Ponto de vista de Aurora...
Quando eu era criança, meus pais sempre me deram tudo o que eu queria, exceto sua atenção. Estavam sempre ocupados, envolvidos em seus negócios e seus próprios mundos. Não que eu reclamasse — já estava acostumada a ficar sozinha com as babás.
Porém, tudo mudou quando, aos 11 anos, sofri um grave acidente de carro a caminho da escola. Fiquei em coma por muitos anos e, ao completar 18, meus pais decidiram desligar os aparelhos. Como sei disso?
Bom, é simples... Durante todo esse tempo, eu podia sentir e ouvir. Ouvi a preocupação deles, seus choros e arrependimentos por não terem sido tão presentes em minha vida, além do cansaço crescente por esperar que eu acordasse.
“Por que você não morre logo?” Foi uma das últimas frases que escutei de minha mãe. Eu queria tanto responder, dizer que não suportava vê-la chorando, que sentia muito por causar tanto sofrimento. Queria que soubessem que entendia as dificuldades financeiras para manter meu tratamento e, acima de tudo, que os amava profundamente.
Mas permanecia ali, imóvel, incapaz de ajudar, apenas observando. Sentia-me inútil, um fardo. Desejava ser significativa para eles, ansiava que tivessem orgulho de mim. Contudo, isso parecia inalcançável.
— Espero que você seja feliz em sua próxima vida — disse meu pai, a voz trêmula, com certeza estava chorando.
Então, de repente, parei de ouvi-los e fui envolvida por uma luz. Meu mundo, antes mergulhado em escuridão, foi preenchido por essa claridade. Depois de um tempo, percebi que estava sentada no chão de um grande salão, cercada por várias pessoas.
Identifiquei três senhores de cabelos brancos com mantos azuis e, ao lado deles, um jovem com trajes semelhantes, mas aparência mais jovial.
O que mais chamou minha atenção foi um rapaz de cabelos loiros e olhos azuis hipnotizantes, tão bonito quanto os príncipes dos contos de fadas que as babás liam para mim. Seu sorriso era fascinante.
— Bem-vinda, minha santa — disse ele, estendendo a mão para me ajudar a levantar.
No início, a língua que ele falava parecia incompreensível, mas, de alguma forma, comecei a entender. Peguei sua mão e, ao me levantar, observei ao redor. Sentir meu corpo novamente era tão bom que tive vontade de dançar, correr... Queria gritar ao mundo que estava viva.
Ao analisar o ambiente, percebi que não estava mais no hospital. Não estava sequer no meu mundo. Tudo ali era diferente: paredes de pedra, armaduras decorativas, bandeiras que me lembravam as aulas de história.
Olhando para o teto abobadado, senti-me em um castelo. E, por mais estranho que fosse, qualquer coisa era melhor do que aquela cama de hospital.
— Senhorita? — chamou o rapaz, trazendo-me de volta à realidade. Ele sorriu ao ver que eu o olhava. — Permita-me apresentar: sou Louis, príncipe do reino de Calênio.
— Príncipe? Você é um príncipe de verdade? — perguntei, segurando suas mãos, a curiosidade me dominando.
— Sim. A senhorita está bem? Qual é o seu nome? — perguntou ele, um pouco sem jeito.
— Estou bem, sim — respondi, analisando meu corpo e notando o vestido branco que usava. Depois, olhei para os homens ao redor, que pareciam ansiosos. — Meu nome é Aurora, mas... o que está acontecendo? Onde estou?
— Não se preocupe, Aurora. Eu vou explicar tudo — disse Louis, tocando minha mão com gentileza.
Após me apresentar, eles explicaram a situação. Eu era uma santa, enviada de outro mundo para salvar aquele reino. Descobrir que era importante me trouxe uma felicidade que nunca tinha experimentado antes.
Louis me apresentou ao rei e à rainha, seus pais. O rei explicou que não estava presente durante minha invocação devido a questões políticas e confiou ao príncipe a tarefa de me receber. Disse também que acreditava nos meus poderes para salvar a todos, e os magos se ofereceram para me ensinar magia.
Tudo parecia uma aventura fascinante. Louis, sempre gentil, me levava para passear e conversava comigo. Senti uma conexão forte com ele, como se nossos destinos estivessem entrelaçados.
Enquanto isso, aprendia magia com os magos que realizaram o feitiço de invocação. Parece que o mais jovem entre eles cometeu um erro durante o feitiço e foi afastado das aulas, mas isso não me preocupou.
Sentir-me importante me deixava eufórica. Eu queria ajudar a todos. No entanto, tudo mudou quando surgiu outra santa. Só Louis parecia continuar ao meu lado, enquanto os outros voltaram suas atenções para Liora, a recém-chegada. Sentia-me impotente, como se estivesse sendo deixada de lado novamente.
A hostilidade de Liora era evidente, como se fôssemos opostas em tudo. Era difícil ignorá-la, mas eu tinha Louis e sabia que poderia contar com ele.
Treinei com determinação para provar meu valor e conquistar o respeito de todos. Porém, quando enfrentamos nosso primeiro ataque, entrei em pânico. A escuridão, os monstros... Era aterrorizante. Só queria que tudo acabasse.
Foi a voz de Liora que me trouxe de volta a realidade. Pensei que não podia deixá-la enfrentar tudo sozinha, as pessoas não né respeitariam. Usei o que aprendi, e uma aura brilhante me cercou. Esperava que, assim como quando Liora usou sua magia, algo grandioso acontecesse.
Os magos haviam mencionado brevemente os efeitos, mas eu não esperava que fosse tão assustador. Ver os corpos caindo por minha causa encheu-me de culpa. Não queria mais usar aquele poder.
— Não foi minha culpa. Eu não queria... — repetia, talvez tentando me convencer.
Olhei ao redor. Apesar da luz fraca, sentia os olhares de julgamento. Num impulso, corri sem direção. As lágrimas escorriam, intensificando ainda mais minha angústia. Estava acostumada com a escuridão, então segui em frente, mesmo tropeçando e esbarrando nos galhos.
Depois de algum tempo, sentei-me junto ao que parecia uma árvore antiga. Mesmo ouvindo lobos uivando e outros sons assustadores, não sentia medo. Permaneci ali, abraçando minhas pernas e rezando para que tudo acabasse, para que todos fossem embora.
Naquele momento, em meio à escuridão, senti-me em casa. O silêncio ao redor trazia uma sensação de pertencimento, como se, por um breve instante, eu estivesse segura. Desejei ouvir a voz do meu pai, como quando ele contava as histórias que lia para mim.
Mas as vozes das pessoas voltaram, ficando cada vez mais próximas. Pensei em fugir novamente, mas sabia que não conseguiria. Foi quando uma pequena luz surgiu, iluminando a floresta ao meu redor. Louis estava ali, diante de mim, com o olhar sereno e a mão estendida, como se soubesse exatamente o que eu precisava.
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Atualizado até capítulo 41
Comments
Jhay_Focas
Não vou com a cara desse príncipe jamais!
2025-03-27
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Jhay_Focas
Caraca, isso tá tão triste
2025-03-27
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Jhay_Focas
Agora fiquei com dó dela
2025-03-27
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