Que dia inesperado, não poderia ter imaginado nada do que aconteceu. Encontrar o Estefano, saber que ele trabalhava no mesmo escritório que a Carol, e ele ainda se oferecer para ficar com o caso judicial da minha mãe. Eu ainda estava muito mal por ele ter me ignorado e se distanciado subitamente. Pensei em nunca perdoá-lo e nunca achei que fosse preciso porque não imaginava que nos encontraríamos novamente.
Tentei resfriar as ideias e não pensar em nada. Eu me sentia tão cansada. Não devia ter andado tanto, minha perna doía muito. Estava meio zonza, fui logo me deitado e adormecendo ainda bem cedo e só acordei no dia seguinte. Minha mãe estava animada porque o Estefano pegou o processo dela. Ela ligou no escritório, contra a minha vontade e pegou o número dele. Inclusive, conversaram bastante e marcaram uma reunião.
Chegado o dia, ela insistiu para que eu a acompanhasse, mas eu recusei decidida. Como desculpa, disse que estava com muita dor, e até era verdade. Por isso, minha mãe foi sozinha até o escritório. Passou quase a tarde toda, fiquei surpresa pela demora. Depois voltou para a casa toda empolgada me contando tudo o que tinha passado. Disse que estava confiante no trabalho do Estefano e ficou elogiando ele, dizendo o quanto era inteligente, responsável e preparado, que nem parecia um recém-formado.
Contou que ele perguntou de mim, queria saber se eu estava bem. Eu não dei muito interesse para essa questão. O Estefano realmente não estava para brincadeira, ele já tinha entrado com a ação judicial, já estava tudo encaminhado. No fundo do coração e muito bem escondido, eu tinha um sentimento de felicidade porque sabia da competência dele. Assim, o processo da minha mãe estava em boas mãos.
Minha mãe disse que ele passou o telefone particular e disse a ela que poderia ligar sempre que precisasse. Porém, nos dias seguintes ela queria ligar quase todo dia para saber notícias do processo e eu tinha que controlá-la porque não queria que ficasse o incomodando tanto.
Três semanas se passaram, eu pude tirar a bota ortopédica e tinha me recuperado melhor do que o esperado. Quase não sentia mais dores, estava muito bem. Resolvi sair distribuindo o meu currículo, precisava de um emprego. Recebi um chamado para um entrevista no final da tarde, tudo correu bem, achei que tinha chances de ser escolhida entre todos os outros candidatos.
Saí da entrevista muita animada e com muita fome resolvi passar em uma lanchonete, só que o lugar era bem longe da minha casa e depois que terminei de comer já estava escuro e o ônibus que me levaria de volta para casa estava demorando muito. Quando finalmente chegou, eu já estava exausta de esperar.
O percurso era muito longe da minha casa. Quando finalmente desci no ponto escuro do ônibus, senti um frio na espinha, não tinha muitas pessoas na rua. Eu fiquei com medo e segui andando até minha casa, eram apenas dez minutos de caminhada até chegar, mas, quando estava bem próxima da esquina de casa, comecei a dar passos rápidos porque me sentia ser seguida.
Olhei para trás e vi uma sombra virando a esquina a alguns metros atrás de mim. Será que tinha alguém me perseguindo ou era apenas uma impressão? Quando finalmente cheguei em casa, me senti aliviada.
No dia seguinte, recebi uma ligação do escritório em que a Carol trabalhava, pensei ser algum assunto relacionado ao processo da minha mãe e não era. Estavam me chamando para uma entrevista. Eu quase gritei de alegria. Na manhã seguinte lá estava, toda arrumada e preparada para a entrevista.
Eu tinha ligado para a Carol na noite anterior e pegado muitas dicas de como impressionar e ser contratada. Mas, quando me chamaram para a sala do entrevistador, fiquei imensamente nervosa e senti um frio na barriga. Minhas mãos tremiam de nervosismo porque eu queria muito ser aprovada.
Para a minha surpresa, ao entrar na sala o Estefano era a única pessoa lá dentro, estava sentado atrás da mesa e me olhava de forma concentrada, soltando um leve sorrisinho. Não pensei que ele faria a entrevista, talvez ele estava apenas recebendo o pessoal primeiro antes do entrevistador chegar. Então, perguntei:
– Estefano? Eu vim fazer a entrevista, onde está a pessoa que vai me entrevistar?
– Você está olhando para ela agora mesmo.
– Não é possível! Não gosto disso.
– Por favor, sente-se. – Disse apontando para a cadeira em sua frente. Me sentei e não consegui esconder a cara de decepção com aquela situação, então, disse:
– Por que você vai me entrevistar? Nos conhecemos e isso é estranho, gostaria de ser entrevistada por alguém imparcial, alguém que não me conhecesse.
– Não se preocupe, foram ordens superiores. Eu não pedi por isso e prometo que vou ser imparcial. Eu disse ao meu chefe que precisava de mais alguém na minha equipe e apresentei seu currículo dizendo que sabia do seu potencial. Então, ele me pediu para lidar com tudo sozinho, inclusive fazer a entrevista. Ele deseja que a pessoa contratada seja de confiança e alguém que eu me sinta confortável em trabalhar.
– Tudo bem, então. Agradeço por ter me indicado para a vaga. Quantas pessoas estão concorrendo?
– Só você! Não estamos em temporada de contratação, não divulgamos publicamente, ninguém sabia. Antes que o pessoal do escritório pudessem divulgar a disponibilidade da vaga ao público eu disse que conhecia alguém ideal… Alguém responsável e inteligente. Alguém que sempre tirava notas excelentes na faculdade e é bastante esforçada. Estou certo? – Senti minhas bochechas queimarem, provavelmente ficaram vermelhas, nada respondi e depois ele fez algumas perguntas como se fosse uma entrevista entre desconhecidos. Fingia não saber de nada sobre mim e eu respondia objetivamente. Depois, ele disse:
– Então, Lara, você deve ter percebido que quero muito te contratar, mas estou me esforçando para fazer uma entrevista completa. Agora, me diga… Quais são seus pontos fortes?
– Hum…
– O quê?
– Vou responder, estou pensando…
– Por favor, estou ansioso por essa resposta.
– Você não acha que já me deu algumas qualidades agora a pouco? Como inteligente, responsável e esforçada? – Ele soltou um sorrisinho discreto e prosseguiu:
– Mas, eu gostaria de te ver se esforçando para responder.
– Eu concordo com esses adjetivos, são o meu ponto forte.
– Ok, então me diga três defeitos?
– Hum…
– É difícil para você? Vai dizer que não têm nenhum? – Ele sorriu. Pareceu se divertir com aquela situação.
– Todo mundo tem defeitos.
– E quais seriam os seus? – Ele me lançou um olhar concentrado e se reclinou na cadeira, aproximando-se e esperando a minha resposta. Eu não sabia o que dizer.
– Acho que…
– Acha ou tem certeza?
– Eu… Estou dizendo…
– Por que você parece tão nervosa? Quer um copo de água?
– Não precisa, obrigada! Não estou nervosa. – Eu claramente estava e ele percebeu.
– Fique tranquila, eu quero você. – Fiquei surpresa e ele consertou a frase:
– Quer dizer… Eu quero contratar você. Então, fique calma.
– Eu tentarei deixar que os meus defeitos não prejudiquem nunca o meu trabalho.
– Ok, vou aceitar essa resposta. E então, é isso, devo te ligar amanhã caso seja contratada.
– Você tinha dito que a contratação dependia apenas de você, não me faça esperar ansiosamente até amanhã e me dê uma resposta final, por favor!
– Não devo fazer isso.
– Qual o problema?
– Ok, eu já te disse “não” alguma vez? – Ele disse parecendo se gabar e eu fiz uma careta.
– Vai dizer?
– Contratada! Você pode levar seus documentos até o RH. Você começa a trabalhar na próxima segunda.
– Obrigada! Serei uma ótima profissional, vou me esforçar ao máximo.
– Eu sei tanto disso que não vejo a hora de trabalhar com você todos os dias. – Dessa vez o sorriso que ele deu foi tão radiante e contagiante que não consegui me conter e sorrir calorosamente de volta.
Saindo de lá não conseguia conter a minha felicidade. A Carol também ficou muito feliz por mim que até saiu mais cedo do trabalho e me levou para beber em um bar próximo do escritório. Ela disse que era um lugar muito popular entre os advogados mais jovens.
Eram apenas quatro horas da tarde, mas como era sexta-feira resolvemos extravasar. E por volta das dezoito horas continuávamos bebendo e nos divertindo. O bar ficou cheio às dezenove horas. Tinham muitas pessoas de terno, imaginei que fossem os advogados que vieram ao fim do expediente.
Eu estava completamente bêbada. Não conseguia parar de dar altas risadas e estava cambaleando quando tentei me levantar. A Carol também estava muito bêbada, apesar de menos que eu. Ainda assim, ela falava tão alto para superar o barulho da música que comecei a tentar acompanhá-la. Nós chamamos atenção da mesa ao lado, por conta do nosso barulho.
De repente, a situação se inverteu e a Carol ficou mais bêbada do que eu, ela não era acostumada a beber e começou a paquerar com um rapaz. Depois de dez minutos de troca de flertes, ela me perguntou se podia ir conversar rapidamente com esse rapaz na porta do bar e eu disse que sim. Perguntou se eu ficaria bem e afirmei que ficaria. Ela saiu com ele.
Eu me sentia zonza e feliz ao mesmo tempo, estava tão bêbada, mas não queria parar de beber, queria comemorar minha contratação. Meu telefone tocava e vi que era o Daniel. Por estar muito bêbada, não me importei e atendi a ligação. Ele ficou perguntando onde eu estava e não consegui entender tudo o que dizia, a música era alta. Então, desliguei na cara dele. De repente, tive vontade de vomitar e corri para o banheiro. Passei muito mal. Eu bebi muito e sem parar, além disso, tinha muito tempo que não bebia daquele jeito. Nunca fui tolerante com álcool.
Era a primeira vez que eu passava mal após beber. Podia ser pelas bebidas fortes que misturei. Tentava me recompor e voltei para a mesa que ocupava e estavam sentados dois homens. Para piorar a situação, eu tinha deixado a minha bolsa na cadeira porque saí correndo com medo de vomitar que esqueci dela, foi um grande descuido. Estava me sentindo bem tonta e fiquei parada pensando em como recuperar a minha mesa de volta.
O bar estava lotado, não tinham mais mesas sobrando e muitas pessoas estavam em pé. Então, criei coragem de voltar ao menos para pegar a minha bolsa. Aproximei da mesa e expliquei aos homens que só tinha saído para ir ao banheiro. Mas, eles começaram a rir e debochar.
Percebendo que seria difícil lidar com eles estando tão bêbada, pedi que me devolvessem a minha bolça. Então, um dos homens respondeu: “Essa aqui? Vem aqui pegar, senta aqui do meu lado”. Eu disse que não me sentaria e fui me virar para me afastar e desequilibrei, caindo de tonta. Eu estava com um salto e zonza.
Sentindo-me envergonhada e com dificuldade em me levantar, senti uma mão me puxar e levantar, tão rápido que mal percebi que estava sendo ajudada. Era o Estefano. Ele perguntou: “Machucou?”. Eu acenei em negação e ele continuou a falar: “Quer ajuda?”. Eu contei que precisava pegar a minha bolsa e expliquei a situação. Ele disse: “Estou com um amigo sentado em uma mesa aqui perto, vou te deixar com ele até eu resolver esse problema da bolsa, ok?”
Ele me guiou até um banco ao lado do amigo que o acompanhava e pediu: “Cuida dela enquanto vou recuperar sua bolsa. Ela é uma amiga minha”. O amigo concordou e ele foi até a mesa que os homens ocupavam em meu lugar. Eu fiquei observando de longe e percebi que os homens continuam resistentes em devolver.
O Estefano não parecia nem um pouco intimidado. Ele ficou tentando resolver a situação por cerca de dez minutos até que voltou com a minha bolsa e me pediu para conferir se não tinham roubado nada e enquanto eu verificava, escutava ele dizer ao amigo que me levaria em casa. Felizmente, não tinham roubado nada.
Ele colocou o meu braço sobre seu ombro e me segurou pela cintura, fazendo-me acompanhá-lo. Eu disse que precisava achar a Carol, mas, ela já vinha ao nosso encontro e o Estefano explicou que me levaria para a casa, afirmando que eu estava muito bêbada. A Carol disse que ficaria um pouco mais e se despediu.
Ele abriu a porta do seu carro e antes que eu pudesse entrar, comecei a vomitar. Eu tentei segurar, mas não consegui. Estava com muita vergonha porque isso aconteceu na frente dele. Queria poder desaparecer. Eu me agachei para continuar vomitando e ele segurou o meu cabelo que quase se sujou.
Quando consegui me recompor, ele me ofereceu uma garrafa de água e me ajudou a sentar no banco do carro. Eu estava tão envergonhada e passando mal que não conseguia dizer nada.
No caminho, derramei uma lágrima. Eu não sabia porque estava chorando, devia ser o efeito da bebedeira. O Estefano me olhou e falou com uma voz muito mansa e baixa: “Está tudo bem? O que foi? Está passando mal?”. Eu respondi que não era nada, mas era uma mistura de tudo. Ele disse: “Estou aqui por você”.
Chegando na minha casa, antes que eu pudesse descer do carro, ele segurou a minha mão e me puxou para perto dele, abraçando-me. Eu fiquei ali apertada por seus braços por alguns minutos, meu corpo estava mole e eu não tinha forças para sair dali. Ele disse:
– Espero que você não se lembre disso amanhã… Eu ainda gosto de você, Lara. Eu nunca deixei de gostar nem por um minuto… Não espero nada em troca, nem espero que você também goste de mim, depois de tudo o que nós passamos. Mas, estarei ao seu lado de novo, se você deixar.
Ele me deu um beijo na testa e outra lágrima caiu dos meus olhos, eu enxuguei e ele me observou com ternura. Eu me senti amada. Os meus sentimentos acabaram de se despertar novamente naquele momento. Senti meu coração acelerar.
Ele parau de me abraçar e mudou de assunto:
– Posso te acompanhar até a porta?
– Sim… Eu estou um pouco tonta.
– Eu te ajudo! – Ele me guiou até a entrada da minha casa.
– Obrigada por tudo, Estefano. – Ele me deu um lindo e caloroso sorriso e respondeu:
– Não precisa agradecer, eu faço porque gosto de você.
Procurei a chave na bolsa, o que levou alguns minutos, mas ele continuou me apoiando. Depois, me acompanhou até o sofá da sala, perguntando: “Sua mãe está? Eu posso te levar até sua cama se ela não estiver aqui para te ajudar”. Eu digo a ele que poderia me deixar ali mesmo. Então, ele se despediu com outro abraço, como se quisesse manter o contato físico.
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Atualizado até capítulo 45
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