Narrado por Lilith
O choque que eu sentia era tão profundo que não consegui nem dizer a meu avô o quanto o amava e que o perdoava por ter escondido a verdade de mim.
A mente estava cheia de perguntas sem respostas, principalmente sobre por que meu pai e meu irmão nunca haviam me procurado. A incerteza e a dor me consumiam.
Fui para o banho, e ali, sentada no chão do banheiro, permiti que o choro entalado na garganta se libertasse. Passei horas ali, deixando as lágrimas lavarem um pouco da angústia que sentia.
— O que vai ser de mim sem você, vovô? — falei baixinho para mim mesma, sentindo o peso da pergunta ecoar em meu coração.
Quando finalmente saí do banho, envolvida em uma toalha, vesti uma blusa e uma calcinha qualquer antes de me jogar na cama. O cansaço tomou conta de mim, e deixei que o sono me envolvesse, desejando que, ao acordar, tudo fosse apenas um pesadelo.
Na manhã seguinte, fui despertada pelo toque do meu celular. Era o advogado de meu avô.
— Senhorita Santorini, já tomei todas as medidas necessárias para o enterro. Estou apenas aguardando sua presença para discutir os detalhes finais e a questão dos bens deixados por seu avô. — disse ele com um tom profissional, mas havia uma nota de empatia em sua voz.
— Estarei aí o mais rápido possível — respondi, tentando me recompor.
Depois de me arrumar, fui ao escritório do advogado. A conversa sobre o enterro foi dolorosa, mas necessária. Eu precisava organizar as últimas despedidas e, ao mesmo tempo, lidar com o que meu avô havia deixado para mim.
O enterro estava marcado para a Capela Celestial, no Rio de Janeiro. Eu estava sentada ao lado do corpo do meu avô, vestida de preto, o peso da perda se refletindo em cada respiração. As pessoas começaram a chegar—muitos rostos desconhecidos para mim, mas que reconhecia como sócios, amigos, e alguns parentes distantes de meu avô.
Eu me mantinha imóvel, observando tudo ao meu redor, tentando processar a mistura de dor e confusão. À medida que as horas passavam, notei a chegada de alguns homens que imediatamente chamaram minha atenção. Havia algo de estranho neles. Eles se aproximaram do advogado do meu avô, conversando em tom baixo, e, de vez em quando, lançavam olhares na minha direção.
Não deixei de notar a presença deles, e meu instinto de advogada se ativou. Eu sabia exatamente o que eles eram: traficantes. Mas a pergunta que não saía da minha cabeça era o motivo de estarem ali. O que eles tinham a ver com meu avô?
Foi então que me lembrei das últimas palavras que meu avô me disse, sobre meu pai e meu irmão. Será que eles tinham algum envolvimento com aqueles homens? Será que meu avô tinha algo a ver com esse mundo que eu mal conhecia?
Respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos. Voltei a olhar para meu avô, deitado pálido naquele caixão, o rosto sereno como se estivesse em paz. Mas eu estava longe de encontrar qualquer paz.
— O que eu tenho que fazer, vovô? — sussurrei, a voz trêmula de incerteza. — Você não me deixou explicação alguma.
Senti um nó na garganta. Tudo o que eu queria era uma direção, uma resposta para as perguntas que me atormentavam. Mas o silêncio que me envolvia era avassalador.
Os homens continuaram conversando com o advogado, e percebi que, para entender o que estava acontecendo, eu precisaria me aproximar daquele mundo desconhecido e perigoso que, de alguma forma, estava ligado à minha família. Mesmo sem ter todas as respostas, uma coisa eu sabia: precisava descobrir a verdade, não importa onde ela me levasse.
Conforme o velório prosseguia, as pessoas ofereciam suas condolências, mas tudo parecia um borrão. A cada aperto de mão e abraço, eu me sentia mais distante, imersa em meus próprios pensamentos. O silêncio entre as palavras de conforto era ensurdecedor, e a presença daqueles homens estranhos pairava como uma sombra, perturbando a solene despedida.
Eles continuavam a falar com o advogado do meu avô, e quanto mais tempo passava, mais ficava claro que aquela não era uma simples conversa. Havia algo importante sendo discutido, algo que provavelmente envolvia a mim ou ao meu avô. Decidi que não podia simplesmente ficar sentada observando de longe; precisava entender o que estava acontecendo.
Levantando-me lentamente, ajeitei o vestido preto e caminhei na direção deles, tentando parecer confiante e controlada, mesmo que por dentro eu estivesse em pedaços.
— Com licença — interrompi a conversa, e todos os olhares se voltaram para mim. Os homens pararam de falar imediatamente, suas expressões inexpressivas enquanto me avaliavam. — Posso saber sobre o que estão conversando?
O advogado hesitou por um momento, como se estivesse decidindo quanto deveria me contar.
— Senhorita Santorini — começou ele, com um tom profissional, mas não conseguiu esconder completamente a preocupação em seus olhos. — Esses cavalheiros são representantes de... negócios nos quais seu avô tinha algum envolvimento. Eles vieram prestar suas homenagens e discutir algumas questões pendentes.
Negócios? A palavra pairou no ar entre nós, carregada de implicações. Eu sabia que meu avô era um homem influente, mas até onde iam esses "negócios"? E qual seria a ligação com o Corvo, meu pai, e com PH, meu irmão?
— Que tipo de questões? — perguntei, mantendo o olhar firme, mesmo com o coração acelerado.
Um dos homens, o mais alto e robusto, deu um passo à frente, o rosto sério.
— Assuntos que talvez seja melhor discutirmos em outro momento, senhorita. Seu avô era um homem respeitado por muitos de nós. Há coisas que ele queria que você soubesse, mas não aqui, não agora.
Eu estreitei os olhos, tentando ler as intenções por trás das palavras daquele homem. Cada vez mais, sentia que estava sendo empurrada para dentro de um mundo do qual mal começava a compreender a extensão.
— Entendo — respondi, tentando manter a calma. — Podemos marcar um encontro para discutir isso depois do funeral.
Eles assentiram, e o advogado rapidamente sugeriu que poderiam nos encontrar em seu escritório no dia seguinte. Concordei, embora a sensação de estar sendo arrastada para algo grande e perigoso permanecesse.
Enquanto voltava para meu lugar ao lado do caixão, senti que cruzava uma linha invisível, entrando em um território onde a verdade era mais complexa e obscura do que jamais imaginei. O luto pela perda do meu avô agora se misturava com uma sensação crescente de que minha vida estava prestes a mudar de maneira irreversível.
Sentada novamente, olhei para o corpo imóvel do homem que me criou e desejei mais do que nunca que ele estivesse ali para me guiar.
— Eu preciso ser forte, vovô, por nós dois — sussurrei, segurando as lágrimas.
Agora, mais do que nunca, eu sabia que precisaria de toda a coragem e inteligência que ele me ensinou para descobrir a verdade e enfrentar os desafios que vinham pela frente.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
acho que o avô dela era um dos chefes do crime organizado
e é por isso que o os homens que ela viu no velório do avô dela estava lá para conhecê-la e ver e dar o último adeus a um dos chefes deles coitada da lilith não teve preparação psicológica para o que está por vir na vida dela
2024-10-03
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