Narrado por Lilith
O corpo do meu avô foi enterrado, e com ele, uma parte do meu coração. O vazio que ele deixou parecia impossível de preencher. Gabriela, minha amiga, tentou me oferecer consolo, mas eu estava tão mergulhada em minha própria dor e confusão que não consegui compartilhar o que realmente estava acontecendo. Talvez fosse melhor assim, pelo menos por enquanto.
Depois do funeral, em vez de ir para casa, fui direto para o escritório do Cléber, o advogado do meu avô. Precisava de respostas, e sabia que ele tinha informações que poderiam me ajudar a entender o que estava acontecendo. Ao chegar, notei imediatamente alguns homens parados do lado de fora, observando o movimento. Era impossível ignorar a presença deles.
Respirei fundo, ergui a cabeça, e entrei no escritório com passos firmes, determinada a não demonstrar nenhuma fraqueza. Todos os olhares se voltaram para mim assim que cruzei a porta, mas mantive meu olhar fixo, ignorando a tensão no ar.
— Senhorita Santorini, que bom que chegou — disse Cléber, levantando-se de sua cadeira com um sorriso que parecia estranho, como se escondesse algo.
— Olha, Cléber, não estou aqui para enrolação — cortei-o, sem paciência para rodeios. — E outra, cara feia para mim é fome — completei, sem desviar o olhar dos homens que estavam no escritório, claramente traficantes. — Iguais a vocês, eu vejo todo dia nos tribunais. Se quiserem conversar, tudo bem, mas se tentarem me passar para trás, vão conhecer uma versão de mim que vocês não vão gostar.
Minha voz estava firme, e minhas palavras carregavam a força e a determinação que eu sempre mostrava no tribunal. Não estava disposta a deixar que aqueles homens pensassem que poderiam me intimidar, mesmo que, por dentro, eu ainda estivesse lidando com a dor da perda.
Cléber pareceu surpreso por um momento, mas logo voltou a se recompor. Ele sabia que eu não era uma mulher fácil de lidar, e talvez por isso tenha decidido ir direto ao ponto.
— Senhorita Santorini, estamos aqui para discutir o legado de seu avô e algumas questões delicadas envolvendo sua família — disse ele, agora mais sério. — Há detalhes que você precisa saber, e eles não são simples.
Eu cruzei os braços, indicando que estava pronta para ouvir, mas sem baixar a guarda.
— Então comece a falar, Cléber. Não tenho tempo a perder — respondi, sentindo a tensão no ar aumentar. Eu sabia que aquela conversa seria um divisor de águas na minha vida, e estava determinada a sair dali com todas as informações que precisava.
Ele assentiu e, com um gesto, indicou que eu me sentasse. A partir daquele momento, estava pronta para ouvir verdades que poderiam mudar tudo o que eu conhecia sobre minha vida e minha família.
As palavras de Cléber bateram em mim como uma avalanche, cada uma carregando um peso que eu nunca imaginei que teria que suportar. Meu avô, Antônio Santorini, o homem que me criou e me protegeu a vida inteira, era um dos líderes do Comando Vermelho, especificamente o dono do Jacarezinho. O choque disso fez meu corpo inteiro ficar tenso, como se uma nova realidade estivesse se desdobrando diante de mim.
— Vou te contar a história completa — continuou Cléber, com uma expressão grave. — Sua mãe se envolveu com Jorge Alencar, o Corvo, líder do PCC, e, para viver um romance com ele, abandonou sua família e nunca mais quis saber de seu avô. Mas tudo mudou no dia em que ela morreu no seu nascimento.
Cléber fez uma pausa, me observando, como se estivesse tentando avaliar o impacto de suas palavras antes de continuar.
— O Corvo, seu pai, te deixou embrulhada em uns cobertores na entrada do morro do seu avô. Ele disse que não pararia a vida dele para cuidar de você. — As palavras saíram da boca de Cléber como lâminas afiadas, cortando qualquer ilusão que eu pudesse ter mantido sobre meu pai.
Meu coração se apertou ao ouvir aquilo. Eu sempre soube que meu pai nunca me procurou, mas ouvir o motivo real—que ele simplesmente me descartou como se eu fosse um fardo—foi como um golpe final. Meu avô, por outro lado, fez o oposto. Ele me pegou, me protegeu, e, mesmo sendo parte daquele mundo criminoso, ele preferiu sair do morro para me dar uma vida digna, ou pelo menos o mais próximo disso que ele poderia.
— Ele ainda fazia parte do movimento, embora de forma discreta, para não atrair olhares para você — continuou Cléber, confirmando que, apesar de tudo, meu avô nunca abandonou completamente aquele mundo perigoso. — Agora, com a morte dele, toda a herança dele é passada para você. E isso inclui o morro. Você é a herdeira legítima.
Senti o ar escapar dos meus pulmões. A herdeira legítima do morro do Jacarezinho. Essas palavras eram absurdas, quase irreais. Eu, uma advogada criminalista, que sempre combateu o crime, agora estava sendo confrontada com a possibilidade de ser dona de um dos territórios mais perigosos do Rio de Janeiro.
Cléber me olhou com seriedade, esperando minha resposta.
— A questão é — ele disse, com cuidado — você aceita ser a dona do morro ou prefere continuar vivendo sua vida fora desse mundo?
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
eu pensei que o pai dela esteve longe dela por todo esse tempo porque ele não queria que os inimigos dele se aproximasse da filha dele mas agora lendo este capítulo vejo que ele é um c****** egoísta de m**** a mãe dela abandonou o pai e o legado dele para viver com o líder do PCC que é rival do comando vermelho
para no final ter uma filha dele para abandonada na porta do morro do pai dela ele não teve a menor consideração pelo amor que aquela mulher entregou para ele ao dar a vida dela para que a filha deles pudesse nascer espero que a lilith aceite comandar o morro que era do avô dela e se vingue desse c****** que não pode se chamar de pai
2024-10-03
5
Lorrainecristinioliveira Oliveira
amei maravilhoso coloca mais
2024-09-30
2