Narrado por Lili
Gabi
Larissa
Terror
— Certo — disse, tentando reunir coragem. — Vamos a esse baile.
Gabi sorriu, satisfeita.
— É isso aí, Lili! Você vai ver, vai ser bom sair um pouco.
Mal sabia ela o que esse “sair um pouco” realmente significava para mim. Vesti algo mais casual, tentando me disfarçar da advogada que todos conheciam, e me preparei para enfrentar o que viesse pela frente.
A viagem até o Vidigal foi longa e silenciosa. Eu estava mergulhada em pensamentos, enquanto Gabi falava animadamente sobre a festa. Quando finalmente chegamos, a favela já estava pulsando com a música e a vida noturna. Pessoas dançavam nas ruas, o cheiro de churrasco misturava-se com a fumaça dos carros, e a energia era quase palpável.
Assim que saí do carro, senti os olhares pesados sobre mim. Gabi não percebeu, ou escolheu ignorar; na verdade, eu nem sabia se eles realmente sabiam quem eu era. Mas uma coisa era certa: eles iriam conhecer o meu nome, por bem ou por mal.
Dentro de mim, algo começou a crescer. Era uma raiva surda, talvez pelo abandono, pelo desprezo do meu pai que me deixou enrolada em cobertores como se eu fosse um fardo. Mas, ao olhar para aqueles traficantes diante de mim, uma chama se acendeu, uma luz intensa ou talvez um fogo de liberdade. Finalmente, a oportunidade de tomar o controle da minha vida.
— Vem, vamos encontrar a minha amiga — disse Gabi, puxando-me pelo braço e arrancando-me dos meus pensamentos.
Atravessamos o tumulto, passando por grupos de homens que, apesar de conversarem de forma tensa, mantinham uma fachada de normalidade. O ar estava carregado, e era evidente que as aparências ali podiam ser tão enganosas quanto mortais. Logo Gabi avistou sua amiga, uma mulher morena e exuberante, abraçada a um homem alto e musculoso, que exalava uma presença intimidadora.
— Essa é a Lili — apresentou Gabi, sem perceber a tensão que pairava no ar. — Amiga, essa é a Larissa, e esse é o Terror, o dono do morro.
Terror não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos nos meus, como se tentasse ler algo além da superfície, como se procurasse desvendar a verdade oculta por trás do meu semblante. Já Larissa, ao perceber a cena que se desenrolava à sua frente, me olhou com desdém. Era claro que ela não gostava de mim, e sua expressão dizia tudo: eu era uma intrusa, alguém que não pertencia àquele mundo.
— Prazer — murmurei, mantendo a postura.
Terror finalmente quebrou o silêncio. Seu olhar era afiado, quase desafiador.
— Prazer é só na cama. — Terror respondeu com um sorriso safado no rosto. — Satisfação, pequena.
A resposta de Terror veio carregada de uma familiaridade inesperada, quase íntima, que me pegou de surpresa. Aquele sorriso safado, as palavras insinuantes, tudo indicava que ele estava tentando estabelecer algum tipo de conexão que eu não havia pedido, nem desejava. Algo em seu tom me revoltou de um modo que eu não esperava. Aquela tentativa de aproximação, como se fôssemos velhos conhecidos, me deixou desconfortável e irritada, mas eu mantive a expressão serena.
Percebi que eu não era a única incomodada. Larissa, ao lado de Terror, contraiu o rosto em uma expressão de desagrado evidente. Seus olhos, que antes já demonstravam desdém, agora cintilavam com algo mais próximo da raiva. Ela claramente não gostava de ver seu homem dirigindo aquela espécie de atenção para mim. Havia uma tensão entre nós que estava longe de ser apenas uma questão de território ou poder; era algo pessoal, uma disputa velada que estava sendo travada ali, naquele momento.
— Não estou aqui para satisfazer ninguém — respondi, minha voz firme, sem tremer. — Estou aqui por convite, mas se isso for um problema, posso ir embora.
Terror inclinou a cabeça ligeiramente, um sorriso desafiador ainda nos lábios, como se estivesse avaliando cada palavra minha. Larissa lançou um olhar de aviso para ele, mas ele ignorou, parecendo mais interessado na minha reação do que na dela.
— Você tem coragem, pequena. Gosto disso — ele disse, finalmente, soltando uma risada que ecoou pelo espaço. — Não é sempre que a gente encontra alguém com essa atitude. Fica à vontade, a festa é sua também.
Larissa soltou uma risada baixa e sarcástica, cruzando os braços como se estivesse esperando para ver como eu iria reagir.
— Então, você é a famosa Lili… — Ela pronunciou meu nome com um tom levemente zombeteiro. — Ouvi falar que é uma grande advogada, mas acho que aqui as coisas são um pouco diferentes do que você está acostumada, né?
A provocação dela estava clara, mas ao invés de me intimidar, só fez crescer o fogo que ardia dentro de mim. Eu sorri de volta, um sorriso que não atingiu os olhos, refletindo apenas uma parte da determinação que começava a me dominar.
— Eu me adapto rápido — respondi com firmeza. — E estou aqui para conhecer esse lado diferente das coisas.
Terror soltou uma risada baixa, como se estivesse gostando do desafio. Larissa, no entanto, não parecia achar graça alguma. Ela olhou para ele com uma expressão que deixava claro que aquela situação não estava sendo nada agradável para ela.
— Não se preocupe, Lili — Larissa finalmente se manifestou, sua voz carregada de ironia. — Aqui no morro, a gente cuida bem das visitas.
A forma como ela falou a palavra “visita” deixou claro que, para ela, eu não passava disso. Alguém que estava ali de passagem, sem direito a permanecer, muito menos a se integrar ao grupo.
— Vou me lembrar disso — respondi, olhando-a diretamente nos olhos. Se ela achava que podia me intimidar, estava enganada.
A troca de olhares entre nós foi breve, mas carregada de significados. Era um aviso silencioso de que aquela história estava longe de terminar ali. Eu sabia que teria que lidar com Larissa de alguma forma, assim como sabia que o comportamento de Terror poderia ser tanto uma ameaça quanto uma oportunidade.
Gabi, alheia à tensão que se desenrolava, ou talvez simplesmente ignorando-a, puxou-me para mais perto do grupo. Ela estava animada, como se estivesse numa simples festa entre amigos, e sua despreocupação me fez questionar se ela realmente entendia a complexidade da situação em que estávamos nos metendo.
— Vamos nos divertir um pouco, Lili! — Gabi exclamou, sorrindo para mim, completamente alheia ao subtexto que corria entre mim, Terror e Larissa.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
hum acho que o terror conhece a Lili pois a forma que ele falou com ela mostra que ele sabe de quem ela é filha acredito que teremos grandes surpresas por aí kkk
2024-10-03
3
Lorrainecristinioliveira Oliveira
autora fique feliz q vc voltou eu amo suas histórias de morro
2024-09-30
2