O motivo da minha felicidade na adolescência era um garoto, o Estefano. Ele era o garoto mais inteligente que conheci. Muito maduro para sua idade, escrevia muito bem, desenhava muito bem e era bom em todas as matérias da escola. Sempre sabia responder às perguntas dos professores e era elogiado por todos, nas apresentações de trabalhos escolares falava como um adulto.
Porém, todas essas qualidades eu só levei em consideração alguns anos depois, naquela época ele era apenas um garoto legal que eu gostava de conversar sobre diversos assuntos e passar o tempo. Não sabia até então o quanto especial ele era.
Após meses de amizade, ele começou a dizer que estava sentindo algo por mim, um sentimento além da amizade. Começou a me elogiar e dizer que gostaria de ser mais do que um amigo. Mas, eu não queria saber de namorar, via-me apenas como uma garota imatura e relacionamentos amorosos me faziam lembrar da minha mãe com todas as suas desilusões amorosas.
Por isso, todas as experiências amorosas desastrosas que vi minha mãe se meter, deixavam-me com o pé atrás no quesito relacionamentos. Foi por isso que eu disse ao Estefano que não queria nada além de sua amizade. Só que ele era realmente um garoto muito legal e não ficou ofendido, nem magoado, ainda assim continuou próximo, como amigo, não ficou me pressionando.
Ele estava sempre ao meu lado na escola, sempre grudado, era o meu melhor amigo. Fora da escola nos dois continuávamos em contato, mandávamos mensagens reciprocamente durante o dia, principalmente aos finais de semana, que eram os dias onde não nos encontrávamos porque naquela época eu quase não saia de casa a não ser para escola.
Ele era muito fofo, respeitoso e diferente dos outros garotos do colégio. Tinha uma sensibilidade aflorada para tudo, para os relacionamentos pessoais, artísticos, comportamentais, absolutamente tudo. Apesar de tantos elogios, eu não era apaixonada por ele. Na verdade, pensando bem, acho que eu gostava um pouco dele, porém, não percebia ou não entendia esse sentimento.
Eu tinha uma relutância interior que não me deixava prosperar o sentimento e ficava feliz sendo apenas amiga dele. Ficamos dois anos estudando juntos, sem nos desgrudar por todos os dias, nós conversávamos sobre tudo, ficávamos por várias horas compartilhando ideias, ele parecia me conhecer tão bem. Era generoso, oferecia-se para me ajudar com o que precisasse.
Certa vez, em nosso colégio, alguns alunos eram escolhidos para ficar depois do horário das aulas para limpar as cadeiras da sala de aula, quando chegou o meu dia de fazer a limpeza, ele se ofereceu para fazer em meu lugar e isso me deixou muito tocada por achar um grande ato de gentileza.
Quando estávamos no nosso último ano escolar, começamos a fazer planos para a faculdade. Eu desisti de medicina e resolvi fazer psicologia, o Estefano estava em dúvida entre direito e medicina. Ele era um garoto muito dedicado e começou a estudar em casa, por conta própria, porque sabia que o ensino da nossa escola não era bom o suficiente para ajudá-lo a passar no vestibular, que era muito concorrido para o curso desejado.
Por outro lado, eu fui contraditória, como sou em vários momentos da minha vida. Em vez de começar a estudar bastante, meu último ano do colégio foi o mais relapso de toda a minha vida estudantil. Eu sequer prestava atenção nas aulas, como sempre fazia nos anos anteriores. Ficava apenas de papo furado com as colegas e fazendo coisas inúteis enquanto deveria estudar.
No entanto, o Estefano teve a ideia de fazer um grupo de estudos comigo e mais dois colegas. Foi um desastre, nós não estudamos nada, ficamos conversando todo o tempo. Porém, uma coisa sobre esse grupo de estudos me marcou muito. Depois de vários meses sem falar sobre seus sentimentos, o Estefano resolveu tentar outra vez ser mais do que meu amigo. Acho que ele deve ter achado que seria a última oportunidade antes de acabarmos a escola e cada um seguir seu caminho.
Ele me chamou para irmos juntos e sozinhos para atrás de uma árvore que tinha no fundo da escola, disse querer me mostrar o que havia escrito com um estilete nessa árvore. Naquele momento eu analisei toda a situação. Era uma garota sem experiências amorosas, mas não era estúpida, senti que ele queria algo a mais, essas coisas a gente consegue sentir por extinto, como intuição. Provavelmente ele me daria um beijo.
Fiquei apreensiva, todas às vezes que ele tinha confessado seus sentimentos foi por mensagens no celular, ou quando pessoalmente foi em tom de brincadeira ou um elogio. Entretanto, senti a diferença, aquele momento eu podia perceber que ele estava realmente preparado para o ataque. Eu estava surpresa porque ele era sempre tão passível.
Eu neguei acompanhá-lo, porém, ele não desistiu de uma aproximação, acho que estava realmente decidido. Me olhou profundamente nos olhos, até senti borboletas no estômago, e me pediu que o acompanhasse até a cantina da escola e eu fui. Ele continuou olhando no fundo dos meus olhos por alguns segundos, mas pareceu uma eternidade, e começou a andar bem rente ao meu lado, quase grudado, nossos braços se encostavam.
No caminho, ele começou a falar que nosso grupo de estudos não estava funcionando e que em pouco tempo não estaríamos mais nessa escola, que nossas vidas mudariam por completo. Então, de repente parou no meio do caminho. Não havia ninguém por perto, era um horário que não tinha aulas e quase nenhum aluno na escola. Senti que só existiam nós dois naquele lugar. Fiquei nervosa e tentei sair, só que ele segurou a minha mão e me olhou daquele jeito profundo novamente.
Não tinha como fugir, ele declarou seus sentimentos novamente, dessa vez foi olhando nos olhos e dizendo todas as palavras mais claras possíveis. Confesso que não me lembro exatamente quais palavras ele usou para confessar o que sentia. Segurando a minha mão, disse algo como: “Quero que você seja minha namorada, quero te beijar agora mesmo, e se não for agora, vou esperar o momento certo, eu gosto muito de você”.
Depois da confissão, como em uma cena de novela, fomos interrompidos, nossos colegas do grupo de estudos chegaram e ele imediatamente soltou minha mão tão rápido que ninguém percebeu. Nós voltamos para os nossos estudos, mas ficamos nos olhando o tempo todo, não conseguia focar em mais nada. Logo fomos embora. Quando cheguei em casa, recebi uma mensagem dele dizendo: “Se você estiver preparada, pode me dar uma resposta agora, mas, se a resposta for: “não”, é porque não está preparada e vou esperar até que seja um “sim”.”
Fiquei sem saída, se eu dissesse “não” ele alegaria que não estou preparada, mas eu não podia dizer “sim”. Então, respondi que daquela forma eu não saberia o que falar. Em resposta, ele disse: “Você ainda saberá a resposta, estou certo disso. Eu gosto muito de você e posso ser muito legal contigo, então, apenas não diga nada agora, eu entendo e espero”. Foi o que fiz, não disse nada e não sei o que ele entendeu disso.
Isso aconteceu em uma sexta-feira, quando nos encontramos na segunda na escola parecia que nada disso tinha acontecido, ninguém tocou no assunto. Entretanto, minha amiga mais próxima começou a me tratar de forma estranha. Ela era um dos membros do grupo de estudos daquele dia. Ela não queria conversar comigo e durante o intervalo das aulas eu a perguntei se tinha acontecido alguma coisa ruim durante o fim de semana.
Ela respondeu que não aconteceu nada de mais e começou a me perguntar sobre o meu relacionamento com o Estefano, dizendo: “Vocês estavam bem grudados no nosso último encontro e sumiram do grupo por um bom tempo, estou vendo que algo está acontecendo entre vocês dois”. Eu prontamente neguei, mas admiti que o Estefano confessou seus sentimentos.
Ela era minha melhor amiga, não via malícia no desejo dela em saber sobre nós dois. Hoje em dia, analisando todo o contexto, talvez ela tenha ficado com um pouco de ciúmes. Essa amiga se chama Diana, parecia um pouco invejosa porque corriqueiramente queria tudo o que eu tinha. E se aproveitava de mim em diversas situações. Nas provas sempre me pedia cola, nos trabalhos me deixava fazer a maioria sozinha. Dizia-se menos inteligente que eu, falava que se achava burra, mas com o propósito de me deixar com pena e assim poder me usar ao seu favor.
Sempre se apaixonava por garotos que nunca se importavam com ela, por isso, acho que sentiu inveja, quando soube que o Estefano gostava de mim. Inclusive, ela dizia achar o Estefano uma gracinha. Falava que eu não parecia interessada nele e não deveria forçar nada contra minha vontade porque nós dois eramos bem amigos e isso estragaria nossa amizade. Também, deixava claro em suas atitudes não querer que eu tivesse um namorado e ela não.
Anos depois essa amiga acabou por estudar na mesma faculdade que eu, no mesmo curso. Porém, vou deixar essa história de amizade durante a faculdade para outro momento. Enfim, os meses passavam rápido e o final do ano letivo se aproximava. Fizemos nossas provas para tentar entrar na universidade. Tentamos várias faculdades. Os resultados chegaram e não foram tão bons como estávamos esperando.
O Estefano não conseguiu passar em nenhuma Universidade para medicina, por muito pouco. Suas notas não foram ruins, só que ele estava tentando as melhores universidades do país e era o curso mais concorrido de todos. Já eu, por outro lado, consegui ser aprovada para o curso de psicologia em apenas uma universidade, dentre as quatro que havia tentado, porém, ficava do outro lado do país, um Estado bem longe de onde morava.
Foi então que um dos primeiros dilemas da minha vida surgiu. Eu deveria entrar na faculdade agora ou tentar novamente ano que vem em uma universidade melhor e mais próxima? Eu era uma garota muito acomodada, buscava facilidade e praticidade na vida, não queria mudar para outro Estado. Também, não tinha dinheiro para pagar as despesas que surgiriam.
Estaria por conta própria, sem ajuda, fiquei com medo de não conseguir me virar sozinha. Fui covarde e desisti, não me matriculei no curso. Fico pensando, o que teria acontecido de diferente na minha vida se eu tivesse ido? Com certeza nada seria igual. Uma única decisão é capaz de mudar completamente uma vida.
Ao acabar o colégio, eu e o Estefano não tivemos uma despedida, era como se quiséssemos nos encontrar outra vez, mesmo com cada um seguindo caminhos diferentes. Passamos a conversar apenas por mensagens. Ele me disse que ficaria o ano todo estudando, fazendo aulas preparatórias para passar na prova e entrar na faculdade. Eu procurei a mesma motivação e comecei a estudar, coisa que deveria ter feito no meu último ano de escola e não fiz.
Nessa época eu perdi o contato com todos os colegas da escola, com exceção do Estefano. Porém, não nos falávamos com frequência como antes, eram raras nossas mensagens, acho que ele realmente estava muito focado nos estudos. Assim, passou um ano inteiro. No dia da inscrição da faculdade, sem contar para ninguém, mudei de ideia sobre qual curso fazer.
Eu era muito jovem, não tinha certeza do que queria da vida. Resolvi tentar o curso de Direito, um desejo oculto. Fui aprovada e apenas depois contei para minha mãe e ela ficou surpresa. Quando fui contar para o Estefano, ele também teve uma dose de surpresa, assim como eu, optou por cursar direito, uma grande coincidência. Porém, em outra universidade. Ele me contou ter planos de ser juiz no futuro.
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Atualizado até capítulo 45
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