Narrado por Terror
Eu observava Lili, a herdeira do Jacarezinho, enquanto ela vacilava, as mãos se estendendo para se apoiar em mim. O cheiro de álcool e desespero estava impregnado em seu corpo, misturado com o perfume que ela usava, uma combinação sedutora e frustrante.
Ela estava no limite, e eu podia ver o tumulto em seus olhos. A mão dela estava gelada ao tocar a minha, e eu a segurei com firmeza, impedindo-a de cair. Era um contato que, apesar de circunstancial, parecia carregar um peso muito maior. O desejo e a tristeza se misturavam em um olhar que me dizia mais do que palavras poderiam expressar.
Quando nossos olhos se encontraram, uma conexão inexplicável fez com que o mundo ao nosso redor parecesse desaparecer. Era como se estivéssemos em um vácuo, uma bolha onde só existia a intensidade daquele instante. O tumulto do bar e o som da música se tornaram um pano de fundo distante.
— Você não parece bem, — eu disse, a preocupação imbuída em cada palavra. Era mais do que uma observação; era um convite para ela se entregar a um momento de fraqueza, um espaço onde o caos pudesse encontrar algum tipo de calma.
Ela me olhava com uma intensidade que parecia buscar algo, uma explicação, um consolo, mas o orgulho e o medo a paravam. Seus olhos estavam nublados por uma tempestade interna, e eu via o conflito se desenrolar em cada centelha de dor e desespero.
Lili se levantou, os passos vacilantes indicando a batalha que travava consigo mesma. Ela entrou no fumódromo sem dizer uma palavra, como se o ambiente opressivo do local pudesse proporcionar algum alívio para o tumulto dentro dela.
Fui atrás dela, movido por uma necessidade urgente de assegurar que ela não estava sozinha nesse momento de fragilidade.
— Olha para mim, — falei, segurando com cuidado seu rosto em minhas mãos. — Você está machucada?
Ela hesitou, palavras lutando para sair, mas uma força invisível parecia bloqueá-las. Finalmente, com a voz quebrada e a mente em frangalhos, ela conseguiu se expressar:
— Eu... eu... — Lili começou, a dificuldade em sua voz revelando o peso que carregava. — Eu não pedi por nada disso. Eu só queria que meu avô ainda estivesse aqui e que eu seguisse a minha vida sem ter que matar pessoas. Eu amava o que fazia, e agora sou apenas uma assassina.
A dor e a frustração em suas palavras eram palpáveis. Sentir o impacto da sua luta interna me fez desejar desesperadamente poder aliviar seu sofrimento.
— Ei, calma. Olha para mim, — eu tentei acalmar sua tempestade emocional.
As lágrimas começaram a rolar, e o peso do ódio e da traição se desnudava de sua alma. Ela continuou, a voz carregada com um sentimento de injustiça e desespero:
— Eu estava com ódio. Ódio por saber que fui abandonada como um objeto pelo Corvo. Eu queria mostrar a ele que sou mais do que ele poderia ter criado. E no final da história, eu serei o mesmo saco de merda que ele? — As lágrimas dela cortaram meu coração, e eu senti uma necessidade avassaladora de protegê-la.
A força e a determinação que costumavam defini-la estavam ausentes. Ali, em sua vulnerabilidade, eu vi uma mulher desarmada, quebrada pela pressão e pelo peso das responsabilidades que nunca desejou.
Não consegui me conter. Com um movimento suave, coloquei a cabeça dela em meu ombro, permitindo que ela chorasse, que liberasse a dor e a frustração acumuladas. Passei a mão em seus cabelos, um gesto de conforto e de solidariedade em meio ao caos.
— Vai ficar tudo bem, — falei, tentando infundir alguma esperança em meio ao desespero dela. — Você não precisa seguir esse caminho. O Jacarezinho é seu, mas não precisa fazer parte daquele comando. Olha para mim.
Ela ergueu a cabeça, os olhos carregados de medo e insegurança. Suas palavras eram um sussurro, uma confissão silenciosa que revelava sua verdade mais íntima:
— Eu não queria ser herdeira de nada.
A sinceridade em sua voz e a dor visível em seus olhos eram um testemunho poderoso de que, apesar das aparências e das escolhas que fez, havia uma parte dela que ainda ansiava por algo mais, algo além da vida de violência e manipulação.
Era uma revelação dolorosa, mas também um passo crucial para entender a verdadeira Lili, a mulher por trás da herdeira do Jacarezinho. E enquanto eu a abraçava, prometi a mim mesmo que faria o que pudesse para ajudá-la a encontrar um caminho que fosse mais do que apenas uma continuação do legado sombrio que ela herdou.
Ela ergueu a cabeça, e suas mãos deslizaram lentamente pelo meu pescoço, enviando um arrepio por todo o meu corpo. O toque dela, suave e carregado de uma emoção crua, parecia marcar um momento que transcendeu as palavras. No calor do fumódromo, nossos lábios se encontraram em um beijo inesperado, mas de uma profundidade imensa.
O beijo era calmo, como se ambos quiséssemos que aquele instante durasse para sempre, um refúgio fugaz da tempestade interna que ela enfrentava. Suas unhas se cravaram levemente em meu pescoço, um gesto que misturava necessidade e desespero.
— Paramos por falta de ar, — eu murmurei, quebrando o beijo enquanto a respiração de ambos se acelerava.
Os olhos dela buscavam algo em mim, e então ela falou, a voz carregada de um desejo urgente e vulnerável:
— Me tira daqui e me faça esquecer de tudo, nem que seja só por essa noite.
As palavras dela me pegaram de surpresa, e eu vi uma nova faceta da Lili — não apenas a herdeira, mas uma mulher que estava quebrada, buscando uma pausa da sua própria realidade cruel.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
nossa Lili você vai ficar com o terror meu Deus isso não vai prestar não
2024-10-06
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