Narrado por Terror
Eu observei Lili por um instante mais longo, tentando ler além do que ela estava mostrando. Aquela garota não era apenas corajosa, ela era perigosa. Ela sabia disso, e estava usando isso a seu favor. Finalmente, inclinei a cabeça em um aceno de respeito discreto e dei um passo para o lado, liberando a passagem.
Lili não hesitou. Ela passou por mim com a cabeça erguida, como se fosse ela quem tivesse o controle da situação, e talvez tivesse mesmo. Eu a observei enquanto ela descia as escadas do camarote, seus passos firmes, cada movimento dela era um desafio silencioso para qualquer um que ousasse questioná-la.
Corvo, ainda no seu lugar, observava com uma mistura de frustração e admiração, mas não disse nada. Ele sabia tão bem quanto eu que Lili tinha acabado de fazer uma jogada que poucos se atreveriam a fazer. E o PH, ainda tentando processar a revelação, estava pálido, sua mente claramente a mil tentando compreender o que acabara de acontecer.
Eu caminhei até o Corvo, parando ao lado dele, e observei a cena ao meu redor. A festa, que antes fervilhava de música e agitação, estava agora estranhamente silenciosa, como se todos estivessem à espera do próximo movimento.
— Ela tem a quem puxar. — Eu disse, olhando para o Corvo. — O sangue fala alto, não é?
Corvo me olhou de lado, sua expressão sombria.
— Não subestime ela, Terror. — Ele finalmente disse, a voz baixa e carregada de um aviso. — Essa garota pode ser mais perigosa do que você imagina.
— Não estou subestimando. — Respondi, olhando para o ponto onde Lili havia desaparecido entre a multidão. — Estou apenas curioso para ver até onde ela vai com isso.
Eu sabia que o que acontecesse a seguir definiria o rumo de muita coisa. Lili não era uma jogadora qualquer. Ela havia entrado no jogo para vencer, e estava disposta a enfrentar quem quer que fosse para tomar o que era dela por direito. E isso, inevitavelmente, me colocava no meio de uma batalha que estava prestes a se tornar muito mais intensa.
Corvo se levantou, finalmente, parecendo mais velho e cansado do que eu já o havia visto. Ele me lançou um último olhar antes de se virar para PH.
— Vamos embora. — Ele ordenou.
— Você acha que é assim? — PH retrucou, a voz carregada de frustração. — Me esconde que minha irmã está viva e eu simplesmente vou embora com você como seu cachorrinho? Não se esqueça, Corvo, que eu sou dono de morro assim como você. E, diferente dela, eu não herdei nada de ninguém; eu conquistei meu lugar.
A tensão no ar era palpável. PH estava furioso, e com razão. Corvo o havia mantido no escuro sobre algo enorme, algo que mudava completamente o cenário. PH sempre fora leal ao Corvo, mas agora havia uma rachadura nessa lealdade.
Corvo se virou lentamente para encarar o filho, os olhos endurecidos. Ele não estava acostumado a ser desafiado, especialmente não por alguém que ele próprio havia moldado.
— Cuidado com o que você diz, PH. — A voz de Corvo era baixa, mas o tom era ameaçador. — Eu te fiz o que você é hoje. Não se esqueça disso.
— Você pode ter me ensinado, mas eu fiz meu nome sozinho. — PH não recuou. — E não vou deixar ninguém, nem você, me diminuir. Eu sou dono do complexo do alemão, e não vou ser passado para trás por ninguém.
Eu assisti a troca entre eles, percebendo que a tensão entre pai e filho estava à beira de explodir. PH não era o tipo que deixava passar uma traição, mesmo que fosse de sangue. Corvo, por outro lado, estava acostumado a comandar com mão de ferro, e não ia ceder tão facilmente.
— E o que você vai fazer, PH? — Corvo desafiou, dando um passo em direção ao filho. — Vai tomar o lugar dela? Vai começar uma guerra agora? Isso é o que você quer?
PH ficou em silêncio por um momento, os músculos tensos, o olhar fixo no pai. Ele estava furioso, mas também sabia que o que estava em jogo era maior do que seu orgulho. Uma guerra interna era tudo o que eles não precisavam agora, mas aceitar o que Corvo havia feito também não era uma opção.
— Só estou dizendo uma coisa — PH respondeu, finalmente. — Ela que se cuide, porque não vai ser fácil tomar o que ela acha que é dela.
Corvo deu um sorriso frio.
— Não esperava menos de você. — Ele disse. — Mas lembre-se: no fim, sangue é sangue. E ela é sua irmã, goste você ou não.
PH não respondeu, mas o olhar que ele lançou ao Corvo deixou claro que a relação entre os dois nunca mais seria a mesma.
Eu sabia que o PH estava certo em um ponto: Lili não teria vida fácil. Ela havia declarado guerra, e agora teria que lutar por cada centímetro que quisesse conquistar. E ao contrário do PH, ela não teria a vantagem da experiência e do respeito conquistado ao longo dos anos.
Enquanto os dois homens saíam do camarote, eu permaneci onde estava, refletindo sobre o que havia acabado de acontecer. O jogo havia mudado, e as peças estavam se movendo rapidamente. Eu teria que estar preparado para o que viesse a seguir, porque uma coisa era certa: o inferno estava prestes a se soltar no Rio de Janeiro.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Rute Maria
autora não estou entendendo por quê o pH tá brigando pela liderança se o legado da Lili é o jacarezinho e o do ph é o alemão?
ela vai lutar pelo comando herdado do avô
2024-10-08
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