Sai daquele lugar, deixando os magos falando sozinhos, sem remorso. Sei que o que está acontecendo neste mundo é complicado, mas nem por isso me sujeitaria a ouvir desaforos. Se eles querem ajuda, terão que me tratar com o devido respeito, pensei, apertando os punhos para afastar a raiva.
Segui por um caminho que acreditava levar ao meu quarto, mas logo percebi estar completamente perdida nesse labirinto de corredores de pedra fria e arcos altos. Cada porta que passava era ornamentada com símbolos antigos e pesados, mas nenhuma parecia familiar. Enquanto eu andava, Liz rodopiava ao meu redor, flutuando alegremente de um lado para o outro, rindo baixinho da minha confusão.
— Você é minha guia, deveria saber me guiar — brinquei, cruzando os braços e parando por um momento.
Ela ergueu o queixo, parecendo chateada, e desapareceu num sopro de luz cintilante. Suspirei, retomando a caminhada. Depois de alguns minutos, deparei-me com uma enorme porta de madeira trabalhada. Empurrei-a devagar, revelando uma biblioteca vasta e grandiosa.
As prateleiras subiam até o teto, repletas de livros empoeirados e antigos. O ar carregava o cheiro reconfortante de papel envelhecido, e, por um instante, me esqueci do que buscava. Tudo ali era magnífico e encantador: os livros nas enormes estantes, as mesas de leitura polidas... um verdadeiro paraíso para quem ama ler.
Peguei um volume aleatório de uma prateleira baixa, sentindo o peso nas mãos, e comecei a folheá-lo junto com Liz, que surgiu ao meu lado, espiando por cima do meu ombro com uma expressão ainda irritada. Estávamos tão imersas nas páginas que nos assustamos quando algo pesado despencou no chão, o som reverberando pelas paredes e fazendo Liz desaparecer novamente.
Corri para ver o que havia acontecido e encontrei um rapaz caído, rodeado por livros que haviam desmoronado em cima dele. Sem hesitar, me abaixei para ajudá-lo a se levantar. Ele parecia atordoado, mas logo começou a sacudir a poeira de suas roupas.
Usava uma camisa branca sob um colete marrom, e sua capa azul com vermelho tinha um ar nobre, embora os cabelos castanhos estivessem completamente bagunçados. Ele ajeitou os óculos tortos no rosto e, ao me ver, seus olhos azuis brilharam com surpresa e curiosidade.
— Você está bem? — perguntei, preocupada, enquanto o ajudava a se equilibrar.
— Estou, sim, não se preocupe — respondeu, com um sorriso torto. Sua voz era suave, mas tinha um toque de entusiasmo que me fez sorrir também. — Quem é você? Nunca a vi pelo castelo... Ah, meu nome é Valenor, sou um mago — disse, estendendo a mão de forma animada.
— Sou nova aqui. Meu nome é Liora — respondi, apertando sua mão.
— Que nome bonito, senhorita Liora. Mas o que faz aqui? Precisa de algo deste humilde servo? — perguntou ele, balançando minha mão animadamente, com um sorriso encantador que iluminava seu rosto.
— Não sou da realeza, não seja bobo — retruquei, rindo.
Seu jeito de falar era engraçado, e sua energia era tão contagiante que era impossível não rir junto. Sentindo uma estranha confiança nele, resolvi abrir meu coração e contei sobre tudo o que havia acontecido desde minha chegada a esse mundo. Falei sobre minha dificuldade em compreender os outros magos e a impaciência que parecia ser uma constante entre eles, destacando como isso tornava a adaptação ainda mais desafiadora.
— Então você é a outra santa? — disse ele, arregalando os olhos. — Realmente deu certo?
— Como assim, deu certo? Minha vinda não foi um erro? — indaguei, tentando entender o que ele queria dizer.
— Sim e não. Deixa eu explicar — ele coçou a cabeça, um pouco nervoso, enquanto tentava encontrar as palavras.
Valenor contou que havia encontrado um poema antigo perdido em um livro de feitiços. O poema falava sobre a vinda de duas santas e como tudo só seria resolvido se houvesse perdão entre todos. Ele, curioso e impulsivo, tentou interferir no feitiço dos outros magos, mas sua intervenção os irritou. Eles tentaram desfazer a magia no último momento, o que causou a confusão.
— Então foi por isso que fui mandada para longe? Porque cortaram a conexão? E quanto ao meu corpo, também foi pelo mesmo motivo? — perguntei, tentando assimilar tudo.
— Exatamente. Achei que tinha falhado completamente, mas... veja só, aqui está você — disse ele, segurando minhas mãos com entusiasmo e me fazendo girar, como se quisesse confirmar que eu realmente estava ali. — Quanto ao corpo, não tenho certeza. O poema não era muito claro, e sinto que algumas informações estavam faltando.
Senti que essas informações poderiam ser importantes, mas resolvi deixar de lado por enquanto e me concentrar em dominar minha magia o quanto antes, para que eu pudesse ajudar o mais rápido possível.
— Como você é mago, podia me ensinar. Não querendo ofender, mas seus colegas não foram muito... amigáveis — confessei, um pouco sem jeito.
— Claro que ensino! Não se preocupe com eles, são uns ranzinzas — disse ele, rindo. — Vamos começar vendo o quanto de mana você tem.
Curiosa, perguntei como ele faria isso. Valenor me explicou que, para medir minha mana, bastava segurar minhas mãos e recitar um pequeno encantamento. Ele murmurou algumas palavras em uma língua antiga, e logo senti um calor suave irradiar pelo meu corpo, uma sensação parecida com quando purifiquei as feras. Minhas mãos começaram a brilhar levemente, e Valenor me olhou espantado.
— E então? Quanto eu tenho? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Você é incrível! Nunca vi ninguém com tanta mana assim — disse ele, soltando minhas mãos e sorrindo como uma criança que acabara de ganhar um presente. — Com o treinamento certo, você pode se tornar uma maga de primeira classe.
— Isso é ótimo, mas temo que não tenhamos muito tempo... Salvei algumas pessoas das feras a caminho do castelo — comentei, lembrando-me da urgência da situação.
Mesmo saindo irritada daquela sala, eu sabia que, com esse poder, realmente poderia ajudar. Não podia permitir que pessoas inocentes sofressem. E, por alguma razão, um pensamento me ocorreu: Adrian. Havia algo nele que parecia estar relacionado a tudo isso, e me lembrava da promessa que fiz de não partir... sem entender por que a fiz com tanto fervor.
Valenor, percebendo meu devaneio, acenou uma mão na minha frente.
— Senhorita Liora, está me ouvindo? — perguntou ele, sorrindo.
— Ah, desculpe, me distraí pensando nas feras... — menti, desviando o olhar por um momento.
— Eu também me preocupo com elas. Tenho estudado uma maneira de ajudar a santa, e agora que você me disse que consegue purificar, talvez possamos criar um feitiço de purificação poderoso — ele explicou enquanto caminhávamos em direção ao próximo passo.
Valenor disse que, para aprender a controlar minha mana, eu deveria visualizá-la fluindo como se fosse o sangue correndo pelas veias. Aos poucos, eu comecei a sentir a energia se mover pelo meu corpo, seguindo as instruções dele. Liz, reaparecendo de repente, surgiu vestida como uma líder de torcida, com pompons brilhantes e uma expressão animada.
— Pensei que estivesse chateada — brinquei, olhando para sua roupa extravagante.
— Não consigo ficar brava com você por muito tempo — respondeu Liz, fazendo uma dancinha engraçada enquanto acenava os pompons.
— Senhorita Liora, com quem está falando? — questionou Valenor, intrigado. Lembrei que só eu conseguia ver Liz e expliquei calmamente para ele sobre a fada e sua natureza travessa.
— Você tem uma fada celeste? Tem mais algo para me surpreender? — perguntou, colocando a mão na boca em um gesto de espanto.
— Uma não, a melhor — Liz respondeu, batendo o pé no ar em protesto. Ri, percebendo que, com frequência, ela esquecia que os outros não a viam. Sua indignação era tão genuína que era adorável.
— Eu também não sei — brinquei, rindo, enquanto Valenor estreitava os olhos para mim, claramente não satisfeito com a resposta.
Logo voltamos ao treinamento. Não sei se foi a gentileza de Valenor ou a clareza em suas explicações, mas eu estava começando a compreender melhor. Aos poucos, sentia essa tal mana fluindo pelo meu corpo. Liz, por sua vez, fazia dancinhas e cantava palavras de incentivo ao meu lado, transformando o ambiente em um espaço mais leve e divertido.
Satisfeito com nosso progresso, Valenor disse que eu já estava pronta para começar a aprender sobre os feitiços da santa, pois eles eram a prioridade.
Ele me acompanhou até meu quarto para que eu não me perdesse novamente. No meio do caminho, enquanto conversávamos sobre magia, avistei Adrian conversando com o rei Edric, ambos caminhando em nossa direção.
Adrian me olhou com uma expressão séria, e não consegui entender o que havia feito de errado para ele parecer zangado. Decidi ignorar, pensando que o motivo não era eu. O rei Edric, por outro lado, sorria amplamente e nos chamou para conversar.
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Atualizado até capítulo 41
Comments
Jhay_Focas
Deve ser um verdadeiro paraíso mesmo, consigo até imaginar
2025-03-08
1
Jhay_Focas
Hmmm, será que ele ficou com ciúmes? 👀
2025-03-08
1
Jhay_Focas
Isso me arrancou um belo sorriso hahaha
2025-03-08
1