Narrado por Lili
O sol mal havia nascido, mas eu já estava de pé. A noite anterior foi tomada por pensamentos que me impediram de dormir, mas agora não havia mais espaço para dúvidas. Hoje era o dia em que eu assumiria meu lugar, o lugar que me foi negado desde o nascimento. A responsabilidade sobre meus ombros parecia esmagadora, mas algo dentro de mim, uma chama que sempre esteve lá, se recusava a apagar.
Vesti-me com uma simplicidade calculada. Nada de roupas caras ou maquiagens extravagantes. Precisava que as pessoas me vissem como uma delas, mas também precisava que soubessem quem eu era. Minha escolha foi um conjunto preto, discreto, mas com um corte elegante que destacava minha presença. Meus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo apertado, sem nada que distraísse minha visão ou meus pensamentos. Eu estava pronta para encarar o destino que me aguardava.
Ao sair de casa, senti o peso do olhar de Cléber. Ele sabia que eu estava prestes a fazer algo grande, mas não disse nada. Um simples aceno de cabeça foi tudo o que trocamos antes de eu partir. Durante o caminho, cada rua, cada esquina me lembrava do passado que eu estava prestes a enfrentar. O Rio de Janeiro tinha um jeito de te lembrar de onde você veio, e naquele momento, tudo o que eu via era um reflexo do que eu poderia ter sido se tivesse crescido ali, no meio daquela guerra silenciosa que tomava conta do morro.
Quando o carro parou no pé do morro do Jacarezinho, senti meu coração acelerar. Eu conhecia a história do lugar, a guerra, as mortes, o domínio que meu avô havia construído com sangue e medo. Agora era minha vez de pisar ali, e não como visitante, mas como herdeira. Respirando fundo, desci do carro. A subida até o topo parecia mais longa do que deveria ser, cada passo pesado com as expectativas e olhares daqueles que me observavam.
Assim que cheguei ao topo, fui recebida por um grupo de homens armados, o olhar de desconfiança evidente em seus rostos. Eles não me conheciam, mas sabiam exatamente quem eu era. A notícia da herdeira do Barão se espalhou rápido, e eles estavam esperando por mim.
— É ela? — um dos homens perguntou, com ceticismo na voz.
— Sou eu, sim. Lilith. — Minha voz saiu firme, mais do que eu esperava. — A herdeira do Jacarezinho.
O silêncio que se seguiu foi quase insuportável, até que um deles, o mais velho, deu um passo à frente e fez um gesto para que os outros abaixassem as armas. Ele me olhou com um misto de curiosidade e respeito.
— A gente ouviu falar de você, advogada do diabo. Mas aqui as coisas são diferentes. Você vai ter que mostrar quem é de verdade.
— Eu não vim aqui para falar — respondi, minha voz firme. — Vim aqui para tomar o que é meu por direito. O Barão me criou para isso, e vou honrar o nome dele.
Eles me levaram até uma casa no topo do morro, a casa que fora do meu avô. Entrar ali foi como atravessar um portal para o passado. A mobília era simples, mas cada peça parecia contar uma história de luta e sobrevivência. Havia uma grande mesa de madeira no centro da sala, e eu me aproximei dela, deixando minhas mãos correrem pela superfície áspera. Era ali que ele tomava suas decisões, onde a vida e a morte de tantos foram decididas.
— O que você quer fazer agora? — o homem mais velho perguntou, com um tom de desafio.
Olhei para ele, então para os outros homens que haviam se reunido ao redor, esperando a minha resposta. A verdade é que eu não sabia o que esperava encontrar ali, mas uma coisa era certa: eu estava determinada a fazer desse lugar o meu. Era o que meu avô havia planejado desde o início, e eu não iria decepcioná-lo.
— Quero que todos saibam que a herdeira do Barão está aqui. — Minhas palavras saíram como uma ordem. — E que as coisas vão mudar. Vou liderar esse lugar de forma justa, mas implacável. Não vou tolerar deslealdade ou fraqueza. Vamos fortalecer o morro e proteger aqueles que são leais a nós.
Houve um murmúrio de aprovação, mas também de dúvida. Eu sabia que teria que provar meu valor, que só palavras não seriam suficientes. Mas eu estava disposta a fazer o que fosse necessário.
Enquanto eu falava, uma determinação ainda maior tomava conta de mim. O medo e a insegurança que senti no caminho até ali começaram a desaparecer, dando lugar a uma confiança que eu não sabia que tinha. Esse era o meu lugar, e eu faria dele algo que meu avô teria orgulho.
Ao terminar, olhei para o homem mais velho, que parecia avaliar cada palavra que eu disse. Finalmente, ele assentiu, dando um passo para trás.
— Então, vamos ver do que você é capaz, herdeira.
O homem que falou comigo não era apenas um seguidor, mas claramente alguém que testava minha autoridade. Seus olhos desafiadores me encaravam, esperando que eu vacilasse, que eu mostrasse qualquer fraqueza. Suas palavras me atingiram como um golpe, mas eu não podia me dar ao luxo de deixar que isso me abalasse.
Sem dizer uma palavra, tirei a arma de dentro da minha roupa e apontei diretamente para a cabeça dele. O silêncio ao redor era ensurdecedor, cada movimento meu sendo observado com atenção por todos os presentes. Eu podia sentir o peso do olhar de cada um deles sobre mim, como se estivessem esperando para ver o que eu faria a seguir.
Minhas mãos, apesar de treinadas, tremiam levemente por dentro, mas eu não podia permitir que ele ou qualquer outra pessoa percebesse isso. Naquele momento, era vital que eu projetasse uma imagem de força, de alguém que não hesita em fazer o que é necessário. Manter a firmeza na voz e no olhar era essencial.
— Não se engane, — minha voz saiu firme, fria, e ecoou no silêncio tenso da sala. — Não sou uma garota mimada brincando de casinha. Sou a herdeira deste lugar, e não preciso que ninguém acredite em mim por palavras. Minhas ações vão falar por mim.
Eu mantive a arma apontada para a cabeça dele, meu dedo descansando no gatilho. Havia uma parte de mim que questionava se ele acreditaria na ameaça, mas isso não importava. O que importava era que todos ali vissem que eu estava disposta a ir até as últimas consequências para garantir o respeito e a lealdade deles.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Elayne Faria
ué mais ela não falou que nunca tinha pego em uma arma ?
2024-12-04
0
Lorany T Valenciano
Ela nunca havia pegado até aquele momento
2024-12-04
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Wandira Melo
essa mulher me representa,,, gosto disso.
2024-11-06
0