...16/08/2009 Domingo, Manhã...
Os primeiros raios de sol atravessavam as janelas das casas, anunciando um novo dia de céu claro e sem nuvens.
Pelas ruas da cidade, as pessoas andavam carregando panfletos, materiais de construção e caminhões cheios de fogos de artifício.
A atmosfera era de entusiasmo, pois o festival de verão estava sendo preparado mais uma vez, desta vez acompanhado por um festival de cinema que aconteceria na quarta-feira.
No dormitório, Yukari estava em seu quarto, sentada em frente à escrivaninha, observando um panfleto que havia pegado enquanto fazia compras.
Seu olhar estava perdido, e um suspiro frustrado escapou de seus lábios.
"Ahh... eu tinha me esquecido do festival." murmurou ela, com um toque de tristeza na voz. "E ainda não consegui conversar direito com o Minato..."
Ela deixou o panfleto de lado e olhou para o próprio reflexo no espelho do quarto.
Seus cabelos castanhos, jogados para o lado, emolduravam seu rosto, e seus olhos, da mesma cor, expressavam dúvida e uma inquietação crescente.
Memórias do que aconteceu em Yakushima invadiram sua mente de forma repentina, e ela se viu revivendo aquele momento.
Lá estava ela, correndo até o píer de pesca, após assistir ao vídeo que seu pai havia gravado sobre as Shadow Arcana.
As palavras dele ainda ecoavam em sua mente, trazendo à tona o fato de que seu pai estava envolvido com a criação da Dark Hour e do Tartarus.
Ao chegar ao fim do píer, Yukari se apoiou no parapeito, suas mãos cobrindo o rosto, enquanto lágrimas silenciosas deslizavam.
"Pai... por quê?" sua voz saiu embargada de uma melancolia. "Por que você não me contou sobre isso antes?"
Ela levantou o olhar para a lua, seus olhos marejados refletindo o brilho pálido do céu noturno.
A dor de descobrir que seu próprio pai estava envolvido com o surgimento da Dark Hour, das vidas inocentes que se perderam.
E além disso, a própria Mitsuru havia ocultado essa verdade a pedido de seu pai, deixando Yukari ainda mais perdida.
"Eu confiei nela..." murmurou Yukari, olhando para a água abaixo de si. "E no fim, descubro que meu pai foi o responsável por tudo isso..."
De repente, ela sentiu que alguém se aproximava. Sem precisar olhar, ela soube que era Minato.
Ele havia corrido atrás dela a pedido de Mitsuru, seus passos eram calmos e suaves, suas mãos enterradas nos bolsos da calça, e seus olhos azuis, sempre serenos, a observavam à distância.
"A Mitsuru-senpai mandou você vir atrás de mim, não foi?" Yukari perguntou sem virar-se, sua voz ainda marcada pela tristeza.
Minato parou ao lado dela, fixando os olhos nas ondas que se formavam na água.
Por um momento, o silêncio reinou entre eles, uma quietude que compartilhava a mesma dor.
"Foi." respondeu ele com seu habitual tom frio. "Mas também vim porque me preocupei com você."
Yukari limpou as lágrimas, ainda irritada com a confusão em sua mente. Ela balançou a cabeça em negação, mexendo em seus cabelos.
"Eu entrei para o S.E.E.S para descobrir a verdade sobre meu pai... e a última coisa que ele fez foi enviar uma carta para mim, dizendo que eu deveria procurar a Mitsuru-senpai. Mas..."
Ela apertou o parapeito com força, seu coração afundando ao lembrar-se de tudo. Minato continuou em silêncio, respeitando o momento dela.
"Eu descobri que ele morreu tentando impedir as Shadows Arcana. Ele tentou evitar o fim do mundo... mas acabou criando a maldita Dark Hour." Yukari fala com uma voz angustiada.
Minato olhou para ela, sua expressão serena. "Não coloque a culpa no seu pai. Você ouviu o que o senhor Kirijo disse. A explosão do laboratório aconteceu quando seu pai tentou destruir as Shadows Arcana. Mesmo que tenha criado a Dark Hour e o Tartarus, ele nos deu uma chance de lutar contra elas."
As palavras de Minato trouxeram um pouco de calma ao coração de Yukari, mesmo que a dor ainda estivesse presente. "Você tem razão..."
Eles ficaram em silêncio novamente, cada um imerso em seus próprios pensamentos, até que Yukari percebeu algo.
As semelhanças entre ela e Minato se tornaram evidentes. Assim como ela havia perdido o pai, Minato também havia perdido seus pais em um acidente quando era apenas uma criança.
"Minato..." começou Yukari, sua voz um pouco mais pesada. "Você lembra do que eu disse no hospital sobre meu pai?"
Minato assentiu. "Lembro. Você disse que nunca soube ao certo o que aconteceu com ele. Tudo eram rumores."
Yukari suspirou, sua mente tentando processar tudo o que sentia. "Agora você entende, não é?"
"Sim." respondeu ele calmamente.
"Eu sempre tentei acreditar que não era culpa dele. Que meu pai não estava envolvido..." Yukari começou a chorar novamente, suas palavras tremendo. "Mas depois de ver aquele vídeo... eu me sinto tão inútil. Parece que nada do que fiz importa. Ele criou a Dark Hour, mesmo que sem querer."
Minato se apoiou no parapeito, olhando para o horizonte. "Isso não é verdade."
Yukari forçou um sorriso triste, sem desviar os olhos da lua. "Você só está tentando me fazer sentir melhor... A realidade é dura. Eu sou uma pessoa horrível, não sou?"
Minato balançou a cabeça. "Nem um pouco."
Os dois se encararam por um momento, compreendendo o peso das palavras um do outro.
Yukari, ainda perdida em seus pensamentos, sentiu algo mudar dentro de si. Havia uma curiosidade crescente.
"Eu não sei como você consegue se manter tão calmo, Minato. Mesmo quando lutamos contra as Shadows... parece que você sempre está no controle."
Minato, refletindo por um instante, deu um pequeno sorriso. "Você está errada."
"Hã?" Yukari ficou confusa.
"Eu posso parecer calmo, mas não é porque não me importo com as Shadows. É porque não tenho nada a perder." explicou ele, sua voz perdendo um pouco da frieza habitual.
"Eu já perdi tudo... mas vocês me deram um motivo para continuar. Quero ajudar vocês a realizar seus desejos."
Yukari sentiu seu coração acelerar, as palavras de Minato a atingindo profundamente.
Ela olhou para ele, vendo alguém que ela sempre admirou, mas agora com uma nova percepção.
"Minato..." murmurou ela, sem saber ao certo o que dizer.
Minato a encarou de volta, esperando que ela continuasse.
Yukari sentiu uma onda de emoção a dominando, e antes que percebesse, ela deu um passo à frente e o abraçou.
"Você é incrível... obrigado por ser assim." sussurrou ela, tentando segurar as lágrimas.
Minato retribuiu o abraço, suas mãos segurando-a com suavidade. "Não há de quê."
Os dois ficaram assim por um tempo, em silêncio, compartilhando aquele momento.
Quando se afastaram um pouco, seus olhares se encontraram, e ambos sentiram uma conexão mútua.
O flashback termina e Yukari ainda estava sentada à sua escrivaninha, encarando seu reflexo no espelho.
Seus olhos, meio turvos de pensamentos, pareciam vagar para longe, enquanto sua mente revivia lembranças do passado.
Um longo suspiro escapou de seus lábios, cheio de frustração e angústia, enquanto seus dedos massageavam suavemente suas têmporas.
Ela se inclina para trás na cadeira, os olhos fixos no teto, tentando reorganizar seus pensamentos. "Ele sempre ajuda todo mundo... mesmo quando está machucado. Minato..."
Yukari soltou mais um suspiro, se levantando lentamente.
Seus movimentos eram pesados, como se as emoções que carregava a puxassem para baixo.
Cada pensamento a levava de volta ao Minato, à forma como ele lidava com o peso do mundo.
Havia algo nele que ela admirava, mas, ao mesmo tempo, sentia que ele não se importa consigo mesmo.
...18/08/2009 Terça-feira; Tarde...
O sons de pancadas ecoam pelos corredores do dormitório vindo do quarto de Akihiko, o quarto dele tinha um ambiente bem diferente.
Suas prateleiras estavam lotadas de troféus e medalhas, troféus reluzentes que mostravam seu talento no boxe.
Perto da janela, pilhas de suplementos e vitaminas estavam organizadas com precisão, como se fizessem parte de sua rotina diária.
No canto, um grande saco de pancadas balançava levemente, ainda ressoando com os golpes que o Akihiko desferia.
Vestido apenas com um short de boxe, Akihiko suava intensamente, seu corpo esculpido pelo esforço constante.
Ele estava concentrado, sua respiração rápida e controlada, enquanto socava o saco com força.
A cada golpe, ele soltava um grunhido de esforço, sua mente focada no treino, mas também em algo que parecia mais profundo.
Ele não estava apenas treinando... estava se testando.
De repente, ele deu um grito, pulando no ar e desferindo um chute giratório.
O impacto foi tão forte que a corda que segurava o saco se rompeu, lançando ele contra o armário.
O estrondo reverberou pelo quarto, seguido pelo som do armário tombando no chão com um barulho ensurdecedor.
"Droga..." Akihiko ofegou, passando a mão pelo rosto suado enquanto olhava a bagunça. "Será que quebrei o armário?"
Antes que pudesse pensar em uma solução, ouviu batidas na porta. Seu corpo travou de imediato, e a primeira pessoa que veio à sua mente foi Mitsuru.
Se ela visse aquele caos, com certeza ela iria se irritar. "Se for a Mitsuru... eu vou ser esfolado vivo.", pensou, engolindo seco.
Mas, para sua surpresa, a voz que veio do outro lado não era de Mitsuru.
"Akihiko, você tá vivo?" era Hiro, com um tom de preocupação. "Eu tava voltando pro meu quarto e ouvi um barulhão vindo daí.
Akihiko soltou o ar que não percebeu que estava prendendo, relaxando imediatamente.
Ele se dirigiu até a porta, abrindo ela com um sorriso forçado. "Hiro, que bom que é você. Por acaso, a Mitsuru tá no dormitório?"
Hiro coçou a cabeça, confuso com a pergunta repentina. "Não, ela saiu faz uns vinte minutos pra fazer uma revisão na moto dela. Por quê? Parece que você viu um fantasma."
"Ufa..." Akihiko suspirou de alívio, apoiando-se na porta. "Me ajuda com uma coisa aqui, fiz uma bagunça."
Quando abriu a porta completamente, Hiro deu uma olhada rápida para dentro e arregalou os olhos.
O armário estava tombado, uma nuvem de poeira ainda flutuava no ar, e o saco de pancadas parecia ter sido destroçado.
"Puta merda, Akihiko... você quebrou o saco de pancadas foi?" Hiro exclamou, tossindo com a poeira.
"É, mais ou menos isso." respondeu Akihiko, meio embaraçado, coçando a nuca.
Hiro suspirou, entrando no quarto e dando uma olhada melhor na situação.
Ele logo se posicionou ao lado do armário, preparando-se para ajudar. "Tudo bem, eu te dou uma mão. Pega esse lado, eu fico com esse daqui."
Akihiko fechou a porta e se posicionou do outro lado do armário.
Juntos, eles contaram até três e começaram a levantar o armário, os músculos de ambos tensionando sob o esforço.
"Ainda não pude te agradecer, Hiro." Akihiko murmurou, enquanto levantava o móvel.
Hiro, ofegante com o esforço, olhou para Akihiko, sem entender direito. "Agradecer pelo quê?"
"Por trazer o Shinjiro de volta." Akihiko respondeu, ajeitando a posição para apoiar o peso.
Os dois finalmente conseguiram levantar o armário e colocá-lo de volta no lugar.
Hiro limpou as mãos, observando o quarto com um ar de alivio.
"Ah, isso... Não precisa agradecer. Eu percebi que ele era importante pro grupo, especialmente pra você e pra Mitsuru." Hiro fala com um tom de alívio após levantar o armário.
Akihiko, ainda meio pensativo, agachou-se perto de um baú ao lado da cama e o abriu, retirando uma corrente de dentro.
"Você fez mais do que trazer um membro de volta..." murmurou, enquanto mexia nos itens do baú.
Hiro franziu o cenho, curioso com o que Akihiko queria dizer. "O que você quer dizer?"
"Eu conheço o Shinjiro desde o orfanato." Akihiko disse, ainda com a corrente nas mãos. "Ele é como um irmão pra mim. Depois que minha irmã morreu, ele ficou ao meu lado, mesmo quando fui adotado. Ele sempre esteve lá pra mim. E você trazê-lo de volta... foi como tirar um peso gigantesco das minhas costas."
Akihiko se levantou, encarando Hiro com olhos cheios de sinceridade e uma gratidão que palavras não poderiam expressar.
Era um olhar que transmitia a profundidade do vínculo entre ele e Shinjiro, e o alívio que sentia por tê-lo de volta.
"Obrigado, Hiro." disse, com um sorriso genuíno no rosto. "Eu te devo muito por isso."
Hiro retribuiu o sorriso, sentindo uma onda de satisfação aquecer seu peito.
Sabia que tinha feito a coisa certa, mas ouvir aquilo de Akihiko tornava tudo ainda mais significativo.
"De nada." disse Hiro, de forma simples. "Eu não sabia que o Shinjiro era tão importante assim."
Akihiko voltou para o saco de pancadas, pegando ele para reparar o estrago. "Não costumo falar disso com muita gente... Mas saiba que, se precisar de mim, estou aqui. Não importa o que seja, pode contar comigo."
Hiro deu uma risadinha, se lembrando do acordo que tinham feito. "Só não esquece do nosso acordo."
"Como eu poderia?" Akihiko sorriu, balançando a cabeça enquanto ajeitava o saco de pancadas.
...20/08/2009 Quinta-Feira; Meio-dia...
No Colégio Gekkoukan, as aulas foram suspensas pelo resto do mês por causa do festival de verão.
No entanto, alguns compromissos do conselho estudantil ainda precisavam ser resolvidos, especialmente em relação à administração da escola.
Mitsuru estava na sala do conselho estudantil, realizando um favor para o diretor, era carregar caixas de documentos.
Ela colocou a penúltima caixa sobre a mesa que continha os registros dos alunos e soltou um suspiro de alívio por ter terminado a tarefa.
Hidetoshi Odagiri, o vice-presidente do conselho estudantil, entrou logo em seguida na sala carregando outra caixa cheia de documentos e a colocou no chão.
Hidetoshi, com seus cabelos pretos acinzentados penteados para trás e seus olhos igualmente escuros, usava o uniforme padrão do Colégio Gekkoukan, adornado com uma braçadeira amarela que dizia "Comitê Disciplinar" no braço esquerdo.
Sua postura rígida refletia alguém que valorizava organização e regras, ainda que, às vezes, parecesse mal-humorado.
Ele olhou para Mitsuru com respeito, já que ela era a presidente do conselho estudantil, e cruzou os braços.
"Acho que essa foi a última, Kirijo-san." Hidetoshi disse com um tom formal.
Mitsuru, mexendo elegantemente em seus cabelos, encostou-se na mesa, olhando para Hidetoshi.
"Muito obrigada por ajudar, Odagiri-kun. E peço desculpas novamente por atrapalhar você durante o recesso." Ela agradeceu com sinceridade.
Hidetoshi fez um gesto com a mão, minimizando a situação, enquanto andava até um armário no canto da sala onde havia deixado sua bolsa.
"Não se preocupe com isso. É meu trabalho como vice-presidente. Além disso, é importante manter a ordem no colégio. Quem deveria estar aproveitando esse recesso é você, Kirijo-san." Disse ele, despreocupado, enquanto procurava suas chaves na bolsa.
"Eu sei, mas, assim como você, é minha responsabilidade manter tudo nos conformes, principalmente os alunos que convivem comigo no dormitório Iwatodai." Mitsuru respondeu com um sorriso leve, fechando os olhos por um momento.
Hidetoshi, agora com sua bolsa no ombro e as chaves em mãos, se virou para Mitsuru antes de sair.
"Sabe, Kirijo-san, às vezes me pergunto se você tem alguém para conversar." Ele disse, sem rodeios.
Mitsuru arqueou a sobrancelha, curiosa. "Como assim?"
"Muitas vezes parece que você carrega o mundo nos ombros e não tem ninguém com quem desabafar. Não que isso seja ruim, mas acho que você deveria conversar com alguém sobre seus problemas. Enfim, estou indo." Ele sugeriu, enquanto começava a caminhar em direção à porta.
Mitsuru olhou para o lado, murmurando para si mesma. "O mundo nos ombros..."
Hidetoshi parou de repente e, lembrando-se de algo, virou-se novamente para ela, enfiando a mão nos bolsos.
"Quase me esqueci. Onde coloquei...?" Ele procurava algo enquanto Mitsuru o observava, intrigada.
"Aconteceu alguma coisa, Odagiri-kun?" Perguntou ela.
Hidetoshi finalmente encontrou o que estava procurando dentro de sua bolsa, dois ingressos de cinema.
Com um sorriso de satisfação, os estendeu na direção de Mitsuru que os pegou.
"Ingressos de cinema?" Ela perguntou, surpresa.
"Sim, o diretor queria nos recompensar pelo favor de hoje, então me deu esses ingressos para assistir qualquer filme no cinema, com direito a pipoca grátis. Mas eu não sou muito fã de filmes, então pode ficar com o meu." Ele explicou.
Mitsuru olhou para os ingressos em suas mãos, pensando em quem poderia convidar.
Talvez pudesse dar a dois membros do grupo... até que Hidetoshi percebeu sua hesitação.
"Se eu fosse você, chamaria aquele cara com quem você tem conversado bastante nos intervalos... Mikoshi, eu acho." Hidetoshi sugeriu, decidido. "Enfim, até mais, meu trem sai daqui a pouco."
Mitsuru, surpresa, respondeu rapidamente. "Você tá falando do Hiro?"
Mas quando olhou para frente, Hidetoshi já havia partido.
Mitsuru voltou sua atenção para os ingressos em suas mãos, considerando a ideia de convidar Hiro.
Talvez fosse uma boa oportunidade para conhecê-lo melhor.
Ela deu a volta na mesa, pegou sua bolsa e tirou o celular do bolso.
Com determinação, digitou o número de Hiro, mas, antes de iniciar a chamada, parou.
Um nervosismo inesperado tomou conta de seu peito, algo que nunca havia sentido antes. Confusa, ela respirou fundo.
"Não tem motivo para ficar nervosa, Mitsuru. É só um pedido para ir ver um filme com o Hiro." Ela murmurou para si mesma, apertando o botão de chamada.
O toque soou por alguns segundos antes de Hiro atender, sua voz soando apressada.
"Oi Mitsuru! Eu tô passeando com o Koromaru. Aconteceu algo?" Ele perguntou, em um tom rápido.
Mitsuru sentiu o nervosismo novamente, as palavras pareciam não sair. Ela tentou falar, mas seu coração batia forte.
"Mitsuru? Você tá aí?" Hiro perguntou, confuso com o silêncio.
"Ah, desculpa, Hiro. Eu recebi dois ingressos para o cinema do diretor. Por acaso você quer ir comigo amanhã?" Mitsuru finalmente conseguiu falar o que queria.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha, enquanto Hiro processava o convite inesperado.
"A... ehhh... claro! Amanhã eu tô livre." Ele respondeu, ainda surpreso.
Mitsuru, sentindo um alívio inexplicável, sorriu. "Ótimo. Podemos sair do dormitório às onze, tudo bem para você?"
"Tudo bem. Já terminou o que tinha que fazer no colégio?" Hiro perguntou.
"Sim, terminei. Estou voltando para o dormitório agora. Ah, caso veja o Arisato, avise que não vamos ao Tartarus hoje, já que a Aigis foi enviada para manutenção." Mitsuru explicou, enquanto pegava o capacete de sua moto no armário.
"Pode deixar, aviso sim. Até mais, Mitsuru." Hiro se despediu.
Depois de desligar, Mitsuru suspirou, sentindo o nervosismo desaparecer, mas ainda intrigada com a sensação.
Ela balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos.
"Calma Mitsuru, isso não vai acontecer de novo." Ela murmurou para si mesma, pegando o capacete e saindo da sala do conselho estudantil em direção à sua moto.
...21/08/2009 Sexta-feira; Meio-dia...
A rua estava movimentada devido ao festival de verão que aconteceria no dia seguinte.
Mulheres carregavam sacolas com novas yukatas que usariam no festival de verão, enquanto alguns homens anunciavam reservas de mesas em restaurantes.
No entanto, a atenção dos jovens estava focada no cinema, já que o festival de cinema acontecia simultaneamente com o festival de verão.
Mitsuru e Hiro caminhavam pelas ruas, em direção ao cinema.
Hiro vestia uma calça preta e uma camiseta vermelha sob uma jaqueta jeans preta com as mangas puxadas até os cotovelos.
Um colar de dogtags pendia em seu pescoço, uma delas prateada, e ele usava tênis de cano alto pretos com detalhes brancos.
Seu cabelo preto, que está maior, agora estava amarrado em um pequeno coque.
Já Mitsuru carregava um casaco de couro preto sob o braço, junto com sua bolsa.
Ela usava uma camisa branca de gola alta sem mangas, uma calça branca, e botas de cano alto pretas.
Mitsuru sentia seu coração bater acelerado, o mesmo nervosismo que sentiu antes, mas em seu rosto mantinha a expressão serena de sempre.
Hiro, por sua vez, andava com as mãos nos bolsos, perdido em pensamentos.
"Como que eu fui parar aqui? Eu nunca saí com uma mulher antes... agora, depois que entrei no S.E.E.S, saio logo com a Mitsuru. Com certeza as fãs dela vão querer me dar uma surra de ciúmes." Hiro murmurou para si mesmo, lançando olhares furtivos para Mitsuru enquanto andavam.
Ele a observava, admirando sua beleza. Seus cabelos vermelhos longos, os olhos da mesma cor, que contrastavam com a roupa preta e branca que usava.
Contudo, sua admiração foi bruscamente interrompida quando um panfleto do festival, levado pelo vento, atingiu seu rosto e ficou preso ali.
Surpreso, Hiro soltou um grunhido e, irritado, arrancou o panfleto de seu rosto, rasgando-o em pedaços.
"Vai assustar outro filho da puta." Ele reclamou, ainda frustrado.
Mitsuru, vendo a cena, soltou uma risadinha, notando que Hiro parecia diferente, mais leve e feliz do que antes.
"Hiro, posso te perguntar uma coisa?" Ela disse, sorrindo.
"Claro, o que foi?" Hiro respondeu, enquanto subiam as escadas da entrada do cinema.
Mitsuru desviou o olhar, massageando as próprias mãos, como se estivesse ansiosa ou nervosa. "O que aconteceu com você antes de entrar para o S.E.E.S? Você nunca contou isso para ninguém."
Hiro coçou a cabeça, desviando o olhar com uma expressão triste, claramente desconfortável ao relembrar seu passado.
Mitsuru percebeu que havia tocado em um assunto delicado.
"Desculpa, eu não queria..." Mitsuru começou a dizer, sentindo-se culpada.
"Tá tudo bem." Hiro sorriu para ela, compreensivo, colocando a mão em seu ombro. "Eu só não estou acostumado a falar sobre isso. Mas..."
Eles pararam de andar, e Mitsuru olhou para ele com atenção.
"Meu pai me abandonou quando eu era criança. Eu tinha dez anos. Ele me chamou de monstro." Hiro revelou, sua voz baixa e amarga.
"O quê? Te chamou de monstro? Mas por quê? Você não é assim!" Mitsuru respondeu, incrédula.
"Eu não faço ideia. Ele disse que era algo que eu iria me tornar... Mas agora eu tento esquecer que ele existe. Nem me lembro mais do nome dele direito." Hiro suspirou, frustrado.
Antes que Hiro pudesse continuar, o atendente do cinema limpou a garganta, tentando chamar a atenção dos dois, que estavam parados em frente ao caixa.
"Ah, peço desculpas." Mitsuru disse, rapidamente pegando os ingressos em sua bolsa.
"Não se preocupe, senhorita. Como posso ajudar o casal?" O atendente perguntou, com um sorriso largo.
Hiro deu um espasmo de surpresa, ficando levemente vermelho. "Não... nós não namoramos. Somos apenas amigos. Enfim, quais são os filmes disponíveis hoje?"
"O catálogo de hoje tem filmes de romance clássico, ficção científica e ação. Mas, infelizmente, estamos sem vagas nos filmes de ação e ficção científica. Só restam vagas para o filme: Rosas do Amanhecer Dourado, um dos filmes do catálogo de romance clássico." O atendente explicou, mexendo na tela do computador.
"Tá falando sério?" Hiro resmungou, coçando a bochecha.
"Vamos assistir esse." Mitsuru decidiu rapidamente, colocando os ingressos no balcão.
Hiro ficou surpreso com a decisão imediata dela.
O atendente, acenando feliz, pegou os ingressos e, ao notar que eram especiais, abaixou-se atrás do balcão e entregou dois baldes de pipoca vazios para Mitsuru e Hiro.
"Aqui estão seus baldes. Podem preenchê-los na cantina no final do corredor à esquerda. O filme será na sala quatro, e os assentos são os L6 e L7. Aproveitem o filme!" O atendente disse com um sorriso enquanto apontava para o corredor ao lado.
Mitsuru e Hiro se entreolharam e seguiram em direção à cantina para pegar pipoca. Mas Hiro não conseguiu conter sua curiosidade.
"Não esperava que você escolhesse um filme de romance clássico." Ele comentou.
Mitsuru deu um leve sorriso enquanto andava com o Hiro. "Sempre tive curiosidade em assistir a esse tipo de filme. Parece uma boa oportunidade."
Eles pegaram suas pipocas e caminharam em direção à sala do filme, prontos para aproveitar o momento juntos.
Após alguns minutos de filme, Hiro e Mitsuru observavam as cenas se desenrolando na tela: dois príncipes duelando em um vasto campo de flores douradas, lutando pelo coração de uma donzela adormecida.
A tensão entre os personagens na tela parecia refletir algo novo no coração de Mitsuru.
Um nervosismo familiar se fazia presente, mas, dessa vez, misturado com um desejo crescente de estar próxima de alguém — próxima de Hiro.
Ela desviou seu olhar da tela para Hiro, que assistia ao duelo com atenção, um leve sorriso de interesse em seu rosto.
Mitsuru sentiu o rosto esquentar, admirando algo que até então não havia notado no companheiro.
"Eu nunca percebi o quão bonito ele é..." Mitsuru sussurrou para si mesma, sentindo-se surpresa por seus próprios pensamentos.
Hiro, ainda fixado no filme, logo notou o olhar dela. Ele virou a cabeça na direção de Mitsuru, intrigado com a expressão distante que ela exibia.
"Mitsuru, tudo bem?" Ele perguntou, também sussurrando.
Mitsuru piscou algumas vezes, sendo tirada de seus pensamentos. "Ah, sim... está tudo bem."
Os dois se encararam por um instante, e aquela familiar sensação de conexão retornou.
O mundo ao redor deles parecia desaparecer lentamente, e seus rostos começaram a corar.
Eles sentiam algo além de simples proximidade física, era uma conexão profunda, suas respirações se harmonizando.
Mitsuru olhava nos olhos de Hiro, notando algo que a tocou profundamente.
Quando ele havia entrado para o S.E.E.S, seus olhos eram vazios, sem vida.
Mas agora, eles brilhavam com uma inocência recém-descoberta, algo que floresceu com o convívio no grupo.
Aos poucos, ambos começaram a se inclinar para frente, aproximando-se um do outro, como se algo inevitável estivesse para acontecer.
A ternura entre eles era palpável.
No entanto, antes que pudessem chegar mais perto, a voz coletiva do público na sala manifestou sua insatisfação com a cena do duelo, que terminava em um empate.
O som os trouxe de volta à realidade, e os dois se afastaram rapidamente, constrangidos.
"Foi mal." Hiro disse, passando a mão nervosamente pelo pescoço. "Eu... me movi sem pensar, foi reflexo."
"Tudo bem." Mitsuru respondeu, massageando os olhos com um toque suave. "Eu também me movi sem pensar."
Os dois trocaram olhares mais uma vez antes de desviarem os olhos para os lados, ambos envergonhados pelo que quase aconteceu.
"Mitsuru..." Hiro começou, quebrando o silêncio, mas hesitante. "Às vezes me pergunto se você tem mais vontade de me conhecer."
"Hã?" Mitsuru respondeu, surpresa.
"Tipo... eu não conheço muito sobre você. E você não conhece muito sobre mim. Na verdade, meio que não sabemos nada um do outro. Só um pouco." Ele explicou, tentando se acalmar.
Mitsuru ponderou por um momento, olhando para o lado. "Você tem razão..."
Os dois voltaram a olhar para a tela, suas mentes ainda processando o que quase aconteceu.
Já era a segunda vez que ficavam tão próximos.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Mitsuru, e, sem hesitar, ela colocou sua mão suavemente sobre a de Hiro, de forma delicada, mas confiante.
"Eu não conheço você direito, Hiro. Mas uma coisa eu sei." Mitsuru disse, com um sorriso suave. "Ver você se tornando uma pessoa melhor me faz querer estar mais perto de você."
Hiro corou quase que instantaneamente, sentindo seu coração acelerar como um martelo.
O nervosismo tomou conta, mas ele também sentiu uma alegria imensa ao ver Mitsuru daquela forma.
Ele sorriu feliz, e com delicadeza cruzou os dedos com os dela, apertando sua mão de forma carinhosa, o que fez Mitsuru corar também.
"Ouvindo isso... me deixa muito... feliz. Você é uma pessoa incrível, Mitsuru Kirijo. Obrigado por confiar em mim." Hiro disse, com sinceridade.
Mitsuru sentiu um calor preencher seu peito. Sorrindo, ela inclinou sua cabeça suavemente sobre o ombro de Hiro, sentindo-se segura ao lado dele.
"Eu que agradeço, Hiro." Ela murmurou, olhando para a tela do cinema. "Você também é uma pessoa incrível, mesmo que às vezes seja um pouco impulsivo."
Hiro riu baixinho, voltando a prestar atenção ao filme.
Apesar de assistirem ao restante do filme em silêncio, suas mãos continuaram juntas, marcando o início de algo mais profundo entre os dois, algo que ainda floresceria.
...21/08/2009 Sexta-feira; Tarde...
Junpei andava pelas ruas, agora menos movimentadas devido ao horário: 16h58.
Ele vestia uma regata preta, jeans azul-marinho e sapatos sociais pretos.
Um colar de prata brilhava sob a luz do entardecer, assim como sua corrente presa às calças.
Seu boné azul habitual estava, como sempre, em sua cabeça.
Enquanto caminhava, seu olhar vagueava pela cidade, em busca de algo para fazer; ou alguém para tentar impressionar.
Mas, até agora, sem sucesso.
Ele suspirou profundamente, levantando os olhos para o céu.
"Tá difícil, hein..." Junpei murmurou, desanimado. "Não consegui achar ninguém pra sair. A Yuka-chan está com o Minato. O Hiro saiu mais cedo com a Mitsuru-senpai... Por que só eu não consigo alguma coisa?"
Balançando a cabeça, ele decidiu ir para a estação de metrô, provavelmente voltando para o dormitório.
Mas, antes de seguir, algo chamou sua atenção. Sentada em um banco estava uma jovem mulher.
Seus cabelos vermelhos contrastavam com os olhos castanhos escuros, e ela vestia um longo vestido gótico lolita branco, meias brancas e sapatos de salto alto.
Na cabeça, uma faixa preta com babados creme e uma adaga falsa presa completava o visual.
Junpei ficou sem palavras por um momento. Ele não sabia quem ela era, mas se sentiu imediatamente atraído.
A jovem era, na verdade, Chidori Yoshino, membro dos Strega, mas isso estava fora de seu radar.
Ela segurava um caderno de artes, concentrada, desenhando algo.
Sentindo seu coração acelerar, Junpei tentou se acalmar, batendo levemente no próprio rosto para focar.
"Vamo lá, Junpei. Você consegue. Não estrague tudo." Ele respirou fundo e caminhou até ela, parando ao seu lado, tentando encontrar as palavras certas.
"Ahh... Oi, meu nome é Junpei Iori, e eu te vi aqui sozinha... Posso conversar com você?" Ele perguntou, claramente nervoso.
Chidori, sem levantar a cabeça imediatamente, pausou o movimento da caneta.
Depois, lentamente, ela ergueu os olhos, seus olhos frios e um tanto confusos fixaram-se em Junpei.
"Por acaso eu te conheço?" Chidori perguntou, sua voz carregada de frieza e desinteresse.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 33
Comments