Nas sombras do Desconhecido.

O sol começava a se esconder atrás das colinas enquanto o grupo montava o acampamento. As árvores ao redor formavam uma cúpula natural sobre a pequena clareira à beira do rio, onde risadas ecoavam. A barraca de Seraphin e Ayumi era a maior, com espaço suficiente para ambas se acomodarem confortavelmente. Tsubaki e os outros estavam ocupados levantando as suas, amarrando as cordas e ajustando as estacas no solo com uma concentração quase cômica.

Seraphin observava tudo em silêncio, sentada em uma pedra próxima ao rio, deixando seus pensamentos vagarem. A água cristalina refletia o céu alaranjado, criando um espetáculo de cores vivas que contrastava com a inquietação em seu peito. Havia algo que ela não conseguia tirar da cabeça desde a conversa anterior com Tsubaki. As coordenadas. O mistério envolvendo aquele local. Tudo aquilo parecia conectado a algo maior, algo que ela não conseguia compreender completamente.

– Seraphin, me ajuda com isso? – Tsubaki chamou sua atenção, levantando uma das cordas da barraca enquanto tentava prendê-la em uma árvore próxima. Ele lhe lançou um sorriso amigável, aquele sorriso que sempre conseguia tirar seus pensamentos mais obscuros, ao menos por um momento.

Ela se levantou e foi até ele, ajudando a fixar a corda. Suas mãos se encontraram brevemente, e um calor familiar percorreu seu corpo. Enquanto finalizavam a montagem, ela percebeu que a tensão entre eles ainda estava ali, uma tensão que ambos estavam evitando discutir. Quando as barracas finalmente estavam de pé, todos se reuniram em volta de uma fogueira improvisada, rindo e contando histórias, mas Seraphin sabia que não poderia continuar ignorando o que estava dentro dela.

Depois de algum tempo, quando a conversa ao redor da fogueira diminuiu, e os outros estavam distraídos com seus próprios pensamentos, ela se virou para Tsubaki, que estava sentado ao seu lado, encarando as chamas dançantes.

– Tsubaki... – Ela hesitou por um momento, sentindo seu coração acelerar. – Sobre as coordenadas... você sabe onde fica?

Ele olhou para ela, surpreso por ela tocar no assunto, mas não evitou o olhar. Seus olhos, sempre tão cheios de vida, pareciam mais sombrios agora.

– Não aqui – ele respondeu, sua voz baixa. Ele olhou ao redor, como se estivesse preocupado com quem poderia ouvi-los, apesar de estarem afastados dos outros. – Há uma casa na árvore, não muito longe daqui. Podemos conversar lá, em paz.

Seraphin assentiu, sentindo uma ansiedade silenciosa crescer dentro dela. Eles se levantaram discretamente, saindo da clareira enquanto as risadas e conversas dos outros membros do grupo se perdiam atrás deles. A floresta ao redor estava envolta em sombras cada vez mais densas à medida que a luz do sol desaparecia por completo, e Seraphin não pôde deixar de sentir um arrepio ao atravessar os galhos que rangiam com a brisa da noite.

Finalmente, a casa na árvore apareceu à frente deles, uma construção simples de madeira elevada entre dois troncos robustos. Subiram pela escada improvisada e, ao chegarem ao topo, Seraphin percebeu que o espaço ali era pequeno, mas acolhedor. De lá, podiam ver o acampamento ao longe, a fogueira brilhando como uma estrela distante.

Tsubaki se sentou no chão de madeira e gesticulou para que ela se sentasse ao lado dele. Por um momento, nenhum dos dois disse nada. O silêncio entre eles era denso, mas não desconfortável. Era como se ambos estivessem reunindo coragem para enfrentar algo que sabiam ser maior do que poderiam lidar.

– As coordenadas... – Tsubaki começou, sua voz carregada de um peso que Seraphin não havia notado antes. Ele estava sentado ao lado dela na casa da árvore, o olhar fixo no horizonte. – Elas levam diretamente para a Área 51. Eu não sei o que vamos fazer, Seraphin. Tentar entrar lá é extremamente perigoso. As coordenadas indicam um lugar atrás da base, algo que ninguém deveria saber.

Enquanto Tsubaki falava, Seraphin sentiu uma pressão crescente em sua mente. Era como se as palavras dele estivessem abrindo portas que ela havia mantido trancadas por muito tempo. Pequenos fragmentos de imagens começaram a surgir em sua cabeça, mas eram distantes, fora de alcance, como sombras se movendo nas profundezas de sua memória. Tentava agarrar essas lembranças, mas elas escorregavam por entre seus dedos, deixando apenas sensações vagas.

– Eu entendo, Tsubaki – ela finalmente disse, sua voz soando mais fraca do que pretendia. – Mas eu sinto que preciso ir lá. Não sei explicar, é como se... algo estivesse me chamando.

Ela fez uma pausa, tentando reunir seus pensamentos, mas sua mente estava cheia de ruídos. Lembranças confusas, palavras desconexas, rostos que ela não conseguia identificar.

– Eu nem sei ao certo quem sou... – continuou Seraphin, mais para si mesma do que para ele. – Não sei sobre a minha família, meu passado... Eu quero bancar a heroína, mas será que estou sendo impulsiva?

A breve lembrança de seu pai piscou em sua mente, como uma chama vacilante. Ele parecia distante, mas suas palavras eram claras:

– Não seja igual ao louco. Aja com razão. A temperança e a justiça estão no seu caminho. Seja a Imperatriz, mas não governe um reino perdido.

Essas palavras ressoaram em Seraphin com uma força inesperada. O que seu pai queria dizer com isso? Ele estava avisando-a contra a imprudência, contra se perder em uma busca sem fim por algo que talvez nunca fosse encontrar?

Ela respirou fundo, tentando acalmar o turbilhão de memórias dentro de si.

Tsubaki observava-a em silêncio, percebendo a luta interna que ela enfrentava. Ele se inclinou um pouco mais para perto dela, sua presença tranquila trazendo um pequeno consolo.

– Seraphin, não precisamos tomar decisões precipitadas – disse ele, sua voz firme mas suave. – Vamos pensar nisso com cuidado. Se realmente for algo importante, nós iremos, mas com cautela.

Seraphin assentiu, mas algo dentro dela ainda se agitava. Ela sentia que as respostas estavam lá, no fim daquelas coordenadas. Mesmo assim, Tsubaki tinha razão. Não era sensato mergulhar de cabeça sem um plano.

Enquanto eles se sentavam ali, em silêncio, o vento balançava suavemente a casa na árvore, e o som das folhas farfalhando ao redor criava uma atmosfera quase mágica. No entanto, essa paz era apenas superficial. Sob a superfície, algo se movia.

Seraphin olhou para Tsubaki, pronta para mudar de assunto, mas então, algo chamou sua atenção. Uma sombra, um movimento na floresta abaixo deles. Ela congelou, seus olhos fixos no ponto onde havia visto algo – ou alguém.

– Você viu isso? – ela sussurrou, sua voz quase inaudível.

Tsubaki seguiu o olhar dela, mas não viu nada além da escuridão das árvores.

– O quê? – perguntou ele, franzindo a testa.

– Ali... entre as árvores. Eu juro que vi algo.

Tsubaki se levantou lentamente, o corpo tenso. Seraphin o seguiu, seu coração acelerado. Eles não estavam sozinhos ali. Algo – ou alguém – estava observando.

O silêncio ao redor deles de repente pareceu muito mais pesado, como se o próprio ar estivesse conspirando para esconder a presença daquilo que os espreitava. O que quer que fosse, estava se movendo nas sombras, atento a cada movimento deles.

– Vamos sair daqui – Tsubaki disse, sua voz firme mas baixa. – Devagar.

Seraphin assentiu, sentindo uma onda de medo subir por sua espinha. Eles começaram a descer da casa na árvore, cada passo cuidadoso, tentando não fazer barulho. Mas enquanto desciam, Seraphin sentiu uma pressão familiar em sua mente, algo que estava forçando seu caminho para dentro, memórias que ela não estava pronta para enfrentar.

Quando seus pés tocaram o chão, o mundo ao seu redor girou violentamente. As imagens vieram com força, invadindo sua mente como uma tempestade furiosa. Ela tentou se agarrar a algo, a qualquer coisa que pudesse ancorá-la à realidade, mas as memórias eram esmagadoras.

Visões de um lugar sombrio, com luzes brilhantes e figuras estranhas. Vozes que ela não reconhecia, mas que falavam com uma urgência aterrorizante. E entre tudo isso, uma figura que parecia familiar, mas cuja face ela não conseguia ver claramente.

Seraphin tropeçou, tentando desesperadamente afastar as imagens, mas era tarde demais. Seu corpo fraquejou, e a escuridão tomou conta mais uma vez.

O último som que ouviu antes de desmaiar foi o grito abafado de Tsubaki, chamando seu nome.

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