O jantar havia terminado, e agora estávamos sentados juntos na cama. Seraphin, finalmente livre do vestido apertado que usara mais cedo, vestia uma das minhas camisetas que lhe caía larga e um short de pijama. Ela se queixava de uma dor insistente no abdômen, e foi então que uma lembrança gelada me atingiu: a ferida que ela mencionara mais cedo, à qual eu não tinha dado a devida atenção. A preocupação me fez levantar num impulso. Precisava agir rápido.
Fui direto ao armário, onde o kit de primeiros socorros estava guardado, e o encontrei com uma precisão quase instintiva. Voltei para o quarto rapidamente, o silêncio da casa parecendo intensificar o som dos meus passos apressados. Ajoelhei-me ao lado dela e levantei sua camisa para ter melhor acesso a ferida, os dedos ligeiramente trêmulos ao abrir o kit. Comecei limpando a área afetada com soro fisiológico, o algodão deslizando suavemente sobre a pele enquanto eu me concentrava em cada detalhe, como se qualquer deslize pudesse ter consequências irreversíveis. O quarto estava mergulhado em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo ruído leve do vento lá fora, que parecia sussurrar segredos ao passar pelas frestas da janela.
Com movimentos cuidadosos, apliquei um antisséptico, o cheiro forte invadindo o ambiente como um lembrete pungente da gravidade da situação. Sequei a ferida com um pano limpo, observando o corte com atenção. Embora não parecesse tão profundo agora, ainda exalava uma sensação de perigo iminente, como se estivesse prestes a revelar algo escondido. Com mãos ainda um pouco trêmulas, passei uma pomada ao redor e sobre o corte, sentindo a tensão em cada gesto. Coloquei uma gaze estéril sobre a ferida, finalizando com esparadrapo. Tomei cuidado para não apertar demais, permitindo que a circulação fluísse adequadamente e que a cicatrização pudesse ocorrer sem impedimentos.
— Está se sentindo melhor? — perguntei, tentando disfarçar a incerteza que ainda se agarrava à minha voz.
— Onde você aprendeu a fazer tudo isso? — Seraphin perguntou, seus olhos grandes e curiosos fixos em mim, como se tentasse desvendar algo além das minhas palavras.
— Meu pai era enfermeiro num hospital local. Sempre me interessei por isso, e ele me ensinou o básico — respondi, enquanto abaixava a blusa dela e guardava o kit, meus movimentos mais calmos, mas ainda impregnados de uma leve tensão.
— O que aconteceu com ele? — ela continuou, a intensidade em seu olhar aumentando, como se soubesse que a resposta traria à tona algo profundo.
Hesitei, a lembrança emergindo como um espectro do passado. — Ele faleceu há cinco anos. Não gosto muito de falar sobre isso — disse, tentando manter a voz neutra, mas sentindo o peso das palavras enquanto me sentava ao seu lado na cama.
— Desculpa, não queria te incomodar — Seraphin murmurou, sua mão tocando a minha de forma hesitante, como se tentasse oferecer conforto, mas sem saber exatamente como.
Soltei a mão dela gentilmente, a proximidade repentina fazendo meu coração bater um pouco mais rápido. — Mudando de assunto... Você encontrou mais alguma coisa naquela bolsa? — perguntei, tentando afastar as sombras do passado que ameaçavam tomar conta do momento.
— Para ser sincera, nem procurei direito, mas trouxe-a para que possamos ver juntos — respondeu ela, levantando-se da cama com uma suavidade que contrastava com a tensão que pairava no ar. Ela pegou a pequena mochila que estava no canto do quarto, um objeto agora envolto em um mistério palpável.
Meus olhos acompanharam cada movimento enquanto abria a mochila. O som dos zíperes se tornou inquietante, como se cada clique estivesse abrindo uma porta para algo desconhecido. Quando finalmente despejei o conteúdo na cama, meu coração começou a bater mais forte. Papéis amarelados, um caderno desgastado, uma foto antiga... Cada item que caía parecia carregar consigo uma carga de significado sinistro. Uma pressão começou a se formar em minha cabeça, uma sensação de que algo estava prestes a ser revelado, algo que eu não estava preparada para enfrentar.
Minha visão ficou turva por um momento, e uma dor aguda começou a latejar em minha têmpora, como se estivesse à beira de uma revelação. Foi então que senti as mãos de Tsubaki nos meus ombros, sua presença reconfortante me ancorando de volta à realidade. Respirei fundo, lutando para controlar o turbilhão de emoções que ameaçava me dominar. Olhei para os itens espalhados na cama, ciente de que em meio a eles estava uma peça crucial para um quebra-cabeça que ainda não compreendia, mas que, de alguma forma, sabia que precisava resolver antes que fosse tarde demais.
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Satsuki Kitaoji
Deixa saudade.
2024-08-15
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