Entre a Verdade e o Desconhecido.

Tsubaki olhou para Seraphin enquanto ela desaparecia pela porta do banheiro, seus pensamentos embaralhados em um turbilhão de emoções conflitantes. Ele decidiu aproveitar o tempo para buscar algo que ela pudesse vestir, saindo do quarto em direção ao guarda-roupa da tia. O garoto se sentia perdido, como se estivesse preso em uma rede de mentiras que ele mesmo havia criado.

– Vou pegar algo da minha tia para você vestir depois que sair do banho – disse ele antes de sair do quarto, a voz carregada de uma preocupação que ele não conseguia esconder.

Seraphin, sozinha no banheiro, finalmente se permitiu relaxar. Porém, assim que tirou o vestido, um arrepio percorreu sua espinha ao notar um corte fino, mas profundo, em sua barriga. O que teria causado aquilo? Ela não lembrava de nada que pudesse explicar a ferida. O pânico começou a se instalar, e, antes que pudesse se conter, chamou por Tsubaki.

– Está tudo bem? – Tsubaki perguntou ao ouvir o grito de Seraphin, a preocupação evidente em cada palavra.

– Tem um corte na minha barriga! – gritou Seraphin, a voz ecoando pelas paredes do pequeno banheiro. Ela queria entender, queria respostas, mas só havia mais dúvidas.

– Tome um banho e, quando sair, farei um curativo – respondeu Tsubaki, tentando manter a calma, mas sentindo um nó apertar-se em seu estômago. Ele já começava a imaginar o que poderia ter causado aquele ferimento, embora todas as hipóteses lhe parecessem improváveis e assustadoras.

Enquanto a água do chuveiro corria, Tsubaki esperava na sala, lutando contra a ansiedade crescente. Sua família já havia retornado, e a única desculpa que lhe veio à mente foi apresentar Seraphin como sua namorada. Ele sabia que essa mentira poderia complicar tudo ainda mais, mas não viu outra saída. Tsubaki sempre fora um garoto tímido, enclausurado em seu mundo de livros e computadores. Sua mãe frequentemente comentava que ele era o tipo de pessoa que teria dificuldades em manter um relacionamento – talvez por ser um nerd, ou por passar horas trancado em seu quarto, imerso em seus próprios pensamentos. Ele acreditava que ambas as razões eram igualmente válidas.

O tempo parecia arrastar-se enquanto ele esperava por Seraphin, cada minuto uma eternidade. Para alguém que havia esquecido o próprio nome, ela parecia se lembrar bem de outras coisas, o que era peculiar e um tanto desconcertante. Parecia que sua mente havia apagado apenas o que era essencial para definir sua identidade. Tsubaki mal teve tempo de processar esses pensamentos quando ouviu passos e, ao levantar a cabeça, viu Seraphin.

Ela estava deslumbrante, mas antes que Tsubaki pudesse articular qualquer elogio, Seraphin falou com uma frustração perceptível.

– Que vestido apertado! E você esperava que eu vestisse isso sem nada por baixo? – a irritação em sua voz era clara enquanto ela se sentava ao lado dele, cruzando os braços em sinal de desaprovação.

– Antes que pergunte, eu vesti uma cueca sua – Seraphin declarou, acomodando-se na cadeira com uma naturalidade quase provocadora.

Tsubaki não pôde deixar de sorrir com a sinceridade dela, e respondeu com leveza:

– Uma preta, né? Menos mal. Minha tia me deu ela hoje – disse, pegando seu celular e ligando para alguém, enquanto se retirava da mesa, tentando desviar o foco da conversa para algo menos embaraçoso.

O desconforto da situação a fez considerar falar algo, mas antes que pudesse agir, Tsubaki levantou-se abruptamente e dirigiu-se à sala, deixando-a ali, sem respostas. Logo, os familiares dele começaram a se reunir ao redor da mesa, e a mãe de Tsubaki tomou a iniciativa de iniciar um interrogatório, enchendo Seraphin de perguntas que ela não sabia como responder.

– Então, Seraphin, quantos anos você tem? – perguntou a mãe de Tsubaki, inclinando-se sobre a mesa com um olhar inquisitivo que parecia atravessar a jovem.

Seraphin hesitou por um momento, seus olhos vagando pelo ambiente em busca de algo que pudesse ajudá-la. Foi então que avistou um calendário, onde o número 18 estava destacado.

– Eu tenho... – ela começou, tentando reunir confiança. – Eu tenho 18 anos – completou, com a esperança de que aquela resposta satisfizesse a curiosidade da mulher.

A mãe de Tsubaki observou Seraphin por um instante, avaliando cada detalhe de sua resposta.

– Uhm, e em que escola você estuda? – perguntou, servindo a comida com a mesma precisão com que analisava as palavras da jovem.

Seraphin abriu a boca para responder, mas sua mente estava em branco. A tensão aumentava a cada segundo de silêncio. Felizmente, antes que pudesse dizer algo inconsistente, Tsubaki entrou na sala de jantar, percebendo a situação desconfortável.

– Mãe, acho que já está bom de perguntas – disse Tsubaki, sentando-se ao lado de Seraphin e apoiando a cabeça em seu ombro, em um gesto protetor.

A mãe de Tsubaki, no entanto, não estava convencida.

– Vocês já se beijaram? – perguntou, sua voz carregada de uma suspeita que deixou Seraphin desconfortável

– QUÊ? – Seraphin exclamou tão rápido que quase se engasgou. Sua reação foi tão espontânea quanto honesta.

– Ué, vocês não são namorados? – A mãe de Tsubaki levantou uma sobrancelha, questionando-os com uma franqueza desconcertante.

– Sim... mas... – Seraphin tentou responder, mas a confusão em sua mente impediu que qualquer frase coerente saísse de sua boca.

– Tsubaki Morningstar, não minta para mim. Quem é essa menina? – A mãe de Tsubaki levantou-se subitamente, segurando o braço do filho com firmeza, exigindo respostas.

– Calma, eu posso explicar – Tsubaki disse, sua voz revelando um pânico que ele lutava para esconder. Ele correu atrás da mãe, tentando acalmar a situação.

Seraphin, ainda sem saber como reagir, levantou-se lentamente e tentou intervir.

– Olha, senhora Morningstar... você realmente não precisa saber disso – falou Seraphin, encarando a mulher com uma determinação que surpreendeu até a si mesma.

A mãe de Tsubaki pareceu refletir por um momento, antes de suspirar e recuar.

– Ah, perdão, não sei onde estava com a cabeça. Desculpa, querida, o dia foi puxado e acabei descontando em vocês – disse ela, sua voz agora mais suave, enquanto se afastava, deixando os dois jovens sozinhos.

O peso da situação desabou sobre Seraphin, que encostou-se na parede, deslizando até se sentar no chão. Sua mente estava cheia de dúvidas e incertezas.

– Desculpa, Tsubaki, estou causando muitos problemas. Eu deveria ir embora... – suas palavras saíram com dificuldade, enquanto ela lutava para manter a compostura.

Tsubaki não pôde evitar a sensação de culpa que tomou conta de si. Ele se sentou ao lado dela, segurando sua mão com gentileza.

– Isso não é sua culpa, tá bom? Eu deveria ter contado a verdade desde o início. Será que, quando essas férias terminarem, você já terá se lembrado de algo? – Tsubaki perguntou, sua voz carregada de uma preocupação sincera.

– Eu não sei bem... É como se houvesse um buraco negro na minha cabeça... Eu simplesmente não consigo lembrar quem eu era – respondeu Seraphin, enquanto as lágrimas finalmente romperam a barreira de sua resistência. Ela escondeu o rosto nas mãos, tentando evitar que Tsubaki visse seu choro, mas as emoções eram fortes demais para serem contidas.

Tsubaki, sem saber o que mais poderia fazer, apenas a envolveu em um abraço reconfortante, permitindo que ela chorasse em seus braços. Ele queria acreditar que tudo voltaria ao normal, mas a incerteza sobre o futuro era esmagadora. Com apenas duas semanas restantes antes das aulas voltarem, ele sabia que não poderia manter Seraphin em sua casa por muito mais tempo. E o retorno à escola era inevitável. Manter uma desconhecida em sua casa era algo que sua mãe jamais permitiria, e Tsubaki não tinha ideia de como lidar com a situação.

A única certeza que ele tinha era que Seraphin precisava de ajuda, e ele estava determinado a encontrar uma maneira de auxiliá-la, não importando o quão difícil isso pudesse ser.

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