Conexões ocultas.

O vazio ao meu redor era quase sufocante. As sombras dançavam ao redor da fogueira como se estivessem vivas, mas uma calma estranha envolvia o cenário. A mulher à minha frente parecia saudar-me com um olhar que carregava séculos de histórias e segredos. Quando ela sussurrou meu nome, algo em mim se partiu, como se uma muralha dentro da minha mente tivesse sido derrubada. De repente, memórias vagas começaram a se reunir, pequenos fragmentos de uma vida que eu havia esquecido.

Ela me envolveu em um abraço, e eu, ainda confusa, retribuí. Seu toque era reconfortante, como se pudesse dissipar a dor que eu não sabia estar carregando. Olhei para ela com mais atenção, tentando reconhecer os traços de seu rosto. Então, como um raio de luz atravessando a escuridão, as lembranças vieram. A visão dela tornou-se nítida, real. Ela era a minha tia.

Mas como eu poderia ter me esquecido de alguém tão importante?

Sua mão, quente e firme, tocou suavemente minha testa. De repente, um mar de imagens inundou minha mente – momentos compartilhados, risadas, um passado que eu havia deixado para trás. Era como se, por um breve instante, tudo fizesse sentido. E então, ela falou. Sua voz estava carregada de urgência, mas o som parecia distante, ecoando dentro de mim.

– Seraphin... – começou ela, mas as palavras se tornaram cada vez mais inaudíveis, como se o próprio ar estivesse conspirando contra mim para silenciar o que ela precisava dizer. Suas feições mudavam, se desfazendo como areia levada pelo vento. – Você precisa... – Suas palavras eram cortadas, e eu tentei me aproximar, desesperada para ouvir o que ela estava tentando me contar.

Mas então, o vazio ao meu redor começou a se desfazer. O som do crepitar do fogo se apagou, substituído por sussurros e murmúrios distantes. A luz ao redor dela diminuía rapidamente, e a escuridão começou a devorar o cenário. Tentei chamá-la, estendendo a mão para segurá-la, mas antes que pudesse alcançá-la, fui arrancada daquele lugar.

O mundo voltou de repente. Meus olhos se abriram, e a luz crua da sala invadiu minhas retinas. Estava deitada no sofá, envolta em cobertores, com o som de vozes familiares ao meu redor. Minha cabeça latejava, e minha visão ainda estava embaçada. Mas eu conseguia ouvir claramente.

– Ela acordou! – A voz de Ayumi estava repleta de alívio. Sua mão tocou suavemente meu braço, como se temesse que eu fosse desvanecer novamente.

Minha mente tentava desesperadamente processar o que havia acontecido. O vazio, minha tia, suas palavras não ditas. Mas tudo parecia tão distante agora, quase como um sonho. Esforcei-me para me sentar, o peso do mundo parecendo mais intenso do que nunca.

– Está tudo bem, Seraphin? – Ayumi perguntou, seu olhar preocupado me perfurando. Ao seu lado, Tsubaki me observava com uma mistura de medo e alívio. Ele parecia estar à beira de uma pergunta, mas se conteve.

Eu assenti lentamente, mas as palavras não vinham. Algo dentro de mim havia mudado, algo profundo e intrínseco, mas não sabia dizer o quê.

O dia passou rapidamente. O almoço com a família de Tsubaki foi um desafio para mim, não apenas por tentar me adaptar ao novo ambiente, mas principalmente por causa da incessante lembrança daquele vazio sombrio e das imagens desconexas que assombravam a minha mente. As conversas ao redor da mesa pareciam distantes, e eu mal consegui comer. Por outro lado, Tsubaki parecia se entregar completamente à refeição, saboreando cada mordida com entusiasmo.

Eu ouvi a conversa sobre acampar perto de um rio e o plano de visitar o local antes de decidir se era adequado. No carro, durante o trajeto, a sensação de desconexão persistia. Eu e Tsubaki estávamos sentados em lados opostos, separados por sua avó que estava no meio. A tensão entre nós era palpável, mas não havíamos trocado muitas palavras. Eu me perguntava se ele escondia algo de mim ou se estava apenas hesitante em falar sobre as coordenadas.

A avó de Tsubaki fez uma parada em uma loja no caminho. Compramos toalhas, comida e, para minha surpresa, um biquíni. Fiquei um pouco envergonhada, mas a avó de Tsubaki parecia feliz em me ajudar a escolher. Ela me deu uma nota de 100 dólares, e embora eu não soubesse muito sobre o valor real, parecia significativo e generoso.

Finalmente, chegamos ao local do acampamento. O lugar é incrível, com um rio tranquilo e uma área verde ao redor. A família de Tsubaki estava animada, preparando as coisas e organizando o espaço para o acampamento. Eu me sentei na margem do rio, observando as crianças correrem e brincarem na água, tentando me distrair das preocupações que ainda pesavam em minha mente.

Tsubaki se aproximou enquanto eu estava sentada, seus passos silenciosos quase não perturbando o ambiente calmo. Ele carregava uma toalha e um sorriso.

– Está se divertindo? – ele perguntou, tentando quebrar o gelo.

– Sim, está tudo ótimo – respondi, forçando um sorriso enquanto tentava relaxar.

Ele se sentou ao meu lado, e por um momento, ambos ficamos em silêncio, apenas ouvindo o som do rio e o murmúrio da família ao fundo. O sol brilhando intensamente e lançando uma luz dourada sobre a água.

– Você parece preocupada – disse ele, sua voz mais suave agora.

Olhei para ele, tentando encontrar as palavras. – É só... um pouco de confusão na minha cabeça. Muitas coisas acontecendo de uma vez.

Ele pareceu entender e, com um gesto gentil, estendeu a mão, tocando levemente a minha. – Eu sei que você tem muita coisa para processar. Se precisar de alguém para conversar, estou aqui.

A proximidade do toque causou um arrepio inesperado. Nossos olhares se encontraram, e havia uma tensão no ar, um entendimento silencioso entre nós. O momento parecia suspenso, como se o mundo ao nosso redor tivesse subitamente parado.

Tsubaki se inclinou um pouco mais perto, e por um instante, parecia que o mundo poderia ser mais simples, mais claro. Mas a realidade logo nos envolveu novamente, e a necessidade de enfrentar o que estava por vir nos chamou de volta.

– Vamos aproveitar o dia – disse ele, tentando manter o tom leve enquanto se afastava um pouco, ainda mantendo um sorriso que indicava que ele estava disposto a me apoiar.

Concordei e, apesar da confusão interna, permiti-me relaxar e aproveitar o momento. A água fria do rio e as risadas ao redor foram um alívio bem-vindo, e, enquanto a água do rio me cobria completamente, eu me permiti mergulhar no presente, mesmo que por um breve instante.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!