Narrado por Lili
Acordar nos braços dele foi como emergir de um sonho e cair direto na realidade dura e fria. O rosto sereno de Terror, ali ao meu lado, deveria me trazer algum conforto, mas tudo o que eu sentia era um medo crescente, uma sensação que algo estava para acontecer. Nunca fui do tipo que agia sem pensar nas consequências, mas naquela noite, fui movida pelo desejo, e agora estava colhendo os frutos amargos de minhas escolhas.
Dois rivais, deitados na mesma cama. Mostrei a ele um lado meu que ninguém nunca viu, um lado vulnerável, cheio de dor e arrependimentos. Eu me preocupava com o que ele faria com esse conhecimento. Ele poderia usar isso contra mim, virar as mesas e destruir tudo o que eu havia construído.
Levantei-me da cama com cuidado, tentando não acordá-lo. Sabia que sair dali sozinha seria quase impossível, não sem a ajuda dele. Mas precisava de ar, de espaço para pensar. O sufocamento era real, e eu não podia mais ficar ali.
Vesti uma das camisas dele, que me caía larga, e desci as escadas em busca da cozinha. Ao virar um corredor, dei de cara com a dona Marina.
— Lili, o que você faz aqui? — Ela perguntou, surpresa.
As palavras fugiram de mim. Como explicar a situação sem revelar demais? Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ouvi uma voz atrás de mim.
— Ela está comigo, mãe. — Terror respondeu, e o choque me tomou de assalto.
Eu conhecia a dona Marina de anos atrás, de um incidente onde ela me ajudou depois de um assalto. Ela foi gentil comigo, me deu dinheiro para voltar para casa. Mais tarde, soube que seu filho mais novo tinha sido preso, e usei minha influência para soltá-lo. Não fiz isso por ele, mas sim pela mãe maravilhosa que tinha.
E agora, ali no meio da sala no Vidigal, todas as emoções que eu vinha segurando explodiram. Meus olhos se encheram de lágrimas e, sem conseguir mais me segurar, chorei. Chorei por medo, por ódio, por solidão. Chorei como uma menina assustada, como se nunca tivesse enfrentado nada na vida.
Dona Marina veio até mim e me abraçou, sem fazer perguntas. O consolo dela só intensificou minhas lágrimas. Eu estava perdida, em um território desconhecido, tanto fisicamente quanto emocionalmente, e tudo o que eu queria era uma saída. Mas sabia que não havia caminho fácil dali.
Dona Marina me segurava com firmeza, seu abraço trazendo um conforto que eu não sabia que precisava. Ela não disse nada, apenas deixou que eu desabafasse, enquanto Terror permanecia em silêncio, observando a cena com uma expressão indecifrável. Aquela mulher, que eu mal conhecia, parecia entender que minhas lágrimas não eram apenas sobre o presente, mas sobre anos de dores acumuladas, de escolhas erradas e de responsabilidades que me foram impostas.
Depois de alguns minutos, quando meus soluços começaram a diminuir, ela se afastou ligeiramente, segurando meu rosto com as mãos e olhando diretamente nos meus olhos.
— Lili, você é mais forte do que pensa. — A voz dela era suave, mas havia uma força subjacente que me fez acreditar em cada palavra. — Não importa o que aconteceu ou o que vai acontecer, você vai superar isso.
Eu queria acreditar nela, queria agarrar aquela esperança com todas as minhas forças. Mas a realidade era implacável. Eu estava presa em uma guerra que não escolhi, lutando por um território que, até pouco tempo, nem sequer conhecia. E agora, ali estava eu, vulnerável, na casa do meu inimigo.
Terror se aproximou, seus passos ecoando suavemente no piso. Ele se abaixou ao meu lado e segurou minha mão, apertando-a com uma gentileza que contrastava com o que ele representava.
Ele me levou para o quarto, e assim que entramos, ficou me encarando com uma expressão séria.
— Da onde você conhece a minha mãe? — Ele perguntou, sua voz carregada de curiosidade e cautela.
Levantei a cabeça para olhar para ele, sentindo o peso da pergunta. Já era difícil estar aqui, vulnerável, mas agora cada palavra minha parecia expor ainda mais do meu passado. Mas não havia como evitar. Eu precisava contar a verdade, mesmo que isso me deixasse ainda mais exposta.
— Foi há alguns anos — comecei, tentando manter minha voz firme. — Eu estava saindo de um restaurante quando fui assaltada. Eu estava sozinha, sem dinheiro, e sem saber o que fazer. Sua mãe, dona Marina, apareceu do nada. Ela me ajudou, me deu dinheiro para o táxi, e me garantiu que eu chegaria em casa em segurança. Naquele momento, eu nem sabia quem ela era, só sabia que ela era uma mulher incrível. Mais tarde, quando eu descobri que o filho dela havia sido preso, fiz questão de ajudar. Não foi por ele, mas por ela. Eu nunca imaginei que ela fosse sua mãe.
Enquanto eu falava, vi a expressão dele suavizar. Mas ainda assim, eu sabia que estava me expondo demais. Cada minuto que eu passava perto dele, mais ele descobria sobre mim, me deixando cada vez mais vulnerável.
— Olha, foi bom o que a gente teve — continuei, tentando manter a compostura. — Mas eu não quero colocar você, ou muito menos sua família, em perigo. Se tivéssemos nos conhecido antes disso tudo, antes de eu ter herdado essa merda toda, talvez… talvez a gente pudesse ter sido feliz. Mas eu agi por raiva, e olha onde eu cheguei. Parece patético, eu sei, mas agora eu tenho que lidar com as minhas escolhas.
Eu me aproximei dele e passei a mão pelo seu rosto, sentindo a textura da sua pele sob meus dedos. Dei um selinho em seus lábios, um gesto pequeno, mas carregado de significado.
— Pode me levar para casa? Ou, pelo menos, me deixar na balada onde estávamos? Meu carro está lá no estacionamento.
Ele ficou em silêncio por um momento, seus olhos fixos nos meus, como se estivesse tentando entender tudo o que eu havia dito. Havia uma tristeza na sua expressão que quase me fez reconsiderar, mas eu sabia que essa era a única opção.
— Claro — respondeu, finalmente, com uma resignação que cortou meu coração. — Vou te levar.
Ele pegou o casaco que estava pendurado e o colocou em meus ombros, me ajudando a vestir. Aquele simples gesto de cuidado me fez sentir algo que eu não estava acostumada a sentir — segurança. Mas eu sabia que não podia me deixar levar por isso.
Saímos do quarto em silêncio, e ele me conduziu até o carro. O caminho de volta foi quieto, cada um de nós perdido em seus próprios pensamentos. A intensidade da noite anterior ainda pairava entre nós, mas agora parecia ser algo distante, uma lembrança que ambos sabíamos que teria consequências.
Enquanto ele dirigia pelas ruas silenciosas, meus pensamentos estavam em turbilhão. Eu sabia que precisava pensar no que fazer a seguir, nas decisões que teria que tomar. Mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia fazer era olhar pela janela e tentar absorver o que acabara de acontecer.
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Atualizado até capítulo 82
Comments
Leydiane Cristina Aprinio Gonçaves
Lili e agora hein como você vai agir diante dessa situação que você se colocou hein
2024-10-16
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