Possessão silenciosa.

Ao voltarmos para o acampamento, tudo parecia em ordem. A família de Tsubaki estava envolta num sono profundo, sem ter percebido nossa ausência. Ethan, exausto, agradeceu com um olhar enquanto lhe oferecíamos algo para comer e beber. Ele devorou as barras de cereal rapidamente, bebendo a água com uma intensidade que denunciava a sede de dias.

Enquanto ele comia, meus olhos se fixaram nele. Ethan era mais alto que Tsubaki, com cabelos loiros que, mesmo sujos, ainda brilhavam sob a luz fraca da lua. Seus olhos, de um azul profundo, contrastavam com o cansaço em seu rosto. O que mais me chamou atenção, no entanto, foi a sua condição física. Apesar de ter confessado que estava há dias vagando pela floresta, seu corpo parecia em forma. Ele tirou a camisa desgastada, deixando-a de lado, revelando um abdômen definido. Seus ombros largos e a musculatura bem delineada sugeriam que ele não era apenas um garoto perdido, mas alguém habituado à resistência.

Foi nesse momento que ele percebeu para onde meus olhos estavam focados. Senti o calor subir em meu rosto, uma vermelhidão que não consegui conter. Envergonhada, forcei um sorriso e virei o rosto rapidamente, tentando disfarçar a vergonha evidente. Ethan sorriu de volta, um sorriso que carregava algo mais, algo que fez meu coração bater um pouco mais rápido.

Finalmente, fomos dormir. Ethan ficou sozinho na barraca de Tsubaki, enquanto eu e Baki nos acomodamos juntos na minha barraca. Ele se ajeitou ao meu lado, e eu me permiti encará-lo por um instante antes de fechar os olhos. O som do vento e da água ao longe preenchia o ar, uma calmaria que me fez sorrir, ainda pensando no momento desconcertante com Ethan. Quando abri os olhos novamente, Tsubaki parecia estar mais perto de mim.

– Baki? – toquei suavemente seu ombro.

– Seraphin, você acha que podemos confiar no Ethan? – perguntou ele, sua voz carregada de uma desconfiança evidente.

– O tempo dirá – respondi, tentando acalmá-lo. – Não se preocupe com isso agora. Apenas descanse.

A noite passou mais rápido do que imaginei, e logo o canto dos pássaros anunciava a chegada da manhã. Acordei, sentindo o peso do cansaço se dissipar, e chamei Tsubaki. Ficamos deitados por alguns minutos, tentando reunir forças para levantar. Quando finalmente saímos da barraca, fomos surpreendidos por uma cena estranha.

Ethan já estava acordado, e para nossa surpresa, vestia roupas diferentes das da noite anterior. Uma regata branca e uma bermuda preta substituíam suas roupas sujas e rasgadas. Ele estava à vontade, rindo e conversando com a família de Tsubaki como se fossem velhos amigos. Troquei um olhar confuso com Baki, incapaz de entender o que estava acontecendo. Ethan notou nossa presença e veio até nós com um sorriso largo no rosto.

– Bom dia, Seraphin! – exclamou ele, me abraçando forte e levantando-me do chão como se eu não pesasse nada.

– Ethan! – ri, surpresa com o gesto.

– Estou muito feliz por ter amigos como vocês – disse ele, colocando-me gentilmente de volta ao chão. Sua voz carregava um entusiasmo desconcertante.

Tsubaki, no entanto, não compartilhava do mesmo sentimento. Ele passou por Ethan sem disfarçar sua irritação, esbarrando nele de propósito.

– Não somos seus amigos – murmurou Tsubaki, a frieza em sua voz inegável.

Ethan apenas riu, sem se abalar.

– Parece que Tsubaki não está de bom humor hoje – disse ele, se virando para mim com um sorriso provocador.

– Não é culpa sua... Ele só está... – tentei explicar, mas Ethan me interrompeu, sua voz assumindo um tom mais baixo e íntimo.

– Ele está com ciúmes – murmurou, se aproximando perigosamente. – Você é linda, Seraphin. Seus olhos, seus cabelos... Você é perfeita. – Suas palavras deslizaram pelo meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele. – Eu adoraria ter o prazer de sentir seus cabelos entre meus dedos enquanto você...

Minha respiração acelerou, e meu corpo se arrepiou involuntariamente. Antes que pudesse processar o que ele estava sugerindo, a voz de Tsubaki ecoou à distância.

– Seraphin!

Desviei minha atenção de Ethan, o coração ainda martelando no peito.

– Desculpa – murmurei, me afastando de Ethan e correndo na direção de Tsubaki.

– Você está agindo como uma louca! – Tsubaki começou antes mesmo que eu podesse perguntar o que ele queria. – Não sabemos nada sobre esse cara, e de repente ele aparece assim, como se fosse um príncipe encantado. Isso não é normal!

– Por que você não pode ser mais amigável? – retruquei, tentando acalmá-lo. – Ele seguiu a gente, ele está perdido... Você precisa dar uma chance a ele.

– Desculpa, Seraphin, mas não tenho o coração mole como o seu. Acredite em quem quiser. Eu estou saindo – disse ele, virando-se e caminhando com raiva em direção à floresta.

– Tsubaki! Onde você vai?! – gritei, mas ele não respondeu. Apenas continuou andando, deixando-me sozinha.

Eu me sentei numa pedra à beira do rio, tentando organizar meus pensamentos. Ethan se aproximou em silêncio, sentando-se ao meu lado e apoiando a cabeça em meu ombro.

– O que acha de um mergulho refrescante? – sugeriu ele, sua voz suave e convidativa.

Aceitei a oferta, tentando afastar as preocupações da minha mente. Coloquei o biquíni que a avó de Tsubaki havia me dado e voltei para o rio, onde Ethan me esperava, observando-me de longe. Entramos juntos na água fria, e por um momento, tudo parecia normal. Rimos, jogando água um no outro, mas logo o clima mudou.

Ethan se aproximou de mim novamente, seus olhos agora escuros, sem o brilho azul que eu havia notado antes.

– Ethan... Seus olhos... – sussurrei, desconfiada.

Antes que pudesse reagir, senti suas mãos pesadas apertando meus ombros, com força suficiente para causar dor.

– Ethan, você está me machucando! – tentei afastá-lo, mas sua força era descomunal.

Ele me encarou, um sorriso cruel se formando em seus lábios.

– Pensei em te matar naquela floresta, sabia? Mas você estava tão linda... – Ele riu baixinho, sua voz carregada de malícia. – É tão fácil manipular você. Um pouco de atenção e você já se derrete.

As palavras dele ecoaram em minha mente enquanto ele me empurrava para debaixo d’água. Lutei, mas era inútil. Senti a água invadir meus pulmões, e o mundo começou a escurecer. Antes de perder a consciência, vi um símbolo marcado em sua barriga, um "V" que brilhou por um breve instante.

Até pensei em chamar alguém da família de Tsubaki, mas eles haviam saído a pouco tempo. Tudo poderia ser diferente, porém já sinto o vazio me puxando novamente, tenho medo de ir e não voltar. No final das contas eu sempre vou ser a louca que meu pai me implorava para não ser, ele sempre falou mais no sentido mágico das cartas de tarot, do que no sentido literal...

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!