Narrado por Lilith
Quando chegamos à balada, ele estacionou e ficou em silêncio por alguns instantes, apenas me observando. Eu sabia que esse era um adeus silencioso, uma despedida sem palavras. Abri a porta do carro, mas antes que pudesse sair, senti sua mão segurar meu braço.
— Eu sei que você acha que se tornar a herdeira do seu avô é sua única saída, mas não precisa ser assim. Mesmo que você continue com essa loucura e que as facções sejam rivais, saiba que pode contar comigo quando precisar. Não importa a hora, eu estarei à sua disposição.
Ele pegou meu telefone e marcou o número dele, deixando um toque no próprio celular para registrar. As lágrimas já estavam rolando pelo meu rosto. Dei um beijo em sua bochecha, sentindo o calor do momento e a dor da despedida. Saí do carro com o coração mais partido do que quando entrei, sabendo que estava deixando para trás algo que poderia ter sido, mas que a realidade havia tornado impossível.
Caminhei em direção ao meu carro no estacionamento, mas cada passo parecia mais pesado, carregando o peso das escolhas que fiz e das que ainda teria que enfrentar.
Caminhei em direção ao meu carro, tentando manter a cabeça erguida, mas o peso das emoções e das escolhas recentes me esmagava. A cada passo, a dor parecia se intensificar, como se o que eu deixava para trás estivesse puxando minha alma de volta. Quando finalmente cheguei ao meu carro, parei por um momento, apoiando-me na porta.
Entrei no carro e fechei a porta, deixando o silêncio me envolver como um cobertor pesado. Segurei o volante, mas por mais que eu tentasse, não consegui reunir forças para ligar o motor. Era como se o peso de tudo que aconteceu estivesse me prendendo ali, me impedindo de seguir em frente.
As lágrimas começaram a descer pelo meu rosto, silenciosas, sem pedir permissão. Tentei segurar, mas elas vinham como uma maré, carregando toda a confusão, o medo e a dor que eu vinha guardando. Olhei pelo retrovisor e vi o carro dele sumindo aos poucos, se afastando até desaparecer por completo. Uma parte de mim queria correr atrás, mas eu sabia que não podia. As escolhas que fiz até agora me trouxeram até aqui, e agora eu precisava lidar com as consequências.
Depois de alguns minutos, consegui ligar o carro. Respirei fundo, tentando reunir os pedaços de mim mesma que estavam espalhados por todo lugar. Dirigi em silêncio, com a mente a mil, tentando pensar no que fazer a seguir. Quando cheguei em casa, estacionei e fiquei ali por um momento, encarando a porta da frente, sabendo que a batalha estava longe de terminar. Mas essa luta era minha, e, por mais difícil que fosse, eu precisava encontrar uma maneira de seguir em frente.
O sol já estava alto quando finalmente acordei no dia seguinte. O peso da noite anterior ainda estava sobre meus ombros, mas havia uma estranha sensação de determinação misturada com cansaço. A noite de coroação foi um marco, mas agora, com a luz do dia, as responsabilidades eram mais claras e tangíveis. O Jacarezinho estava sob meu comando, e o que eu faria a partir de agora definiria o futuro de todos ali.
Desci as escadas da casa do meu avô—minha casa agora—e me deparei com a movimentação habitual do morro. Escorpião já estava no quintal, conversando com alguns dos homens que faziam a segurança. Ao me ver, ele encerrou a conversa e veio em minha direção.
— Bom dia — ele disse, com um leve aceno de cabeça. — Como está se sentindo?
— Um pouco cansada, mas estou pronta para começar — respondi, tentando ignorar o leve desconforto que ainda me apertava o peito.
Escorpião me deu um sorriso breve, como se reconhecesse o peso das palavras. Ele me conduziu até a sala onde o Barão costumava se reunir com seus homens para discutir os negócios. Uma grande mesa ocupava o centro do espaço, cercada por cadeiras que já estavam preenchidas por rostos conhecidos e outros que eu ainda teria que aprender a confiar.
— Hoje, temos algumas questões para resolver — Escorpião começou, tomando a posição ao meu lado. — A primeira é sobre o controle das bocas no morro. Houve alguns problemas com a distribuição, e precisamos garantir que tudo esteja funcionando de acordo.
Eu assenti, tentando absorver tudo o que ele dizia. Eu sabia que essa era a rotina da liderança: reuniões, decisões, e o constante esforço para manter tudo sob controle. Mas cada decisão que eu tomasse aqui teria um impacto direto na vida de centenas de pessoas, e essa responsabilidade ainda era algo que eu estava me acostumando a carregar.
As discussões começaram, e eu me vi mergulhada nas complexidades do tráfico, das alianças, das traições que precisavam ser evitadas a todo custo. Escorpião e os outros homens falavam com autoridade e experiência, mas eu sabia que, no final das contas, a palavra final seria minha.
A tarde passou rapidamente, entre conversas e planos sendo traçados. Quando finalmente saímos da sala, o sol já começava a se inclinar no céu, lançando uma luz dourada sobre o morro. Eu estava exausta, mas satisfeita. Cada decisão tomada, cada ordem dada, era um passo adiante para consolidar meu poder ali.
No entanto, enquanto observava o movimento das pessoas no morro, crianças brincando, mulheres indo e vindo com sacolas de compras, eu sabia que a verdadeira prova ainda estava por vir. Ser a dona do Jacarezinho não era apenas sobre o controle das bocas e das armas; era sobre manter a paz em meio ao caos, proteger aqueles que confiavam em mim, e lidar com os inevitáveis desafios que se aproximavam.
— Vai dar tudo certo — ouvi Escorpião dizer ao meu lado, como se tivesse lido meus pensamentos.
— Eu sei que vai — respondi, tentando convencer a mim mesma tanto quanto a ele.
Enquanto o sol continuava a descer no horizonte, deixando o morro em uma penumbra suave, eu me virei para ele e dei um último olhar para o lugar que agora era minha responsabilidade. O Jacarezinho estava em minhas mãos, e, apesar de tudo, eu sabia que estava pronta para fazer o que fosse necessário para mantê-lo seguro.
O baile de coroação foi apenas o começo. Agora, começava a verdadeira batalha.
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Atualizado até capítulo 82
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