— Não temos a noite toda, fala logo! — reclamei devido à sua hesitação.
— A verdade é que sim, ela nasceu de sete meses, mas o pai dela... Ele era um amigo que faleceu em um acidente logo depois de eu descobrir que estava grávida. Fiquei com medo de criar ela sozinha, por isso menti dizendo que ela era sua filha — explicou Jennifer, com a voz trêmula.
Eu não conseguia acreditar em suas palavras. Ela já havia mentido muito para mim, mas vê-la chorando parecia sincero, e eu não sabia o que pensar.
— Continue. Me dê o nome desse homem, eu vou investigar e descobrir se está falando a verdade — exigi, tentando não me deixar enganar pelo seu choro incessante.
— Papai? Mamãe? — ouvi Saphira nos procurando na sala, interrompendo nossa conversa.
— Seque suas lágrimas e vá para casa, mas não pense que essa conversa acaba aqui — disse rispidamente e fui até a sala, onde encontrei Saphira e a peguei no colo para me despedir.
Não demorou muito para que Jennifer voltasse como se nada tivesse acontecido. Para mim, ela era apenas fria e calculista. Não que eu duvidasse que ela estivesse comigo e com outro homem ao mesmo tempo — até porque não duvido mais de nada a respeito dela —, mas sua desculpa era muito esfarrapada. Levei as duas até o carro e me despedi com um beijo na bochecha de Saphira.
No dia seguinte, forcei Jennifer a me dar todas as informações sobre esse homem, e depois pedi a Robert, um amigo e investigador particular, que verificasse se o que ela dizia era verdade. O nome dele era Leonel Castro. Pelas datas, tudo se encaixava: ele realmente havia falecido alguns dias antes de Jennifer me contar que estava grávida, e eles eram, de fato, muito próximos.
Sentado em um bar, conversando com Robert, olhava para a foto dele e, instintivamente, comecei a procurar semelhanças com Saphira. Por mais que eu não conseguisse encontrar, não achei que pudesse ser uma mentira. Não sei o que se passou na minha cabeça, mas eu torcia para que fosse tudo uma invenção, que ela tivesse dito que Saphira não era minha filha apenas para me punir por ter terminado com ela.
— Posso tentar conseguir um pouco de DNA dele de alguma forma, e descobrimos se ele é o pai — sugeriu Robert, preocupado.
— Não precisa. Se eu fosse o pai, ela teria dito a verdade, não inventaria essa história. Afinal, está se esforçando muito para tentar reatar nosso relacionamento — respondi, tentando soar firme. — Além do mais, independente de ela ter ou não meu sangue, meu amor não vai mudar. Procurar saber seria só uma forma de me decepcionar ao ver o resultado.
— Se você quer assim, tudo bem! Mas estarei aqui para te ajudar, não se esqueça disso — disse Robert, sorrindo.
— Claro, você é o melhor! Há quanto tempo trabalhamos juntos? — questionei, servindo-lhe um pouco de cerveja.
— Não fala de tempo, assim eu me sinto velho — brincou ele, tomando a bebida.
Robert, um homem de 38 anos, com cabelos castanhos ondulados e olhos verdes, estava sempre com um cigarro na mão e vestindo sua jaqueta preta de couro. Ele nunca se apegava a relacionamentos. Diferente de mim, que ainda tentava acreditar no amor, Robert preferia relações passageiras e jamais dormia com a mesma mulher mais de uma vez.
Ele até tentou me convencer a seguir seu estilo de vida, mas, quando não cedi às suas insistências, respeitou minhas escolhas. Continuamos bebendo e, após algum tempo, nos despedimos. Eu fui para casa, enquanto ele seguia para alguma boate, na esperança de encontrar alguém para se divertir.
Seguir com a vida sem ver Clarisse foi mais difícil do que eu imaginava. Terminar um casamento de dez anos com Amanda parecia bem menos doloroso do que o que tive com Clarisse, e nosso relacionamento nem chegou a durar dois meses. No entanto, não queria correr o risco de ir atrás dela e acontecer o mesmo que ocorreu quando tentei reconquistar Amanda e descobri que ela estava apaixonada por outro homem.
Escondendo-me atrás do meu orgulho e até um pouco de arrogância, fechei meu coração e o protegi com uma armadura de gelo. Cheguei a mudar o percurso da minha corrida matinal, por medo de encontrá-la. E talvez essa tenha sido uma das melhores decisões que já tomei.
Durante uma das minhas corridas, encontrei duas mulheres, Gabriela e Gisele, que levavam cinco belas crianças em carrinhos de bebê. Elas eram tão adoráveis que não consegui resistir e pedi para vê-las de perto. Seus olhinhos azuis brilhavam e aqueceram meu coração de uma maneira inexplicável, quase irracional.
Senti uma vontade imensa de cuidar delas e me perguntei se estava enlouquecendo. As duas, mesmo um pouco receosas — afinal, eu era um estranho —, não recusaram o meu pedido. Se apresentaram e disseram que estavam dando banho de sol nos bebês.
— Quantos meses eles têm? — questionei, agachado perto de uma das crianças, uma menina.
— Eles têm três meses, senhor — disse Gabriela, sorrindo, vendo a pequena agarrando meu dedo.
— Essa é a Elisa — apresentou Gisele. — E esses são Otávio, Camila, Marina e Felipe — disse, apontando para os outros bebês enquanto falava seus nomes.
— Então seu nome é Elisa? Sabia que você é muito linda? — perguntei, sentindo meu coração quase explodir com o sorriso dela. — Desculpa, devo estar parecendo um louco, mas juro que não sou — completei, levantando-me e limpando a sujeira do joelho.
— Imagina, elas são crianças realmente adoráveis. É uma pena que o pai não queira saber delas. Se ele fosse como o senhor, elas teriam muita sorte — disse Gisele, e eu já comecei a sentir raiva desse homem que abandonou essas lindas crianças.
— Gisele! — repreendeu Gabriela. — Não deveria sair falando da vida dos outros assim. Se nossa patroa descobrir, seremos demitidas na mesma hora.
— Não se preocupem, eu não vou contar nada para ninguém — prometi, sorrindo. — Mas, em troca, será que posso vê-las quando vocês vierem dar o banho de sol? — pedi, sem acreditar no que estava falando.
— Não sei, não... — disse Gabriela, hesitante. — Não que eu ache que o senhor seja uma má pessoa, mas não parece certo deixar um estranho se aproximar assim das crianças.
— Você tem razão, foi ousadia minha. Desculpe-me — falei, um pouco envergonhado por agir de forma tão diferente do habitual. — Aliás, meu nome é Júlio, sou advogado! Agora já não sou mais um estranho — brinquei, tentando aliviar a tensão.
Elas sorriram e conversaram entre si quase em sussurros. Por fim, disseram que eu poderia ver as crianças, contanto que não as tirasse do carrinho, pois assim se sentiriam mais seguras. Sentindo-me completamente feliz, agradeci e continuei interagindo com os bebês, que tinham o sorriso mais encantador do mundo.
Ao vê-los sorrindo, lembrei-me do sorriso de Saphira, e acho que foi por isso que me senti tão conectado a eles. Despedi-me delas e continuei minha corrida, sentindo-me relaxado. Crianças realmente têm uma energia única que nos faz sentir bem, mesmo que, por dentro, nossa vida esteja um caos.
Robert
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 41
Comments
Erlete Rodrigues
Clarice errou não contando para o Júlio das crianças ‼️
2025-02-19
0
Edmeia Calmerio
o autora, ajuda ele e Clarisse si reconectar por favor....afff
2025-02-04
0
🦊Guminho🦊
ela não merece perdão , independentemente de qualquer coisa o direito dela era contar
2024-11-19
1