Após o banho, vesti minha roupa de dormir – uma camisola leve e confortável – e fiquei aguardando o jantar, que não demorou a chegar. A comida exalava um aroma delicioso, e Liz, sempre ansiosa, logo atacou minha sobremesa, uma fatia de torta de maçã.
A presença dela se tornava cada vez mais reconfortante, e eu sentia nossa conexão se fortalecer gradualmente. Após a refeição, fui ao banheiro, escovei os dentes e fiz minha última higiene pessoal antes de me deitar.
Liz já conseguia permanecer por longos períodos no plano material e parecia se divertir com isso. Deitou-se no meu travesseiro, de barriga para cima, com os bracinhos esticados e as perninhas balançando antes de se aquietarem. Logo, começou a roncar baixinho.
Eu me pegava sorrindo ao vê-la assim; o movimento de sua barriguinha subindo e descendo era cômico, mas o ronco, apesar de engraçado, era um pouco barulhento. Dei-lhe um leve cutucão, e ela se virou, ajustando a postura e parando de roncar, o que finalmente me permitiu dormir.
Durante a noite, tive um pesadelo com sombras tentando me devorar, algo aterrorizante. Felizmente, Liz estava comigo e me ajudou a me acalmar, mas a sensação de pavor perdurou por um tempo, dificultando meu sono. Liz me disse que, por mais difícil que fosse encarar o passado, se eu conseguisse, encontraria todas as respostas sobre quem eu era e por que estava naquele mundo.
Na manhã seguinte, trouxeram meu café da manhã bem cedo. Apesar do pesadelo, acordei sem sentir muito cansaço e sabia que precisava me esforçar. Embora tudo ali parecesse tranquilo, eu sabia que, do lado de fora, pessoas poderiam estar em perigo naquele exato momento. Quanto mais demorássemos, mais elas sofreriam.
Valenor apareceu logo após o café, e seguimos para uma das salas do castelo, semelhante à que os magos nos levaram no dia anterior. A luz do sol mal entrava por janelas estreitas e altas, criando um ambiente sombrio e silencioso.
— O castelo é sempre tão silencioso e vazio? Não deveriam haver guardas por toda parte? — perguntei ao entrarmos na sala, sentindo o eco de nossas vozes pelos corredores.
— Não acontece muita coisa nessa ala do castelo. Às vezes, fazem algumas rondas, mas acho que você só não teve sorte de encontrá-los — respondeu Valenor com um sorriso discreto, ajustando os óculos no nariz.
— E na biblioteca? Não tem livros importantes lá? Não deveria haver alguém protegendo? — questionei, intrigada pela falta de segurança.
— Geralmente sou eu quem cuida da biblioteca, mas como agora vou te ensinar, colocaram outras pessoas lá — explicou ele, com um brilho nos olhos, visivelmente animado com a oportunidade de compartilhar seu conhecimento. — Vamos começar? — perguntou, e eu assenti, ansiosa.
Ele começou a me ensinar mais sobre a magia daquele mundo. Suas explicações eram detalhadas, e eu tentava absorver cada palavra. Segundo ele, cada pessoa possuía uma quantidade de mana, algo que ele já havia me explicado antes e que eu começava a compreender e manipular.
No entanto, a magia em si estava profundamente ligada à natureza, sendo ela elemental ou não. Cada indivíduo tinha afinidade com um ou mais elementos, e essa conexão determinava sua capacidade de manipulá-los.
A magia podia ser realizada de várias formas: algumas envolviam palavras de conjuração, enquanto outras utilizavam círculos mágicos gravados no chão ou no ar. Com prática e habilidade, era possível empregar a magia apenas visualizando os feitiços, algo que parecia um sonho. Compartilhei com ele as ocasiões em que purifiquei seres sem usar nenhuma palavra, e ele comentou rindo que nunca se cansava de aprender sobre mim.
Enquanto explicava, Valenor demonstrava sua maestria com os elementos, fazendo o fogo dançar na palma da mão, moldando a água em formas delicadas no ar e controlando brisas suaves pela sala – esses eram seus elementos de afinidade. Fiquei fascinada ao ver sua demonstração e ansiosa para aprender a fazer igual.
Com uma magia semelhante à que usou para medir minha mana, Valenor descobriu que eu tinha afinidade com todos os elementos, mas minha maior força era a luz. Durante toda a explicação, Liz flutuava pela sala, entediada, sentando-se de vez em quando no meu ombro, resmungando, mas nunca se afastando completamente.
Minha magia de purificação era única, algo que nem Valenor conhecia totalmente, e sabíamos que teríamos que aprender juntos como usá-la. Passamos a manhã treinando, e, embora houvesse momentos em que eu achasse que não conseguiria, Liz sempre estava lá com uma palavra de apoio e seu uniforme de líder de torcida, arrancando risos nos momentos de maior tensão.
Quando mencionei a Valenor que, uma vez que minha conexão com Liz fosse forte o suficiente, ela poderia aparecer para outras pessoas, ele ficou visivelmente animado. Ele me disse que fadas celestes são seres tão raros que quase não existem registros sobre ela e a maior parte do conhecimento sobre elas são apenas suposições.
Valenor era incrivelmente paciente, o que facilitava meu aprendizado. Ele me olhava com orgulho enquanto eu começava a dominar algumas técnicas básicas.
Na hora do almoço, Adrian veio me buscar para almoçarmos juntos. Ele pediu que a refeição fosse servida em uma área aberta, próxima ao jardim. Quando chegamos, a mesa já estava posta com flores frescas adornando o centro.
Sempre atencioso, Adrian puxou a cadeira para eu me sentar e logo se acomodou ao meu lado. Fomos servidos rapidamente, e Liz, com um sorriso travesso, desapareceu, dizendo que deixaria os "pombinhos" a sós.
— Sei que você é um duque e tal, mas pode me explicar por que o rei parece ser tão complacente com você? — perguntei, curiosa, enquanto começávamos a saborear a refeição.
— Entendo sua curiosidade. Acho que é porque meu pai morreu salvando o príncipe de uma emboscada. Como minha mãe também faleceu quando eu era criança, o rei se sente responsável por mim — explicou Adrian, com serenidade.
— Ah, sinto muito... — murmurei, sentindo um aperto no peito ao saber que ele perdeu os pais tão jovem.
— Não se preocupe com isso — disse ele, sorrindo gentilmente. — Senhorita Lili...
— Me chame apenas de Lili, Adrian. Não precisamos de tanta formalidade, certo? — pedi, sorrindo de volta.
— Claro! Lili... Queria falar sobre o que aconteceu ontem — disse ele, segurando minha mão com delicadeza.
Naquele momento, a lembrança do que eu havia feito me invadiu, e senti meu rosto esquentar. Eu nunca tinha sido tão ousada antes, e agora me sentia nervosa.
— Sobre aquilo... Desculpe. Não deveria ter sido tão impulsiva — disse, com um sorriso tímido.
— Não precisa se desculpar. Na verdade, gostei da sua ousadia — respondeu ele, e senti meu rosto corar ainda mais.
— Queria falar sobre o que senti e o que vi quando nos beijamos — continuou Adrian, me encarando com seriedade.
— Você também viu? — perguntei, surpresa, sem pensar muito.
— Então, não estou louco? Você também viu? Durante a noite tive um pesadelo... Eu perdia você, via você sendo engolida pelas sombras. Foi terrível e me deixou muito preocupado — respondeu ele, com um olhar carregado de preocupação.
Ao notar seu nervosismo, segurei sua mão e, com calma, expliquei o que Liz havia me contado: que eu pertencia a este mundo, mas retornara sem memórias, e que, com o tempo, poderia recuperá-las.
Também falei sobre a conexão entre mim e Liz, por ela ser uma fada celeste, e mencionei o que ela disse sobre a possibilidade de sermos almas gêmeas se reencontrando.
— Se nós dois conseguimos lembrar algo, talvez possamos descobrir isso juntos. Não quero te perder como no pesadelo — disse Adrian, com a voz cheia de angústia.
— Isso não vai acontecer, eu prometo — respondi, tentando tranquilizá-lo, e ele me beijou suavemente.
Continuamos almoçando e conversando sobre a visão e o pesadelo. Contei a Adrian o que Liz me disse, que nada acontecia por acaso, e concordamos que, se houvesse algo maior por trás de tudo, precisaríamos descobrir quem realmente éramos. Também mencionei que Valenor havia falado sobre um poema a respeito de duas santas e o perdão.
Decidimos investigar mais a fundo e contar ao rei apenas quando tivéssemos algo concreto. Nos três dias seguintes, meus treinos de magia se intensificaram e eu estava começando a melhorar. Apesar do cansaço, sempre que tínhamos tempo livre, Adrian e eu íamos à biblioteca em busca de pistas, e Valenor se juntou a nós nessa empreitada.
Fiquei aliviada ao perceber que o ciúme de Adrian não durou muito e se tratava apenas de uma leve insegurança. Descobri que eles haviam estudado juntos na academia, e que Adrian, sendo três anos mais velho, protegia Valenor dos valentões. Embora tivesse afinidade com o fogo, ele preferia utilizar mais sua espada por não possuir muita mana. Mesmo assim, conseguia manipular a magia com grande habilidade.
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Atualizado até capítulo 41
Comments
Jhay_Focas
Isso é realmente algo que o Adrian faria: proteger os outros de valentões
2025-03-09
1
Jhay_Focas
Não aguento Liz se uniforme de torcida kkkm
2025-03-09
1
Jhay_Focas
Esse sistema mágico é tão incrível
2025-03-09
1