Em meio aos gritos, durante uma fervorosa briga entre mim e a Carmélia, eu disse cheia de raiva:
— Eu não preciso de você, vou embora daqui.
— Vai mesmo, quero ver se tem coragem. – Ela disse aos berros.
Fui para meu quarto, fiz uma mala e sai de casa enquanto ela me olhava com ar de deboche e ainda gritou do portão: “Não dou duas horas para você voltar para casa correndo, ou, vai se hospedar na casa do "mala" do seu namorado?”. Dei de costas e fui embora. Eu não tinha para onde ir, não sabia o que fazer, resolvi sair andando sem destino até conseguir pensar em algo.
O Daniel andava muito ocupado e cansado nos últimos dias, eu não queria ser um peso para ele e também não estava preparada para morar junto. Não queria me submeter dessa forma e nem levar nosso relacionamento para esse caminho. Morar com ele não era o ideal naquele momento, não era o que planejávamos. Resolvi ligar para a Gabriela, amiga da faculdade, que morava próximo da minha casa.
Ela morava com uma colega universitária que eu não conhecia porque era de um curso diferente do meu. Lembro-me da Gabriela me dizer que elas viviam em um apartamento de três quartos e estavam procurando por outra universitária para morar junto, talvez pudesse ser eu, via uma oportunidade. Decidi ligar para ela e perguntar se podia ficar em sua casa. Ela concordou imediatamente, disse que o quarto estava um pouco bagunçado, mas, estava disponível e eu fui.
Lá chegando, Gabriela me apresentou para sua colega de apartamento, que me recebeu de uma forma indiferente, sem interesse. Fui até o quarto vazio ao qual dormiria e quando entrei me deparei com uma verdadeira zona, tinha objetos por todo lado, parecia que elas faziam o quarto de depósito de coisas que não usavam. Eu não podia reclamar, pelo menos, a cama estava livre, imagino que ela tirou as coisas de cima enquanto eu estava a caminho.
Acomodei-me e a Gabriela disse que eu poderia ficar pelo tempo que precisar. Disse que no dia seguinte precisaria viajar para o interior por três dias, para resolver problemas familiares, dos quais não entrou em detalhes. Me sentia desconfortável porque teria que ficar sozinha com a colega de quarto dela, que eu tinha acabado de conhecer e não foi receptiva comigo.
Mas, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela começou a dizer que sua colega era um pouco fria e que não deveria me importar porque elas concordaram que eu poderia ficar por uns dias. Eu ainda não sabia se voltaria para casa, no entanto, precisava ficar por uns dias para que minha mãe não achasse que não poderia me virar sem ela. E no momento, seria inconsequente gastar dinheiro com algum hotel, ainda recebia pouco lecionando porque aceitei poucas turmas. Passar uns dias de favor na casa de alguém me parecia a opção ideal, por enquanto.
Enfim, no dia seguinte, a Gabriela preparou café da manhã e se despediu me dizendo que poderia ficar à vontade e ligar para ela se precisasse de alguma coisa. Fiquei no quarto, para não incomodar a colega dela. O quarto era apertado e cheio de tranqueiras, desconfortável e abafado, mesmo com a janela aberta. Peguei meu notebook, sentei na cama e comecei a passar o tempo. De tarde, fiquei com fome e sai do quarto procurando por comida. Passando pela sala, a colega estava sentada no sofá com um homem, aos beijos. Passei bem rápido, fui para a cozinha e escutei ela explicar ao homem que eu era amiga da Gabriela que se hospedaria por uns dias.
Na cozinha percebi que não tinha muito o que eu poderia pegar para comer, então resolvi sair para comprar um lanche, passei pela sala e agora o homem estava sozinho e mesmo que eu não olhasse diretamente para ele, senti que ficou me observando até que eu saísse, me senti muito desconfortável. Fui procurar uma lanchonete, padaria ou qualquer lugar que vendesse comida. De longe vejo uma avenida bem movimentada. Nela me deparo com uma padaria e como um salgado.
Como não queria voltar para aquele lugar, enrolo o máximo possível, observando lentamente tudo a minha volta. Deve ter passado umas duas horas de pura enrolação, depois resolvi voltar ao apartamento. Ainda bem que a Gabriela tinha me deixado uma chave extra e nem precisei tocar a campainha.
Passei o restante do dia entendiada e no início da noite liguei para o Daniel que disse receber a visita de sua irmã que voltou de outra cidade. Ele sempre me falava dela, a admirava muito. Depois, cai no sono e de madrugada acordo com um barulho de porta se abrindo e me assusto, ao abrir os olhos vejo aquele homem que beijava a colega de quarto da Gabriela. O homem que havia me encarado de tarde.
Ele estava me olhando de longe e quando viu que acordei saiu imediatamente. Eu fiquei em choque por uns três minutos. Depois, vou atrás dele, ele estava na sala e ao me ver pediu desculpas dizendo que nunca tinha ninguém naquele quarto e achou estranho escutar barulho vindo de lá e foi verificar. Eu voltei ao quarto e tranquei a porta. Foi muito suspeito.
Como ele poderia ter escutado barulho sendo que eu estava apenas dormindo? Ele já sabia que eu estava aqui porque escutei a namorada dele contar. Será que se eu não tivesse acordado faria alguma coisa? Ou, será que ele ficaria me olhando como um louco? Fiquei apavorada. Se ele tentasse entrar outra vez eu começaria a gritar, pelo menos tranquei a porta dessa vez.
O restante da noite não consegui dormir mais, com medo do homem esquisito, só fui sair do quarto no dia seguinte, quase meio-dia. Encontrei a colega da Gabriela, perguntei seu nome e ela disse que era Bianca. Eu fui logo dizendo o que tinha acontecido na madrugada. Mas, ela duvidou de mim. E disse:
— Mal chegou e já quer causar intrigas? Se isso aconteceu mesmo, meu namorado estava dizendo a verdade sobre ter escutado barulho, ou você está acusando ele de algo errado?
— Não estou acusando, estou apenas contando o que aconteceu porque achei estranho.
— Olha, você está se hospedando aqui de favor e só passou uma noite, se está incomodada pode se retirar. – Disse ela, saindo para seu quarto.
Que garota sem educação. Voltei para o quarto e resolvi que não passaria nem mais uma noite neste lugar. Peguei minhas coisas e fui saindo, porém, a Bianca estava na sala e me vendo ir embora pediu desculpas e disse para eu ficar porque a Gabriela esperava voltar do interior e me encontrar no apartamento. Eu disse que precisava ir embora de todo jeito, mas, ela insistiu. Chamou-me para ajudá-la com um trabalho da faculdade. Com isso, já começou a me mostrar umas pinturas que havia feito e perguntou minha opinião.
Enquanto eu tentava dizer que estava tudo ótimo para ir embora logo, ela me dizia que o namorado dela não viria hoje e nem amanhã, que não precisava ir embora por causa dele. Contudo, ela conseguia me enrolar a tarde toda. Quando eram sete horas da noite, eu resolvia ficar por apenas mais uma noite e na manhã seguinte iria embora. Estava tranquila por saber que o homem não viria hoje.
Fui para o quarto e liguei para o Daniel, ficamos conversando por uma hora, depois disso, tomei um banho. Voltei ao meu quarto e dei uma olhada em hotéis por perto e todos tinham diárias caras. Continuei pensando para onde deveria ir na manhã seguinte. Às nove horas da noite, escutei conversas do lado de fora do quarto, era da Bianca com um homem, parecia a voz do namorado dela.
Percebia a mentira quando ela falou que ele não viria. Me bateu uma fúria enorme, eu queria sair dali e tirar satisfação pelo engano. No entanto, sabia que seria pior sair do quarto e ter que lidar com os dois, apenas tranquei a porta do quarto e acabei dormindo. Duas horas da madrugada, acordei precisando muito ir ao banheiro, estava com muita vontade de fazer xixi. Como provavelmente eles estavam dormindo, fui até o banheiro e quando estava saindo me deparei com o namorado da Bianca.
Imediatamente me esquivei em silêncio, porém, ele me segurou pelo braço e puxou, dizendo: “Por que tanta pressa? Gostaria de passar um tempinho com você, já que é tão bonita”. E me puxou novamente, dessa vez tão forte, que cai no chão do banheiro e ele me agarrou pelos braços. Comecei a gritar por socorro e ele me soltou e se afastou com rapidez. Eu gritei por um minuto sem parar até a Bianca chegar.
Contei para ela tudo o que tinha acontecido, só que o namorado dela disse que era mentira, disse que ele foi beber água e quando o vi comecei a gritar sem motivo. Eu contei a verdadeira história novamente, desesperada e com raiva. A Bianca me interrompeu e acusou de mentira, disse que o namorado dela não faria nada errado e me chamou de doida. Notei que seria em vão explicar, fui para o quarto, peguei minha mala e fui embora do apartamento o mais rápido possível.
Quando cheguei no térreo do prédio, com o coração acelerado, parei de andar e comecei a pensar no que fazer. Eu estava extremamente nervosa e não conseguia raciocinar direito. Eram três horas da madrugada. Liguei para minha mãe e ela não atendeu. Eu estava sem as chaves da minha casa. Tentei ligar para o Daniel, que também não atendeu. Fiquei sentada no sofá do térreo do prédio, sem saber o que fazer, tentando me acalmar para conseguir pensar para onde ir.
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Atualizado até capítulo 45
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