Narrado por Lilith
Desde o momento em que me confrontei com Corvo, uma tempestade de emoções tomou conta de mim. Olhar nos olhos daquele homem—o homem que deveria ter sido meu pai, o homem que deveria ter me criado—e ver que ele preferiu me abandonar, ninguém nunca vai entender a dor do abandono. A dor de não saber quem é seu pai, de ver todos à sua volta na escolinha comemorarem o Dia dos Pais, e você não ter com quem celebrar. Meu avô fez o que pôde, mas mesmo assim, não era o suficiente. E vê-lo na minha frente, sem ter a mínima coragem de abrir a boca para falar nada, me destruiu um pouco mais. Eu tinha tantas coisas para dizer, mas não podia me mostrar fraca, não podia revelar o meu lado frágil.
Mas agora, enquanto caminho pelas ruas escuras do Rio de Janeiro, a euforia começa a ceder, e a realidade do que isso significa se infiltra em meus pensamentos.
Quem sou eu realmente? Essa pergunta ecoa em minha mente. Eu fui criada com um senso inabalável de justiça, uma advogada brilhante que acreditava firmemente no sistema legal. E agora, aqui estou eu, a herdeira de um império criminoso, lutando contra a vontade de deixar tudo isso para trás. Mas o que significaria se eu fizesse isso? Que tipo de justiça eu estaria traindo ao negar meu próprio sangue, meu próprio destino?
Eu nunca quis esse caminho. Mas também nunca quis ser deixada à porta de um morro. O que significa ser herdeira? Essa é a verdadeira questão. Não é sobre o dinheiro, o poder, ou mesmo o controle. É sobre honra, legado, e sobre redefinir quem eu sou à minha maneira, sem as sombras do passado me sufocando.
Enquanto essas reflexões permeiam minha mente, surge uma nova determinação. Não é só sobre assumir o comando—é sobre fazer isso à minha maneira, criando um novo caminho onde meu passado e minhas crenças possam coexistir. Talvez seja isso que o Barão viu em mim, algo que nem meu próprio pai foi capaz de enxergar.
Mas a questão é: como vou fazer isso? Nunca peguei em uma arma, nunca tirei uma vida. Como comandar um império se eu sequer sei por onde começar? Em quem confiar num mundo em que eu nunca fiz parte? Se ao menos meu avô tivesse me deixado instruções… Mas não havia nada.
Essas dúvidas me consomem, mas também me motivam. Eu preciso descobrir um caminho—não o que me foi legado, mas um que eu crie para mim mesma. A responsabilidade de ser a herdeira do Barão é imensa, mas também é uma oportunidade. Uma oportunidade para transformar, para recriar. Talvez eu não tenha as respostas agora, mas uma coisa é certa: não vou desistir. Não vou me curvar à sombra de um legado que eu não escolhi. Vou forjar o meu próprio destino, custe o que custar.
Vou para casa descansar. Tomo um banho relaxante, deixando a água quente escorrer pelo meu corpo, tentando lavar não só o cansaço, mas também a confusão que tomou conta da minha mente. Amanhã será um novo dia, e eu preciso estar pronta para tomar as rédeas da minha vida.
Na manhã seguinte, acordo determinada. O peso dos eventos da noite anterior ainda paira sobre mim, mas sei que preciso manter o foco. Coloco minhas luvas de boxe e vou para o Muay Thai. Luto como se minha vida dependesse disso, e talvez dependa mesmo. Cada soco, cada chute, é uma forma de liberar a tensão acumulada, uma maneira de lembrar que ainda controlo algo na minha vida. O treino é intenso, me forçando a me concentrar apenas no presente, e por alguns momentos, tudo o que aconteceu desaparece.
Saio da academia suada e exausta, mas com a mente mais clara. Vou para casa, tomo outro banho, desta vez mais rápido, e me preparo. O próximo passo é crucial. Coloco uma roupa adequada e, com o coração mais leve, sigo em direção ao escritório de Cléber.
Hoje, vou começar a fazer perguntas e exigir respostas. O legado que herdei não pode mais ser ignorado, e Cléber talvez seja a chave para começar a desvendar esse labirinto.
Chego ao escritório de Cléber com uma determinação que não sentia há tempos. As paredes brancas e a decoração minimalista parecem querer me acalmar, mas nada pode acalmar a tempestade que se agita dentro de mim. Cléber está sentado atrás da mesa, folheando alguns papéis. Quando ele levanta os olhos e me vê, um leve sorriso surge em seu rosto, mas ele rapidamente percebe que não estou ali para uma conversa casual.
— Lili — ele diz, se levantando para me cumprimentar. — Não esperava te ver tão cedo.
— Preciso de respostas, Cléber. E preciso agora. — Minha voz é firme, sem espaço para hesitação.
Ele assente, voltando a se sentar. Eu me acomodo na cadeira em frente a ele, cruzando as pernas e me inclinando para frente, pronta para absorver cada detalhe do que ele tem a dizer.
— Tudo bem. Por onde quer começar?
— Quero entender o que exatamente eu herdei. — Minha voz sai mais fria do que pretendia. — Não só os bens materiais, mas o que isso realmente significa. Quais são as responsabilidades, os riscos... e o que preciso fazer para me preparar.
Cléber respira fundo, escolhendo cuidadosamente as palavras antes de responder.
— O seu avô, o Barão, deixou um império que vai muito além do que você imagina. Não é só dinheiro, Lili. É poder, influência, e também muitas dívidas de sangue. O Jacarezinho é uma das comunidades mais importantes do Comando Vermelho. Com o Barão morto, há muitos olhos voltados para você. Alguns te veem como uma solução, outros como uma ameaça.
— Eu nunca fiz parte desse mundo, Cléber. Não sei sequer por onde começar.
— Você pode começar por aqui, comigo. — Ele desliza uma pasta grossa para o meu lado da mesa. — Esses são os contatos mais importantes, aliados e inimigos. Aconselho a estudar bem cada um deles.
Abro a pasta e vejo rostos, nomes, informações que me parecem saídas de um pesadelo. Mas eu preciso saber. Preciso entender o que estou enfrentando.
— E quanto aos inimigos do meu avô? — Pergunto, sem desviar os olhos das fotos.
— Eles são muitos. Mas os principais estão ligados ao PCC, e você já conheceu o maior deles ontem à noite.
Corvo. Seu nome paira no ar, como uma sombra que não vai embora. O homem que deveria ter sido meu pai agora é meu inimigo. A ironia não passa despercebida.
— Eu quero saber tudo sobre ele, Cléber. Tudo o que puder encontrar.
Cléber me observa por um momento, talvez avaliando se estou preparada para o que estou pedindo. Mas ele não discute. Em vez disso, ele apenas concorda com um aceno de cabeça.
— Vou providenciar as informações. Mas Lili, você precisa ter certeza do que está fazendo. Uma vez que começar, não há como voltar atrás.
— Eu sei disso. — Respondo sem hesitar. — Mas eu não vou fugir. Não agora.
Levanto-me, segurando a pasta como se fosse uma arma, e olho diretamente nos olhos de Cléber.
— Me diga uma coisa, Cléber. Você está comigo nisso?
Ele sorri de lado, aquele sorriso que sempre me fez desconfiar dele, mas que agora parece ser a única coisa em que posso confiar.
— Sempre estive, Lili. Sempre estive.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
será que a lili dev confiar nesse advogado
Será que ele está realmente com ela não sei não hein toma cuidado lili
2024-10-04
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