O silêncio era quase palpável enquanto permanecíamos ali, parados, nossos corpos e mentes exaustos das provações recentes. Eu não sabia quanto tempo havia passado desde que nos envolvemos naquela batalha bizarra, mas a tensão era inescapável. O silêncio foi finalmente quebrado pelo som de passos apressados. A mãe de Tsubaki apareceu, suada e desesperada, com uma lanterna na mão, e logo atrás dela vinha um tio de Tsubaki, igualmente preocupado.
— Tsubaki! Está querendo me matar do coração? — Sua voz estava embargada pela preocupação, e seus olhos nos varreram, analisando nossa aparência desleixada e ferida. — Olha isso, vocês estão imundos! E que cortes são esses no seu braço? Espera aí... vocês estavam brigando?!
Ela parecia à beira de um colapso nervoso, seus olhos arregalados e mãos trêmulas enquanto tentava entender o que estava acontecendo.
— E essas espadas? O que estavam fazendo?! — Sua voz ficou mais aguda, carregada de uma mistura de raiva e medo.
— Mãe, estávamos jogando D&D, sabe... aquele RPG? — Tsubaki tentou inventar uma desculpa, a voz tremendo levemente, mas era evidente que ela não estava disposta a ouvir.
— Não quero saber de mais nada. Estamos indo embora hoje mesmo. — Ela anunciou, furiosa, agarrando Tsubaki pelo braço com firmeza.
— E você, Seraphin? Não vai vir? Afinal, se vocês não estiverem mentindo, você mora e tem uma família em Rachel, não é? — Ela parou por um momento e me questionou, o olhar firme.
— Ahm... Claro. — Puxei Ethan pelo braço e corri atrás dela, sem questionar.
O caminho de volta até a velha casa de madeira, parecia mais longo do que o normal. O frio parecia intensificar-se com cada passo que dávamos em direção ao que deveria ser um refúgio, mas que agora parecia um lugar de confronto. Ninguém disse uma palavra; nossos olhares cruzavam-se de vez em quando, carregados de perguntas não formuladas e decisões não tomadas.
Quando finalmente chegamos, todos nós nos reunimos no quarto. Tsubaki trancou a porta e começou a arrumar suas coisas em uma pequena mala e uma mochila de viagem.
— O que vamos fazer agora? — Ethan perguntou, sentando-se na cama, os olhos fixos em Tsubaki.
— Nada. Vocês estragaram minhas férias. — Tsubaki respondeu, sem olhar para Ethan, continuando a arrumar suas coisas com determinação.
— Fala sério, você nem queria estar aqui. Eu ouvi o que você disse e muito mais. — Ethan respondeu, calmamente, cruzando as pernas e inclinando-se para trás. — Não queria parecer estranho, mas... eu meio que vivo no porão da sua avó.
— No porão? Sério? Você não tem uma mentira melhor para inventar? — Perguntei, enquanto fechava minha mala, incrédulo.
— Está duvidando? Vamos até o porão então. — Ele se levantou, abrindo a porta com um sorriso desafiador.
— Se não tiver nada lá... Eu posso te bater. — Tsubaki falou, encarando Ethan seriamente.
— Eu deixo, mas se tiver algo lá, você me deve uma. — Ethan sorriu e foi na frente, claramente confiante.
Descemos até o porão, onde a velha porta contrastava com o resto da casa, que havia sido redecorada recentemente. Ao chegar lá, tossimos com a poeira que subiu quando descemos as escadas. Para nossa surpresa, havia dois sofás, uma mochila com roupas, embalagens de comida e uma televisão.
— Que... — Tsubaki começou a falar, mas ficou sem palavras, o choque evidente em seu rosto.
— Que foda, né? — Ethan disse, orgulhoso, deitando-se em um dos sofás.
— Como conseguiu trazer essas coisas até aqui embaixo? — Tsubaki perguntou, segurando a gola da camisa de Ethan com raiva.
— Relaxa, foi ela que colocou essas coisas aqui. Bom... eu fiz ela acreditar que precisava trocar de TV. Já trabalhei para ela, cortando grama, instalando a nova TV, dedetizando a casa... — Ele falou com orgulho, o sorriso largo.
— Você é... — Comecei a dizer, mas Ethan me interrompeu.
— Gênio, inteligente, bonito... enfim, sem contar que tem um banheiro aqui embaixo. — Ele continuou, claramente satisfeito consigo mesmo.
— Você é um aproveitador, mas pelo menos não roubou nada. — Tsubaki disse, sentando na barriga de Ethan de forma brincalhona, sem colocar todo o peso do corpo.
— Ahgr! Bem, eu não disse que não roubei nada. Enfim, nem só de honestidade vive um homem. — Ethan falou, empurrando Tsubaki e levantando-se.
— Roubou uma senhorinha de idade, seu safado. — Tsubaki riu, empurrando Ethan de leve.
— O que estão fazendo no porão? — A mãe de Tsubaki gritou da porta, sem descer as escadas.
— Já estamos indo! — Tsubaki respondeu, enquanto ela fechava a porta.
— Pega o que tiver que pegar e toma um banho. Vamos, estamos te esperando lá em cima. — Tsubaki disse, subindo as escadas.
Eu o segui, fechando a porta atrás de mim e deixando Ethan sozinho no porão. A mãe de Tsubaki me deu um vestido, que só de olhar, eu soube que ficaria um pouco curto. Tomei banho no banheiro do quarto dela, enquanto Tsubaki usava o banheiro do quarto de hóspedes. Como esperado, o vestido ficou um pouco curto, mas nada que me incomodasse. Esperei na sala enquanto os dois terminavam de se arrumar.
Finalmente, ambos saíram, arrumados e cheirosos. Dei um abraço em cada um deles antes de pegarmos as mochilas restantes e entrarmos no carro. A viagem de Ely até Rachel não era longa, apenas cerca de duas horas. Tudo parecia normal, a mãe de Tsubaki não fez perguntas sobre Ethan; a essa altura, ela provavelmente já estava acostumada com nossas esquisitices.
Tsubaki estava ouvindo música com um dispositivo que eu desconhecia, os fones de ouvido conectados, isolando-o do resto do mundo. Ethan estava sentado no meio, com a cabeça apoiada no ombro de Tsubaki, compartilhando os fones. Eles pareciam estar em paz, uma ironia considerando como se odiavam dias atrás. Eu encostei a cabeça no vidro da janela, observando as árvores e a noite estrelada. O mundo lá fora era lindo e calmo, um contraste doloroso com o turbilhão de emoções dentro de mim.
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Atualizado até capítulo 25
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