A tensão no ar era palpável, cada respiração pesada, como se o próprio morro estivesse prendendo o fôlego, esperando o próximo movimento. As palavras que saíram da minha boca não foram apenas para ele, mas para todos ali. Precisava deixar claro desde o início: eu não estava ali para brincar de ser líder; estava ali para comandar, e isso significava tomar decisões difíceis, até mesmo brutais.
— Tudo que eu falar para ele serve para qualquer um de vocês, — comecei, minha voz ressoando pela sala. — Quando entraram para o mundo do crime, sabiam que era um caminho sem volta. Realmente, eu não cresci no morro como vocês. Tive tudo que sempre quis, e sou a advogada do diabo, como vocês também sabem. Mas não se enganem: eu não vou permitir traição no meu meio e tão pouco os deixarei impunes. Não querem me seguir? Fica a sua escolha, aqui e agora.
A resposta dele foi rápida, sem hesitação. — Eu não vou seguir você.
Naquele instante, soube que não havia outra opção. A liderança não era algo que se conquistava com palavras doces, mas com ações firmes, e às vezes, cruéis. A firmeza na minha voz não tremulou enquanto eu respondia, minha mão se movendo com precisão e frieza.
— Ótimo, era essa a resposta que eu esperava, — disse, destravando a arma com um clique que ecoou pela sala. — Menos um covarde no meu time.
Sem hesitar, apontei a arma e atirei. O tiro ressoou pelo espaço, um som surdo e final. O corpo do homem caiu no chão, inerte, e por um segundo, o mundo pareceu parar. Dentro de mim, uma tempestade de emoções lutava para sair — queria gritar, chorar, soltar toda a dor que estava contida em meu peito. Mas eu sabia que não podia. Não ali, não agora.
Precisava ser forte, mostrar que não havia espaço para fraqueza na minha liderança. Guardei a arma antes que as mãos começassem a tremer, forçando meu corpo a manter a calma, a postura firme.
— Alguém mais quer seguir o mesmo caminho? — perguntei, minha voz sólida, sem traço de dúvida. Meu olhar percorreu cada rosto, e todos abaixaram a cabeça, sinalizando respeito — ou talvez medo.
E ali estava o respeito que eu precisava, nascido da ação e da inevitabilidade da violência que aquele mundo exigia. Não era algo que eu quisesse fazer, mas algo que eu sabia que precisava. A liderança tinha seu preço, e naquele momento, percebi que estava disposta a pagá-lo.
Dentro de mim, um pedaço da velha Lili estava morrendo, sendo substituída por essa nova figura, fria e calculista, que precisaria ser para sobreviver e comandar no mundo que havia escolhido. As consequências das minhas ações viriam, mas por enquanto, eu havia conquistado o que precisava: controle.
O silêncio após o tiro era ensurdecedor. O som do corpo caindo ainda ecoava na minha mente enquanto olhava para aqueles homens, agora subjugados. Por fora, eu me mantinha firme, mas por dentro, sentia cada pedaço da minha humanidade sendo corroído pela decisão que acabara de tomar. A primeira vez que tirei uma vida, não foi em defesa própria, mas para marcar território, para provar que não seria desafiada.
Os homens à minha frente estavam imóveis, como se tivessem se tornado parte da paisagem do morro. Seus olhos evitavam os meus, não por desrespeito, mas porque tinham visto o que eu era capaz de fazer. Eu sabia que ali, naquele momento, havia conquistado o respeito que tanto precisava, mas também sabia que, a partir de agora, eu não poderia recuar. Aquele era o início de um caminho sem volta.
— Vocês escolheram ficar. — continuei, a voz mais fria do que eu jamais imaginaria ser capaz. — Mas saibam que lealdade é a única moeda que vale algo para mim. Aqui, não há espaço para traições, para dúvidas, ou para fraquezas. Se algum de vocês duvidar de mim, se tiverem a mínima hesitação em me seguir, falem agora, porque não vou tolerar incertezas mais tarde.
Eu fiz uma pausa, observando cada um deles. Nenhum ousou levantar a cabeça, mas pude perceber a tensão no ar, o medo se transformando em respeito, ou talvez fosse pura sobrevivência. A verdade é que não importava. O que importava era que agora eu tinha o controle.
— O que aconteceu aqui hoje, — disse, gesticulando para o corpo sem vida à minha frente, — serve como aviso. Este não é o caminho que escolhi, mas é o caminho que agora tenho que trilhar. E se isso significa sujar minhas mãos, então que seja. Eu não queria isso, mas também não vou fugir do meu destino. Se preciso liderar, liderarei. Se preciso proteger, protegerei. E se preciso eliminar, eliminarei.
O homem mais velho veio até mim, e seu rosto me pareceu familiar. Ele estava no funeral do meu avô, de pé à distância, observando tudo com uma expressão que mesclava tristeza e respeito. Agora, ele se aproximava com uma postura firme, mas não intimidante. Ele estendeu a mão e me olhou profundamente, seus olhos revelando uma história que eu ainda não conhecia.
— Eu sabia que tomaria a decisão certa, — ele disse, sua voz grave carregada de experiência. — Meu vulgo é Escorpião. Eu era o Sub do seu avô, comandava quando ele não estava. Durante anos, estive ao lado dele, aprendendo e seguindo seus passos. E estou à sua disposição agora. Eu sei que tornará uma ótima dona, assim como seu vô sempre foi.
Havia algo na maneira como ele falava que me trouxe um pouco de conforto. Escorpião não parecia ser o tipo de homem que distribuía elogios gratuitamente. Se ele estava me oferecendo sua lealdade, era porque via algo em mim, algo que talvez eu ainda estivesse descobrindo.
— Agradeço por isso, Escorpião, — respondi, aceitando sua mão. — Vou precisar de alguém com sua experiência ao meu lado.
Ele apertou minha mão com firmeza, e naquele momento senti que, mesmo em meio à escuridão desse novo mundo, havia uma luz de esperança. Se Escorpião havia sido a sombra do meu avô, talvez ele pudesse ser o guia de que eu tanto precisava para navegar por esse caminho desconhecido.
— Seu avô me ensinou que a lealdade é a base de tudo, — continuou Escorpião, soltando minha mão. — E eu acredito que você pode liderar com a mesma força que ele tinha. Mas saiba que esse mundo é cruel e vai te testar a cada momento. Nunca hesite em mostrar quem está no comando, e eu estarei aqui para te apoiar em cada passo.
Eu assenti, sentindo o peso de suas palavras. Ele não estava apenas me oferecendo apoio; estava me alertando para os desafios que viriam. Escorpião não via em mim apenas a herdeira do Barão, mas alguém que, com o tempo, poderia se tornar digna de comandar o morro e tudo o que ele representava.
— Vamos começar, — disse Escorpião, dando um passo para o lado e me indicando o caminho. — Tem muita coisa para ser feita, e o Jacarezinho precisa da sua força agora mais do que nunca.
Com um último olhar para o corpo do homem que eu tinha acabado de matar, respirei fundo e segui Escorpião. Sabia que aquela era apenas a primeira de muitas decisões difíceis que teria que tomar. Mas, com Escorpião ao meu lado e a memória do meu avô me guiando, comecei a acreditar que talvez eu pudesse realmente ser a líder que eles precisavam.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
parabéns Lili primeira decisão tomada com excelência não pare não querida mostre a sua força você nasceu para isso
2024-10-06
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