— Por hoje está bom. Amanhã espero você aqui para fazermos o que tem que ser feito, — disse Escorpião, sua voz firme, mas com um toque de compreensão. Ele sabia que eu precisava de um tempo para processar o que havia acontecido.
Eu assenti, sentindo um alívio instantâneo. Tudo o que eu mais queria agora era me afastar daquela realidade, fugir para um lugar onde pudesse esquecer, mesmo que por algumas horas, o peso do que tinha feito.
Deixei o morro, dirigindo pelas ruas escuras do Rio de Janeiro. O cheiro de pólvora ainda impregnava minhas roupas, e os resquícios de sangue que tinham respingado em mim pareciam uma marca impossível de apagar. A cada quilômetro percorrido, as palavras que me escaparam dos lábios ecoavam esmagadoras em minha mente:
— Eu matei um homem por poder e lealdade.
Repetir aquelas palavras para mim mesma era uma tentativa de racionalizar o que havia feito. Sabia que não poderia me deixar consumir pela culpa, mas isso não tornava a tarefa mais fácil. A realidade era que aquilo não seria um evento isolado; eu sabia que mais mortes viriam, que mais decisões difíceis me esperavam. E eu teria que estar pronta para cada uma delas. Mas, naquele momento, tudo o que conseguia pensar era no rosto do homem que matei. Sua expressão, seus olhos se apagando… essa imagem não sairia da minha cabeça tão cedo.
Após dirigir sem rumo por algum tempo, encontrei-me em frente a um beco, próximo a uma balada que costumava frequentar nos tempos da faculdade. Parei o carro e me troquei ali mesmo, vestindo algo mais apropriado para o ambiente. Sorte a minha sempre deixar algumas roupas de reserva no carro, uma velha mania que agora se mostrava útil. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo, tentando afastar as lembranças do dia.
Estacionei o carro e caminhei até a balada, sentindo cada passo como uma tentativa de escapar do peso que parecia afundar em meus ombros. Entrei e me dirigi diretamente ao bar. Não troquei palavras com ninguém; não estava ali para socializar. Apenas para esquecer, nem que fosse por alguns minutos. Pedi uma dose e, antes que o barman pudesse terminar de servir, já a virei, sentindo o líquido descer queimando pela garganta.
Mais uma dose. E outra. O som alto da música, as luzes piscando, as risadas ao meu redor… tudo parecia distante, abafado, como se eu estivesse observando aquilo tudo de um lugar bem longe. Continuei bebendo, na esperança de que o álcool me ajudasse a adormecer os fantasmas que começavam a se formar em minha mente.
Mas, mesmo enquanto o mundo ao meu redor começava a girar, eu sabia que aquela noite não apagaria o que eu havia feito. O rosto daquele homem ainda estava comigo, preso em minha mente, como uma sombra que eu não podia evitar.
Após inúmeras doses, o álcool começava a cumprir sua promessa de me entorpecer. Eu precisava de ar, algo para clarear a mente, então me dirigi ao fumódromo. Ao tentar entrar, meu corpo, já vacilante, esbarrou em alguém. Antes que eu pudesse me dar conta, mãos firmes envolveram minha cintura, me impedindo de cair.
O perfume dele, uma mistura de frescor e algo irresistivelmente sedutor, invadiu minhas narinas, provocando um arrepio que percorreu todo o meu corpo. As mãos que ainda seguravam minha cintura, com um toque firme e ao mesmo tempo cuidadoso, causaram um formigamento que me fez prender a respiração. Quando finalmente levantei o olhar, nossos olhos se encontraram e, naquele instante, o mundo ao redor pareceu parar. O barulho da música, o som das pessoas falando e rindo—tudo desapareceu. Era como se só existisse eu e ele, presos naquele momento.
E foi aí que algo familiar, uma sensação estranha, tomou conta de mim. Havia algo nos olhos dele, algo que me fazia sentir como se já o conhecesse de outra vida, de outro tempo. Minha mente, já confusa pelo álcool, lutava contra a ideia absurda de que aquele homem, um estranho, poderia ter algum tipo de conexão comigo. Minha boca, entretanto, parecia ter vontade própria, clamando silenciosamente pelo gosto dos lábios dele, mesmo sabendo que isso seria um suicídio emocional. Como Romeu e Julieta, proibidos de amar, me perguntei se valeria a pena sacrificar tudo por uma única noite em seus braços.
Meus olhos vacilavam entre a vontade de chorar em seus braços e o desejo avassalador de beijá-lo. A confusão interna se tornava insuportável. Eu queria me entregar àquele momento, esquecer todas as consequências, mas ao mesmo tempo, o peso das escolhas que eu já havia feito me puxava de volta à realidade.
— Você não parece bem, — ele finalmente quebrou o silêncio, sua voz rouca e carregada de preocupação.
Aquelas palavras, ditas com um tom que parecia entender minha dor, perfuraram a bolha de negação em que eu tentava me esconder. De todas as maldições que poderiam ter recaído sobre mim, talvez sentir algo pelo Terror fosse a maior de todas. Ele, um homem marcado por seu próprio passado sombrio, não poderia ser a solução para meus problemas, mas ainda assim, algo dentro de mim queria acreditar no contrário.
A realidade, entretanto, era implacável. Eu sabia quem ele era, sabia que nos encontrávamos em lados opostos de uma guerra que jamais poderíamos fugir. Sentir algo por ele, por mais forte e genuíno que fosse, só traria mais dor. No entanto, naquele instante, nada disso parecia importar. O que eu queria, o que meu corpo e minha alma ansiavam, era me perder naquele olhar, me entregar a um momento de fraqueza que talvez fosse a única coisa real que eu poderia ter naquela noite.
Mas será que eu estava disposta a pagar o preço?
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
hum a lili e o terror será que vai dar certo isso autora acho melhor você não colocar a Lili e o terror juntos não pois pode dar muito ruim principalmente por causa da Larissa
mulher quando é trocada se torna pior do que cobra sendo morta a paulada
2024-10-06
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Lorrainecristinioliveira Oliveira
eita autora agora vai pegar fogo 🔥🔥 lilithi e terror
2024-10-05
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