Na casa do Estefano, os pais dele ficaram satisfeitos por me ver, foram bem receptivos. Por outro lado, foi constrangedor quando acharam que nós tínhamos voltado a namorar. Tive que explicar estar ali apenas como amiga e para prestar solidariedade em razão do falecimento do irmão dele.
O Estefano ficou muito feliz por me ver, assim, fiquei tranquila por tomar a decisão de visitá-lo, porque até então, achava que seria um pouco estranho, e não foi. Ele me disse que estava tendo um dia triste e minha visita o alegrou. Fiquei contente em escutar isso.
Conversei por uma hora com a família dele e depois nós dois fomos conversar na parte externa da casa. Chegando lá, tinha uma mesa com cadeiras, bancos e uma rede. Nos sentamos em um desses bancos e ele começou a desabafar comigo. Disse-me que passava momentos tristes com os pais dele e que tentava ser forte e aguentar calado. Ele me contava tudo com lágrimas nos olhos.
Eu tinha a sensação de estar no lugar certo naquele momento, ele precisava desabafar e parecia que o tempo não tinha passado nem por um dia desde a última vez que o vi, antes da sua viagem. Nós estávamos confortáveis um com o outro. O tempo nunca conseguiu nos deixar estranhos, podia passar o tempo que fosse e tudo ainda parecia como antes. Quando me dei conta, já estava ficando tarde. Eu disse que precisava ir embora e ele insistiu para ficar mais um pouco.
Após me contar suas tristezas e os momentos difíceis, ele começou a falar sobre nós dois. Foi como se tivesse voltado no tempo e tentasse justificar o real motivo dele ter ido morar um ano fora do país. Contou-me que a causa foi justamente os problemas do irmão, principalmente porque recebeu ameaças e estava com medo que algo ruim acontecesse. Porém, agora ele não precisava mais se explicar porque se passou muito tempo.
Foi então que percebi a real intenção dessa justificativa. Ele queria reatar nosso namoro. Disse-me que sentiu muito a minha falta enquanto estava no exterior e que pensava em mim todos os dias, que tinha em mente tentar me reconquistar. Eu escutei tudo sem resposta, em silêncio, paralisada. Não imaginava que aquele momento de condolências se tornaria uma tentativa de reatar nosso relacionamento, depois de tanto tempo.
Será que ele estava sendo influenciado pela dor e tristeza da perda do seu irmão e queria um apoio? Estava vulnerável e sensível. Eu tentei desviar o assunto, mas ele persistiu:
— Meus sentimentos por você nunca acabaram. Esperava o momento certo para te procurar novamente e dizer isso. Mas, agora que você está aqui, não vejo motivo para não falar logo o que sinto. Eu quero voltar a namorar você. Enquanto estive longe, tive mais certeza dos meus sentimentos.
— Não diga isso. Um ano é muito tempo. Além disso, eu não tinha certeza se você voltaria. Também, nós dois paramos de conversar por um longo tempo.
— Eu sinto muito, estava muito ocupado com a rotina e o fuso horário não batia. E você também não falou mais comigo. Muitas vezes eu esperava uma mensagem sua, como você terminou comigo achei que estava chateada porque fui embora. Você não sabia o meu real motivo, tinha razão para ficar chateada.
— Como eu disse, isso não importa mais. Gosto muito de você Estefano, só que as coisas mudaram… Na verdade… Eu estou namorando.
— Nossa! Me sinto um trouxa agora, não esperava por isso. Desde quando?
— Tem alguns meses.
— Quem é ele?
— Por que saber isso? Você não conhece.
— Nós conhecíamos muitas pessoas em comum. É alguém da faculdade?
— Não… É o Daniel da escola de idiomas.
— O quê? É sério isso? Ele não parece o tipo de homem que você gostaria de ter ao seu lado.
— O que quer dizer com isso?
— Eu conheço o Daniel. Nós conversamos muito na época que eu dava aulas. Ele era gente boa. Porém, era mulherengo. Ficava de conversa mole para professoras e algumas alunas, inclusive. Contava das ficadas e interesses amorosos dele. Nunca pareceu um homem de namoro sério.
— É sério isso? Você está com ciúmes e vai ficar me dizendo essas coisas? O que está pensando? Está tentando prejudicar meu namoro? Eu não esperava isso de você.
— Calma! Eu jamais faria algo para te prejudicar. Você entendeu errado. Falei isso para ajudar, não quero te ver sofrer. Você merece um homem bom, confiável. Eu não tive intenção de ofender. Desculpe-me, não vou me intrometer. Não devia ter dito nada.
— Tudo bem. Não vamos mais falar disso, ok?
Despedi-me dele e de seus familiares e fui embora. Depois, fiquei pensando sobre o que ele havia dito sobre o Daniel. Será que era ciúmes ou tinha fundamento? Não acho que era da índole do Estefano mentir e inventar histórias, quando ele disse pareceu espontâneo e não mentira. Entretanto, ele pode ter exagerado ou interpretado errado, de qualquer forma. Querendo ou não, conseguiu plantar uma semente da desconfiança na minha mente.
No dia seguinte, ele me mandou mensagem agradecendo pela minha visita. Também, pediu desculpas por falar mal do Daniel. Eu aceitei suas desculpas e acreditei que ele tinha boas intenções. Não vou culpá-lo por falar o que pensa. Ele disse que apenas desejava a minha felicidade.
No mesmo dia, depois da faculdade, uma sexta-feira, liguei para o Daniel e o chamei para sair. Porém, ele pediu que deixasse para o dia seguinte porque tinha aula de pós-graduação. Então, o que me restava era descansar, sem nada para fazer, deitei-me no sofá e liguei a televisão. De repente, recebi mensagens da Carol, que apesar de não gostar de baladas, estava em uma ao qual tinha me chamado para ir junto e neguei.
Ela me disse: “Amiga, aqui está muito badalado, acho que vi seu namorado”. Ao ler a mensagem, fiquei intrigada, será que ela não estava confundido? Afinal de contas, nunca tinha o visto pessoalmente, apenas por uma foto. Quando ela me encaminhou uma foto, percebi que realmente era o Daniel, ele estava na balada.
Eu fiquei muito chateada quando vi. Confirmei para minha amiga que realmente era ele e perguntei se estava ficando com alguma garota. Ela disse que não viu nada de mais, apesar dele estar acompanhado de algumas garotas, não sabia me dizer se eram amigas ou algo a mais. Eu tive uma mistura de sentimentos, de decepção com raiva.
Imediatamente liguei para ele, e como era de se esperar, não atendeu. Se não tivesse me traindo ou com intenção de trair, teria me convidado, ou contado que sairia para a balada com os amigos em vez de dizer que foi para a pós-graduação. Se mentiu é porque tinha más intenções. Justamente no dia seguinte de quando o Estefano me alertou que ele não prestava.
Senti-me magoada, realmente não esperava que ele fosse um mau-caráter. Eu devia ter me atentado aos sinais, devia existir algum indício que deixei passar por estar apaixonada. Eu queria deixar para lá ao menos por esse noite, para conseguir dormir e resolver no dia seguinte, mas não conseguia parar de pensar naquele idiota. Tentei ligar e caiu na caixa de mensagens. Fui me deitar e deixei para conversar no dia seguinte.
Quando acordei, fiz questão de ligar para ele bem cedo, justamente porque sabia que provavelmente dormiria até tarde, de ressaca da festa anterior. Liguei e ficou tocando um bom tempo e nada dele atender. Eu estava com muito ódio. Aquele malandro rejeitou três ligações minhas, se eu não soubesse que ele estava na balada ficaria preocupada.
Esperei mais meia hora e liguei de novo. Depois de muito tocar, ele atendeu, com aquela voz de quem acabou de acordar. Eu fui logo ao que interessava, sem enrolação. Não ficaria fazendo jogos para que ele mesmo me contasse onde tinha ido à noite anterior, porque provavelmente inventaria alguma mentira, novamente. Então, falei:
— Está tudo acabado entre nós porque não gosto de mentiras.
— O quê?
— Além de mentiroso, você também é surdo? Eu disse que está acabado nosso namoro. Assim, você não precisa mais mentir que está fazendo algo, enquanto, na verdade, está na balada.
— Você deve ter entendido algo errado. Eu posso te ligar daqui a dez minutos?
— Claro que não, você não pode me ligar nunca mais, já disse que não gosto de mentirosos. Minha amiga tirou foto sua na balada de ontem. Não venha inventar mais mentiras.
— Quê? Não pode ser… Eu… Eu…
— Está gaguejando por quê? Não precisa se explicar, por favor… Segue sua vida, eu sigo a minha, sem nenhum drama. Tchau!
— Espera, não desliga. Deixe-me ao menos me explicar.
— E me enganar com outra mentira descarada?
— Eu fui para a Pós-Graduação e lá fiquei sabendo que era aniversário de uma colega, então, fomos em grupo até uma balada para comemorar. Foi só isso. Eu e os colegas da Pós-Graduação, com a aniversariante. Foi apenas uma comemoração entre amigos.
— Você não atendia minhas ligações. Quer mesmo que eu acredite nisso? Sendo ou não verdade, você foi displicente comigo e agora estou com dúvidas.
Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder. Acreditar e desculpar depois de um erro só serve como liberdade para as pessoas cometerem um deslize outras vezes, achando que sempre serão perdoadas. Eu não quero isso. Tenho que ser firme. Tenho que usar minha raiva e decepção ao meu favor e não deixar que ele me passe uma conversa e me convença que estava certo. Daqui a pouco, ele vai me taxar de exagerada, fazendo-se de vítima, típico.
Foi justamente o que aconteceu. Ele me mandou mensagem duas horas depois, dizendo: “Por favor, desculpe não ter avisado, eu não sabia que da Pós-Graduação iria para a balada, foi decidido de última hora. Eu não escutei suas ligações devido ao barulho do lugar. Não exagere”. Quando li fiquei com mais raiva. Ele realmente teve a audácia de me chamar de exagerada, tão previsível.
Como imaginei, quis se fazer de vítima, enquanto eu era a verdadeira prejudicada. Nem sequer assumiu o erro. Respondi: “Exagerada? Omitiu que foi para a balada, não me atendeu por três vezes, sabe-se lá o que aprontou nessa festa estando bêbado e vem dizer que sou exagerada? Olha, se for assim, se realmente pensa isso, é mais um motivo para não me procurar mais.”
Ele me ligou na mesma hora, eu ignorei a chamada, coloquei meu celular no silencioso e fui fazer outras coisas e depois de três horas peguei o celular e vi três chamadas perdidas e mensagens dele: “Não acho que seja exagerada, foi jeito de falar, me perdoe? Se te ofendi, prometo não fazer mais isso. Não pensei no meu erro porque estava com amigos e não estive com segundas intenções com nenhuma garota, apenas estive curtindo com os amigos e bebendo, só isso. Não fiz nada de errado na balada.”
Ignorei a mensagem. Não queria mais responder. Quando eu disse para ele que não gostava de gente mentirosa, era verdade. Eu detestava mentiras. Era o pior defeito que uma pessoa poderia ter. Porém, ele não desistiu, depois de uma hora a campainha tocou e um entregador me entregou um buquê de flores. Que ridículo, faz merda e depois quer consertar com flores? Que cara sem noção. Porém, as flores eram lindas e tinha uma carta junto. Estava escrito:
“Querida Lara, desde o dia que eu te vi desejei ficar com você, desde o dia em que te conheci sabia que você era especial, que era a única que desejaria. Quero que me perdoe. Nunca olhei para nenhuma garota como olho para você, não desejei nenhuma garota como desejo você. Eu não quero te perder por algo assim, posso provar que vou ser cada vez melhor. Posso lidar com as coisas do jeito que você preferir, apenas não me deixe. Eu te amo muito.”
Achei um recado verdadeiro. Comecei a acreditar que devia dar uma segunda chance, porém, ficaria mais atenta e observadora. Não era o meu estilo ser flexível e sim muito desconfiada. Entretanto, algo me prendia a ele, não sei se desejo, paixão, segurança ou qualquer outra coisa. Algo inexplicável não me deixava terminar o namoro. Portanto, aceitei o pedido de desculpas, ao menos pareceu sincero.
Naquela noite, ele me levou para jantar em um lindo restaurante e estava fofo e gentil. Tratava-me como uma rainha, claro que para compensar o erro. No entanto, eu estava aproveitando todos os mimos. Depois, fomos para a casa dele e tivemos uma noite de amor diferente de como era o costume dele na cama, estava romântico e carinhoso como nunca.
Voltei para a casa às dez da manhã e tive que lidar com minha mãe, como sempre irritada porque eu havia dormido fora de casa. Disse-me que não gostava do Daniel e que eu acabaria grávida dele, afirmando que não ajudaria com nada na criação de um bebê. Eu odiava isso, como adulta, ela não tinha que interferir no meu namoro mesmo como mãe.
Ela estava com a cara fechada e resmusgando o tempo todo. Porém, eu ignorava e quando percebia que não lhe respondia, ficava nervosa. Dizia que eu não importava com as preocupações dela, acusava-me de abandoná-la com o tratamento psiquiátrico para ficar fora de casa com meu namorado. Então, não aguentei mais e tive que rebater. Disse que ela me sufocava muito, que eu precisava viver a minha vida e não apenas ficar presa nela, que os problemas dela não eram mais importantes que os meus problemas e que ela não era o centro do mundo.
Ela ficou ainda mais furiosa e gritava que eu dependia dela, que a casa era dela e eu era uma ingrata. A discussão ficou cada vez pior e foi uma grande confusão. A bomba tinha estourado, só me restava tentar manter o equilíbrio, mas claramente, eu não estava conseguindo.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 45
Comments