infinitamente em todas as direções.

Ele olhou ao redor, confuso, tentando entender onde estava.

“O quê? Fuuka? Mitsuru? Pessoal?” Sua voz ecoou, mas não houve resposta.

Ele começou a andar, sem rumo, o silêncio pesado e opressor ao seu redor.

De repente, vozes distantes chegaram aos seus ouvidos, indistintas no começo, mas logo se tornaram mais claras.

“Senhor Kirijo, eu não posso ficar com ele. Ele é um monstro!”

Hiro parou, seus olhos captando algo flutuando no ar à sua frente.

Um machado, imponente e reluzente, com o brasão do S.E.E.S gravado na lâmina.

No centro da lâmina, o símbolo do Colégio Gekkoukan estava gravado, rodeado pela insígnia do S.E.E.S.

Era uma arma de guerra, uma promessa.

“Esse machado... por que parece que pertence a mim?” Hiro murmurou, estendendo a mão para tocá-lo. Mas antes que pudesse, uma voz suave e infantil surgiu atrás dele.

“O que você tá fazendo?”

Hiro se virou bruscamente, mas não viu ninguém. Então, ao olhar para baixo, ele viu uma garotinha.

Seus olhos se arregalaram ao perceber que estava olhando para uma versão muito mais jovem de Mitsuru, talvez com seis ou sete anos de idade.

“Mitsuru?” ele perguntou, a surpresa clara em sua voz.

A menina piscou, confusa, antes de responder. “Me desculpe. Acho que não nos conhecemos.”

Hiro tentou disfarçar a confusão. “Ah, acho que sim. O que você tá fazendo aqui?”

Mitsuru, a versão infantil dela, apontou para o lado. “Estou esperando o arauto acordar.”

“O Arauto?” Hiro repetiu, seguindo o olhar da garota.

O que ele viu o deixou sem palavras.

Uma árvore, com folhas vermelhas como sangue, erguia-se imponente diante dele.

O chão ao redor estava coberto por algo que parecia ser poças de sangue, refletindo a luz fraca e avermelhada.

De repente, uma dor aguda atravessou o peito de Hiro.

O mundo ao seu redor começou a se desfazer, as imagens desaparecendo em um redemoinho de escuridão.

Na realidade, os olhos de Hiro começaram a se abrir lentamente.

Ele sentiu uma dor no peito ao perceber que Mitsuru terminando de injetar uma seringa de adrenalina nele.

Ela largou a seringa vazia, segurando o rosto do Hiro.

“Hiro, você tá bem?” A voz de Mitsuru estava carregada de preocupação.

Akihiko, ao lado dela, tentou tranquilizá-lo. “Calma, sua pressão caiu.”

A visão de Hiro ainda estava embaçada, mas ele deu um suspiro assustado e, em um reflexo, tentou se levantar de uma vez, batendo a cabeça com força contra a de Mitsuru.

“Aí, minha cabeça...” Hiro gemeu, passando a mão na testa. “Desculpa, Mitsuru, foi um reflexo.”

Mitsuru, segurando a própria cabeça, tentou minimizar a situação. “Tudo bem. Você tá melhor?”

Fuuka, que estava ao lado, estendeu um copo de água para ele, aliviada. “Ainda bem que você parece melhor. Aqui, beba.”

Hiro pegou o copo e bebeu a água em longos goles, sentindo-se mais calmo.

Quando terminou, Junpei e Akihiko o ajudaram a se levantar.

“Hiro, por que você desmaiou do nada?” Junpei perguntou, preocupado.

Hiro colocou o copo na mesa, limpando o sangue do nariz. “Eu... eu não sei. Eu ouvi sobre esse arauto e, de repente, isso aconteceu.”

Yukari, com o rosto ainda marcado pela preocupação, insistiu. “Mas, Hiro, a gente não escutou nada. Você tem certeza de que ouviu algo?”

Confuso, Hiro voltou a olhar para o notebook.

Ele deu play no vídeo de Eiichiro Takeba novamente, voltando ao ponto em que havia ouvido a voz, mas agora, não havia som algum além da estática.

“Eu juro que ouvi.” Hiro murmurou, franzindo a testa, tentando entender o que havia acontecido.

Nesse momento, o relógio de Minato começou a apitar.

Ele olhou para o próprio pulso, percebendo que a meia-noite estava próxima.

“Então, a gente vai para o Tartarus hoje?” Minato perguntou, virando-se para os outros.

Aigis foi rápida em responder. “Não é uma boa ideia. Hiro-san ainda pode estar passando por algo, embora meus sistemas indiquem que a pressão arterial dele voltou ao normal.”

Hiro deu uma risada fraca. “O quê? Ah, verdade, às vezes eu me esqueço que você é uma androide.”

Quando o relógio bateu meia-noite, as luzes começaram a falhar, e o céu lá fora tingiu-se de um verde sinistro.

A Dark Hour se iniciava mais uma vez.

...29/07/2009 Quarta-feira; Dark Hour...

A luz verde fantasmagórica da Dark Hour se infiltra pelas janelas do dormitório, lançando sombras estranhas nas paredes.

O Presidente Shuji observava a maleta que estava em cima da mesa no centro da sala.

“Bom, agora que terminamos de explicar tudo. Vamos falar do novo tra...” começou Shuji, mas sua fala foi interrompida.

Fuuka sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um frio repentino que a fez estremecer. Algo estava terrivelmente errado.

“Yamagishi, qual o problema?” Mitsuru perguntou, notando a expressão tensa da amiga.

Fuuka juntou as mãos, invocando sua Persona, Lúcia, que apareceu ao seu lado com um brilho etéreo.

“Tem uma Shadow... ela saiu do Tartarus e está vagando pelas ruas!” Fuuka anunciou, sua voz carregada de tensão.

Akihiko arregalou os olhos, surpreso. “Fora do Tartarus? É uma Shadow Arcana? Mas ainda não é lua cheia.”

Fuuka balançou a cabeça, a preocupação em seu rosto aumentando. “Não. Não é uma Shadow Arcana, mas mesmo assim, ela é muito forte. Parece que tá indo para o Santuário Naganaki.”

“O santuário?” Junpei repetiu, cerrando os olhos enquanto tentava entender a situação.

O Presidente Shuji bateu as mãos de forma repentina, chamando a atenção de todos.

Ele pegou a maleta que estava na mesa e, com um movimento rápido, a abriu, revelando o conteúdo dentro dela.

“Já que vocês vão ir atrás dessa Shadow, então é a oportunidade perfeita para testar o novo traje.” Shuji anunciou, com um sorriso confiante.

Dentro da maleta, havia um traje novo.

A peça destacava-se por uma braçadeira com a gravura do S.E.E.S e um número.

Minato pegou a jaqueta do traje, examinando o tecido com curiosidade. “Esse tecido... é pesado, mas tão suave ao mesmo tempo.”

Shuji se aproximou, pronto para explicar. “Resumindo, esses trajes são feitos de uma malha especial a base de fribas militares condensadas. Ela é fácil de reparar e barata para produzir. Mas, ao mesmo tempo…”

O presidente caminhou até a cozinha e pegou uma faca, retornando para onde Minato estava.

Sem aviso, ele perfurou a jaqueta que Minato segurava. No entanto, a faca não conseguiu atravessar o tecido.

“Mas ela é resistente o suficiente para aguentar alguns dos ataques das Shadows, sendo eles os fisicos que não sejam cortantes e tambem ataques magicos mais fracos.” Shuji completou, com um olhar satisfeito.

“Cada traje foi feito sob medida para cada um de vocês. Este é o seu, Minato. Os outros trajes estão na sala de comando. Aigis, venha comigo. Os cientistas prepararam algo especial para você.”

Mitsuru, assumindo uma postura de liderança, deu as ordens. “Vocês, vão se vestir. Nos encontramos aqui em cinco minutos.”

“Certo!” responderam todos em uníssono.

Em seguida, todos correram escada acima, dirigindo-se para a sala de comando, onde os trajes esperavam por eles.

Chegando na sala de comando, na mesa do centro tem caixas com o nome de cada um.

Hiro pega a caixa com o nome dele e vê o número 8 na tampa. “Vamos ver o que temos aqui.”

Quando todos finalmente se vestem, eles descem as escadas do dormitório, agora equipados com seus novos trajes e armados para o combate.

Minato desce primeiro, verificando o fio de sua espada.

Sua jaqueta preta com detalhes brancos nos punhos e colarinho se destaca, e sob ela, ele usa uma camisa branca abotoada até o colarinho.

No braço esquerdo, Minato exibe uma braçadeira vermelha com o símbolo do Colégio Gekkoukan, que inclui as iniciais "S.E.E.S." e o número 3.

Um cinto branco ao redor da cintura segura o coldre do Evoker, além de outros itens essenciais.

Suas calças pretas seguem o mesmo estilo da jaqueta, e ele calça sapatos pretos, completando o visual.

Atrás dele, Yukari puxa a corda de seu novo arco, testando a tensão.

Sua jaqueta preta semelhante à de Minato está aberta, revelando a camisa branca de manga longa que veste por baixo, decorada com um grande laço vermelho no pescoço.

Um colete rosa claro sobre a camisa contrasta com o preto da jaqueta.

Yukari usa uma saia preta curta e pregueada, com meias pretas que sobem até um pouco acima dos joelhos.

Nos pés, ela calça sapatos marrons clássicos. Seu coldre do Evoker está preso à coxa direita, e ela carrega um arco prateado com a inscrição "S.E.E.S.", acompanhado por uma aljava de flechas nas costas. Sua braçadeira exibe o número 4.

Junpei, com sua habitual despreocupação, observa sua nova montante. Ele mantém seu boné azul-escuro, vestindo uma camisa azul de mangas compridas parcialmente dobradas até os cotovelos.

A camisa, com um estilo militar e um pequeno bolso no peito, é complementada por luvas de combate azuis.

O coldre branco do Evoker está preso à sua perna direita, e sua jaqueta está amarrada à cintura. Junpei veste calças pretas e botas de combate, com a braçadeira exibindo o número 5.

Akihiko, ajustando suas novas luvas de combate pretas com detalhes em prata e cravos metálicos, veste um colete vermelho abotoado na frente, com uma camisa branca de manga longa por baixo, as mangas dobradas até os cotovelos.

Um cinto preto segura o coldre do Evoker, e ele veste calças pretas ajustadas e sapatos marrons. Sua braçadeira ostenta o número 1.

Mitsuru desce com um movimento elegante, arrumando seus longos cabelos ruivos.

Ela veste um uniforme militar estilizado, predominantemente preto com detalhes em dourado e branco.

A jaqueta sem mangas mostra sua camisa branca de mangas compridas por baixo, decorada com um grande laço vermelho no colarinho.

Ela usa luvas pretas que se estendem até o meio do antebraço. A jaqueta se prolonga até os quadris, e uma saia preta combina com o restante do uniforme.

Um cinto branco segura o coldre do Evoker e bolsos laterais com cristais do Tartarus.

Mitsuru carrega um florete com um guarda-mão dourado detalhado. Sua braçadeira exibe o número 0.

Fuuka, ajustando seu novo headset, veste um poncho preto e cinza, com uma camisa verde-azulada de gola alta e mangas compridas por baixo. Sua braçadeira contém o número 6.

Por último, Hiro desce as escadas girando sua nova cimitarra antes de guardá-la na bainha. Seu traje difere dos outros, composto por um sobretudo preto cheio de bolsos, com a manga esquerda puxada até o cotovelo.

As costuras nas costas do sobretudo sugerem placas de blindagem embutidas no tecido. Hiro veste uma calça de estilo militar com joelheiras vermelhas e luvas sem dedo, estilo motoqueiro.

Sua camisa branca de mangas compridas tem a manga esquerda dobrada até o mesmo nível do sobretudo, com o colarinho aberto. Sua braçadeira exibe o número 8, e na sua coxa esquerda está o coldre do Evoker.

Mitsuru, ajustando suas luvas, pergunta com firmeza: “Estão prontos?”

Junpei, colocando a montante na bainha presa nas costas, responde com entusiasmo: “Pronto para ação.”

Hiro, ajustando o sobretudo, comenta: “Parece que, ao invés da jaqueta, fizeram um sobretudo pra mim. Nada mal.”

Fuuka, arrumando seu headset, alerta: “A Shadow tá chegando no Santuário Naganaki. Alguém precisa ir na frente e cuidar de outras Shadows mais fracas que estão aparecendo. Parece que nosso alvo está fazendo Shadows mais fracas saírem do Tartarus.”

Mitsuru, caminhando até o balcão da entrada do dormitório e retirando dois capacetes de moto, decide: “Eu vou. Hiro, vem comigo.”

Hiro, confuso, pergunta: “Você tem uma moto? Desde quando?”

Mitsuru, entregando um dos capacetes para Hiro, responde calmamente: “Eu tirei minha carteira no ano passado.”

Hiro observa Mitsuru sair do dormitório e olha para o capacete em suas mãos, começando a colocá-lo.

Akihiko se aproxima e põe a mão no ombro dele.

“Não se preocupe.” diz Akihiko com um sorriso encorajador. “A Mitsuru pilota bem.”

Hiro suspira e segue Mitsuru para fora do dormitório, onde a vê empurrando a moto até a rua.

A moto, de estilo esportivo, tem uma cor prateada e, na garupa, uma caixa branca com suprimentos médicos.

Apertando o capacete, Hiro questiona: “Você não disse que nenhum eletrônico ou veículo funcionava durante a Dark Hour?”

Mitsuru, já montada na moto e colocando o capacete, explica: “Sim, veículos normais e outros eletrônicos não funcionam. Mas o computador da sala de comando e minha moto foram fabricados com algumas partes de Shadows. Por isso, eles funcionam.”

Ela gira a chave na ignição e aperta o botão de partida, fazendo a moto ganhar vida.

Mitsuru acelera algumas vezes para esquentar o motor, antes de olhar pro Hiro.

“Sobe aí. E segure firme em mim.” ela instrui.

Hiro, montando na garupa e abraçando a cintura de Mitsuru, faz um pedido: “Não mate a gente, tá ok?”

Com um sorriso determinado, Mitsuru coloca a moto na primeira marcha. “Pode deixar.”

Ela acelera com tudo, fazendo os pneus derraparem.

A moto pega velocidade rapidamente, e Mitsuru troca as marchas com habilidade, entrando nas curvas em direção ao Santuário Naganaki.

“Se segura!” Mitsuru avisa, enquanto derrapa em uma curva fechada antes de acelerar novamente em alta velocidade.

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Comments

Carlos hunter15

Carlos hunter15

Por que essa cena me fez lembrar de quando você troca de personagem no gta V e vê ele saindo de um estabelecimento falando algo

2024-10-19

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