Narrado por Corvo
Faz uma semana desde que vi minha filha, e uma enxurrada de memórias começou a invadir minha mente. A chuva martelava o telhado, e o som abafado preenchia o silêncio que sempre me cercava nas noites em que as lembranças se recusavam a me deixar em paz. Sentei-me na poltrona, acendi um cigarro e deixei a fumaça envolver meus pensamentos, esperando que isso amortecesse a dor que sentia ao pensar no passado.
Mas a verdade é que nem a nicotina conseguia apagar as imagens que insistiam em invadir minha mente.
Passado
Eu me lembro de quando vi Antonella pela primeira vez. Estávamos em uma reunião entre facções, e ela estava acompanhada do Barão. Ela era uma mulher diferente de qualquer outra que já conheci. Tinha uma beleza indomável e um espírito que parecia impossível de domar. Era como se a sua presença transformasse a atmosfera ao nosso redor.
Foi por ela que comecei a acreditar que poderia ser mais do que um simples chefe do PCC. Ela me fez sonhar, me fez acreditar que eu poderia escapar da vida que levava. Eu pensava que poderia construir algo mais, algo que fosse além da violência e do poder. Mas, ao mesmo tempo, ela também foi o início do meu fim.
Quando Antonella ficou grávida do nosso primeiro filho, ela decidiu abandonar a família que conhecia e mergulhar de cabeça no meu mundo. Ela se tornou meu mundo, e ela e nosso filho eram tudo o que eu havia pedido a Deus. Era uma nova chance, uma nova vida. Mas, como sempre, o destino tinha outros planos.
Quando nosso filho mais velho tinha apenas seis anos, Antonella engravidou novamente. No início, eu era o homem mais feliz do mundo, ansioso para expandir nossa família e construir um futuro ao lado dela. No entanto, a segunda gravidez trouxe complicações que nunca imaginei.
Antonella, a mulher forte e destemida que eu conhecia, começou a se perder lentamente. A gravidez foi difícil, a placenta se rompeu e, apesar de todo o repouso e cuidados, ela lutava diariamente para manter-se de pé. Mesmo assim, ela continuava a dizer que era uma benção, uma dádiva que Deus nos havia concedido.
Mas aquela benção se transformou na minha maldição. Antonella não aguentou a pressão e, ao dar à luz, deixou este mundo. A dor da sua perda foi devastadora. O peso da sua ausência e a culpa pela sua morte se misturaram com o medo e a tristeza de ter que criar nossos filhos sozinho.
O império que construí, o poder que acumulei, tudo pareceu insignificante diante da perda de Antonella. A vida que eu havia idealizado, o futuro que eu havia planejado, desmoronou diante dos meus olhos. O que era para ser uma nova era de esperança se transformou em uma série de desafios e lutas que eu nunca imaginara enfrentar.
A morte dela durante o parto foi um golpe devastador. Eu estava perdido, incapaz de lidar com a dor e com a nova vida que tinha que cuidar.
**Capítulo: "Sombras do Passado"**
A morte de Antonella foi o fim de uma era e o começo de um tormento que eu nunca poderia ter previsto. Eu estava devastado, e o vazio deixado pela sua partida era insuportável. No desespero, eu busquei na escuridão das drogas uma forma de silenciar a dor, de esquecer a responsabilidade que não conseguia enfrentar. A tristeza e a culpa eram tão profundas que se tornaram uma sombra constante, obscurecendo tudo ao meu redor.
O choro da minha filha ainda ecoava em minha mente. Em um ato de desespero e fuga, envolvi a pequena em cobertas e a deixei em frente ao morro do Barão. Eles provavelmente reconheceram a menina, perceberam quem era o pai dela pelo ato desesperado. Entregar Lili ao Barão foi a minha forma de escapar, de abdicar da responsabilidade que eu sabia que não estava pronto para assumir.
Quando nossos olhares se cruzaram, mesmo sem palavras, eu reconheci a essência dela. Seus olhos, idênticos aos de Antonella, refletiam a mesma determinação e a mesma força. Os cabelos negros como a noite, o semblante firme, tudo nela era um eco de sua mãe, mas intensificado. Aquela menina, envolta em cobertas, carregava a mesma aura feroz e imponente que eu conhecia tão bem. Contudo, atrás daquela força, havia uma criança marcada pelo abandono e pelo luto.
A lembrança de ter deixado minha filha naquele morro trouxe todas as memórias e erros à tona. A dor do abandono, o medo do fracasso e a culpa por ter permitido que tudo isso acontecesse se tornaram insuportáveis. Me pergunto como ela conseguiu sobreviver, como construiu uma vida em meio a tudo isso. Nunca ataquei o Jacarezinho, por mais que nossas facções fossem rivais. No entanto, a guerra declarada por Lili me pegou de surpresa, e a minha incapacidade de reagir me deixou vulnerável.
Eu escondi o seu nascimento, a vergonha de ter abandonado a filha, e a dúvida de como ser um pai que não pude ser para ela. Agora, ela está de volta e, com ela, todos os erros e a fraqueza que tentei enterrar. A verdade é que a responsabilidade pela sua vida nunca me abandonou; eu a entreguei, mas o peso de ter falhado com ela nunca desapareceu.
O que resta agora é lidar com as consequências do passado e encarar a verdade que eu evitei por tanto tempo. Lili, agora uma mulher forte e determinada, representa tanto o que eu perdi quanto o que eu poderia ter sido. Enfrentar a realidade de que ela carrega a força de Antonella e a dor do meu abandono é a minha punição final.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 82
Comments
Elayne Faria
ela não é ruiva ?
2024-12-04
0
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
é corvo complicado hein você poderia ter achado forças em sua filha mas você escolheu abandoná-la a própria sorte pois quando você deixou a Lili na porta do morro do barão você deixou ela lá para morrer infelizmente o avô dela a reconheceu e a criou graças a Deus isso foi uma benção pois ela pode ter o privilégio de crescer e se tornar uma mulher forte e guerreira apesar das dificuldades que a vida impôs a ela
chegou a hora de você enfrentar o seu passado e em frente o seu passado como um homem e não como um covarde como você agiu no passado ao abandonar a sua própria filha
2024-10-04
1
Lorrainecristinioliveira Oliveira
e corvo agora não adianta chorar o mau já foi feito agora arca com as consequências
2024-10-03
0