Runa da Besta

— Você! — Eleanor exclamou, com raiva na voz. — Como ousa me chamar aqui, depois de tudo? Vida confortável! Vida confortável o cara... — Sua indignação era palpável, mas ela foi interrompida antes que pudesse proferir mais.

— Olhe a boca, minha criança, eu ainda sou uma deusa... — a Deusa a repreendeu, com um tom firme, mas não desprovido de ternura.

— Você disse que me daria beleza... Ok, você deu, mas por que me deu cabelos escuros? Por que não me avisou que nesse mundo isso poderia me condenar a uma vida amaldiçoada? — Eleanor questionava, sem perceber a aparência radiante da própria Deusa diante dela.

— Está me dizendo que, para ser considerada bonita, eu preciso ter cabelos claros como os da princesa? Ou que simplesmente o mal deve sempre ser visto como feio? Minha criança, você tem tanto a aprender. Nem tudo que é mal precisa ser feio, e nem tudo que é bom precisa ser bonito. Há tantas nuances nesse mundo que não são compreendidas. O preconceito de meus filhos muitas vezes os faz acreditar que as jóias mais belas são aquelas mais polidas, que mais brilham, esquecendo que elas vêm de rochas duras e feias por fora, mas que guardam em seu interior o mais belo diamante. A beleza que eu te prometi vai muito além da aparência — a Deusa disse, com uma voz suave, enquanto se aproximava de Eleanor e acariciava seus cabelos. — Isso foi uma artimanha do meu irmão mais novo, que fez com que minhas crianças acreditassem nisso, apenas para chamar minha atenção.

— Mas e as magículas? Eu não sabia que poderia ser considerada uma bruxa... Não é perigoso para mim viver assim? — Eleanor continuava a questionar, a preocupação transparecendo em seu olhar.

— Querida Eleanor... O mundo de onde você veio é repleto de mulheres que são escravas do preconceito de sua sociedade. Era visível a existência desse preconceito, mas vocês tinham mais liberdade do que minhas filhas neste mundo. Se eu te dei o poder infinito sobre as magículas, foi não apenas para que você tivesse força para se proteger, mas também para que pudesse proteger minhas filhas e ensiná-las que elas também podem lutar... Não é assim que você escrevia sobre todas as suas personagens em suas histórias? Mulheres fortes, capazes de lutar sozinhas? — ela questionou, com um sorriso encorajador.

— Mas por que você não muda isso? Você é uma deusa! Você pode tudo! — Eleanor ainda não compreendia por que a Deusa realizava essas coisas.

— Ensinar aos filhos significa que um pai não deve intervir sempre nas escolhas que eles fazem. Devemos mostrar o caminho, mas o livre-arbítrio é de vocês para decidirem e arcar com as consequências de suas escolhas. Mesmo que isso signifique que eu precise usar meios indiretos para mostrar a vocês o caminho, caso se percam, uma mãe nunca abandonará seus filhos, mas também não tomará decisões por eles a vida toda... — a Deusa explicou, com um olhar sábio.

— Acho que começo a entender, mas por que eu? — Eleanor dizia, com os olhos cheios de lágrimas.

— Porque você merece uma história diferente da que viveu, um verdadeiro conto de fadas, onde você é a heroína... Mas eu a trouxe aqui por um motivo mais profundo. — A Deusa se afastou, sua presença ainda radiante. — Meu irmão mais novo escondeu sua presença de mim. Assim como eu a escolhi para este mundo, ele escolheu alguém para este reino: a santa do reino de Everhart. Ela está sob os cuidados do meu irmão, e embora a santa não utilize magícula pura, mas sim magícula negra, preciso que você descubra o que ela e meu irmão têm planejado. Não posso intervir diretamente, ou meu irmão poderá se voltar contra nossa criação. Por isso, o ovo que o Duque lhe deu deve ser alimentado com sua magícula pura. Quando houver a oportunidade, você deve alimentá-lo também com a magícula negra da santa. Quando ele estiver bem alimentado, eclodirá, e nascerá a chave para deter as más intenções do meu irmão. Sobre o Duque, dê-lhe esta pedra rúnica; selarei nele uma runa que meu irmão criou para aqueles que não podem usar magícula devido ao contrato de sangue com os dragões. Assim, o Duque poderá usar magícula, mas ele deve treinar, pois no início, usar magícula vai doer muito. Será como ser queimado pelo fogo de seus próprios dragões, onde sua marca lutará contra a runa.

— Deusa... O que são os dragões? Digo, eu sei que eles são bestas aladas, mas por que são os mais fortes, e por que o rei quer tanto eles? — ela perguntou, curiosa.

— Dragões foram criados a partir do nosso sangue; são como os mascotes dos deuses. No entanto, eles viviam muito solitários, pois precisavam desempenhar o nosso trabalho divino. Por esse motivo, decidimos deixá-los na terra, para que pudessem criar um vínculo com nossos filhos. Contudo, alguns deles não possuem um coração puro o suficiente para selar um contrato de sangue com os humanos. Por isso, ter o poder de um dragão é como ter um terço do poder de um deus... Caso esteja curiosa, eu precisei diminuir seu tamanho, afinal, eles não caberiam na terra, pois foram feitos para que nós pudéssemos montá-los. — A Deusa detalhou, com sua voz cheia de sabedoria e amor.

— Farei o possível, mas se houver um próximo encontro, por favor, me dê uma missão mais leve... — Eleanor disse, seu tom quase pidão, como se estivesse implorando por um alívio em meio ao peso das responsabilidades que a aguardavam. — Acho que é melhor voltar, o Duque deve estar preocupado com meu desmaio... A propósito, Deusa... não foi tão ruim ter conhecido o Duque, obrigada...

Assim que Eleanor terminou de agradecer, um sorriso radiante se formou nos lábios da Deusa. Com um gesto sutil e misterioso, ela sussurrou algumas palavras que Eleanor não conseguiu ouvir claramente, mas pôde ver a Deusa piscar para ela antes que sua alma retornasse com força ao seu corpo. Num movimento rápido, Eleanor se levantou da cama, ainda atordoada, e, ao olhar ao redor, avistou o Duque sentado em uma cadeira ao lado, observando-a com um olhar de preocupação.

Ele se aproximou da cama, e, com um toque delicado, acariciou o rosto dela, como se quisesse certificar-se de que ela estava verdadeiramente ali.

— Eleanor... Meu Deus! Você finalmente acordou! Estive tão preocupado! Você desmaiou sem motivo aparente, isso me deixou em estado de angústia! Será que a viagem a afetou de alguma forma? — Lucien perguntou, a ansiedade evidente em sua voz.

— Quantas horas se passaram desde que eu desmaiei? Eu ainda queria ir à casa do Barão... — Eleanor murmurou, pensativa, perdida em suas reflexões.

— Horas? Você desmaiou há apenas vinte minutos. — Lucien respondeu, tentando manter a calma.

— Então o tempo é diferente aqui... Parecia que estávamos conversando há horas... — ela disse para si mesma, tentando processar a estranha experiência que acabara de viver.

— Devo chamar um médico? — O Duque perguntou, percebendo que Eleanor parecia um pouco confusa.

— Perdão, deixe-me explicar melhor... A Deusa me chamou novamente, e ela me pediu para lhe entregar isso... — Eleanor disse, ainda sentindo a pedra rúnica em sua mão esquerda, como se fosse uma extensão de sua própria essência.

— O que é isso? Por que está me dando essa pedra...? — ele perguntou, sua confusão evidente.

— A Deusa me pediu algo, mas não posso entrar em detalhes agora. Ela disse que isso te devolverá a capacidade de usar magícula. Você precisa extrair a energia da pedra rúnica dentro de você, mas tem mais uma coisa... — ela disse, colocando os pés para fora da cama, preparando-se para se levantar. — Você deve treinar seu controle de magícula intensamente, porque, no início, sua marca da besta vai lutar contra a runa. Você sentirá como se o próprio fogo de seus dragões estivesse o queimando por dentro. Será doloroso a ponto de você desejar não ter esse poder...

Lucien parecia pensativo, como se aquelas informações fossem um fardo pesado demais para carregar de uma só vez. No entanto, ao olhar para Eleanor, sua expressão mudou, como se toda a sua determinação tivesse sido renovada. Ele pegou a pedra das mãos dela e sorriu, com um brilho de esperança em seus olhos.

— Se a Deusa pediu que você me entregasse isso, ela também deve ter uma missão para mim. Vou aceitar e me esforçar. Eu irei protegê-la, Eleanor, eu prometo... — ele disse, inclinando-se para beijá-la suavemente na testa, um gesto que transmitia seu carinho por ela.

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Ana Regina Fernandes Raposo

Ana Regina Fernandes Raposo

PARABÉNS AUTORA TÁ EMOCIONANTE. BRILHANTE, CRIATIVA SEM SER DEMASIADO.

2024-08-21

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