Eu nunca briguei fisicamente com ninguém, e pior de tudo, não consegui retribuir a porrada que o Daniel me deu. Naquele dia que brigamos, eu fui para minha casa depois de uma grande confusão e passei a noite toda com dores no rosto. Pensei que depois de tudo, minha amizade com a Lara foi arruinada. No caso, a única coisa racional, seria me afastar dela antes que uma briga pior acontecesse. Além disso, devia poupá-la de lidar com isso nas vésperas do seu casamento.
Depois de muito refletir, decidi que a partir daquele momento não procuraria por ela, mesmo que me fizesse parecer um covarde. Na verdade, era tarde demais para conseguir a Lara de volta. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, apenas aceitar e simplesmente desistir de tentar, afastar e deixar ela ser feliz como escolheu. A Lara era uma garota sensata e inteligente, não podia impedi-la de ficar com o Daniel, eu não queria ser uma interferência.
Nos dias seguintes, não tive notícia dela e também não procurei. Preocupei-me de que ele tivesse contado da briga e distorcido os fatos para ela. E se ele disse que contei do nosso namoro passado, provavelmente a Lara estaria decepcionada comigo porque era algo que escondia dele.
Enquanto isso, recebi uma ligação da Diana, minha amiga desde o ensino médio. Ela começou a falar sobre a Lara:
— Você ficou sabendo que a Lara está noiva?
— Sim, estou sabendo.
— E como você está lidando com isso?
— Como assim? Não tenho que lidar com isso. Eu só tenho que ficar feliz por ela, como um amigo faria, não é mesmo?
— Ah! Para, Estefano! Você sempre foi caidinho por ela.
— Isso foi há um tempo.
— Então, quer dizer que você não sente mais nada por ela? Não se importa com esse casamento? Até eu achei precipitado demais esse noivado. Parece que se conheceram recentemente.
— Não sei.
— Está realmente bem com isso?
— Pare de insistir, estou bem.
— Vai se fazer de sonso para cima de mim? Logo eu que presenciei a história toda de vocês. Você sempre foi louco pela Lara, até o jeito que você olha para ela é diferente. Não adianta tentar disfarçar.
— Eu tenho que aceitar, foi a decisão dela.
— Você gosta dela ainda ou não? Fala logo?
— Gosto! Mas não importa, o tempo vai passar e eu vou ficar bem.
— Sabia! Sabia, que você não estava bem. – Ela disse como se fosse uma vitória.
— Deixa disso, esquece, ok? Não podemos atrapalhar a felicidade dela.
— Eu não acho que eles combinem como vocês dois combinavam. E esse noivado foi precipitado demais. Será que a Lara está tomando a atitude certa?
— Ela que precisa saber, não é da nossa conta.
— Claro que é da nossa conta, somos amigos dela. Eu tenho uma ideia, vou chamar ela e esse Daniel para sair comigo e vou analisar se eles se gostam de verdade. Ver se ele trata ela bem como você tratava, porque é o mínimo, já que ela te trocou por ele.
— Deixe dessas ideias bobas e não faça nada.
— Quando eu coloco algo na mente, só desisto após fazer. A propósito, tem algo que devo te contar e precisa ser pessoalmente. Você pode me encontrar no sábado no shopping?
— Pode ser.
Chegou o sábado, fui ao encontro, ansioso para saber o que a Diana precisava me dizer. Quando a avistei de longe, minhas pernas travaram e meu coração acelerou, vi uma cena que não gostei.
Ela estava com a Lara e o Daniel, sentados juntos em uma mesa, imediatamente percebi que tinha caído em uma emboscada preparada pela Diana. Depois desse enorme susto, dei meia volta para ir embora antes que me vissem, mas, era tarde demais, escutei a voz dela chamando pelo meu nome.
Eu não olhei e continuei saindo do lugar, só que ela correu em minha direção e me segurou pelo ombro, virei-me e vi de longe a Lara e o Daniel me observando. Enquanto isso, a Diana começou a me puxar pelo braço em direção à mesa em que eles estavam sentados, dizendo:
— O que aconteceu com você? Por que está fugindo? – Ela me puxava e quando consegui me soltar disse:
— Espera um pouco, calma! O que está acontecendo? Você preparou esse encontro de propósito?
— Claro que sim, seu bobo, se eu dissesse a verdade você não viria. Eu quero que me ajude a analisar esse casal. Você conhece a Lara melhor do que eu, é o melhor amigo dela, preciso da sua ajuda.
— Eu disse para não fazer isso, me deixa fora dessa situação. – Eu disse nervoso.
— Calma! Não precisa se estressar.
Eu dei de costas e comecei a me afastar, porém, escutei a voz da Lara me chamando. Eu não podia ignorá-la e então me virei. Ela vinha em minha direção e meu coração disparou. O que eu deveria fazer? Enquanto ela se aproximava, eu congelava. Chegando perto, ela me disse:
— Está tudo bem? Por que está indo embora? – Eu nada respondi. Ela olhou fixamente no meu rosto me deixando constrangido e continuou com as perguntas:
— O que aconteceu com seu rosto? Está bem machucado.
— Nada… Eu lembrei que preciso ir. – Ela ficou surpresa.
— Fique comigo. Você está bem? Está agindo estranho.
A Lara pareceu muito confusa. Eu dou de costas para ela e a Diana e vou embora a passos rápidos. Quando tinha me distanciado bastante, me virei e as vi paradas no mesmo lugar me olhando incrédulas. Vou embora. Como posso ter caído nessa armadilha? Foi ridículo e imprevisível. Meu plano de esquecer a Lara não corria bem.
Caminhando em direção à saída, como aquela situação me deixou com a boca seca, parei em um quiosque de lanches e pedi uma garrafa de água. Sentei em um banco para me acalmar enquanto bebia. Um minuto depois, olhei para o lado e vi a Lara se aproximar. Ela me seguiu. Estou ferrado, pensei. Ela chegou perto e disse:
— Estefano… – Eu a interrompi:
— Lara… Eu só precisava pegar uma água, estou atrasado para uma reunião. — Levantei-me do banco e comecei a sair.
— Espera!
— Desculpe, eu não posso.
— A Diana disse que marcou esse encontro há dias, como você pode ter uma reunião nessa mesma hora? O que está acontecendo? Por que está estranho?
— Eu já disse que preciso ir, divirtam-se. – Dei de costas e me afastei.
Visão da Lara:
Enquanto voltava ao encontro da Diana e do Estefano na mesa em que estávamos sentados, pensava o quanto foi estranho a atitude do Estefano. Por que ele parecia tão desesperado? Por que ele não queria conversar comigo? Não era típico dele agir daquela forma. Perguntei para a Diana:
– O que aconteceu com ele? Eu tentei conversar, mas, fugiu de novo!
– Na verdade, eu não tinha dito a ele que você e o Daniel viriam juntos nesse encontro. Eu o chamei alegando que precisava dizer algo importante. Pode ser a minha omissão que o incomodou.
– Ah não! Por que fez uma sacanagem dessa? Isso não é justo. Mas, de qualquer forma, ele não precisava fugir tão desesperado, foi estranho.
– Eu também achei estranho, ele não quis cumprimentar a gente.
– Deixa ele, querida. – Disse o Daniel.
– Ele estava com o rosto ferido.
– Por que se preocupa? Ele tem a vida dele, não precisamos saber dos detalhes. – Daniel disse, parecendo impaciente e querendo finalizar o assunto.
– Confesso que fiquei bastante intrigada. Depois vou ligar para ele, precisamos de uma explicação. – Disse a Diana.
– Melhor não, seria um pouco invasivo, mesmo que ele seja amigo de vocês, não precisa contar tudo – Daniel alegou.
Mudamos de assunto, comemos e conversamos sobre vários assuntos. Bem tarde a Diana se ofereceu para dormir na minha casa. Eu aceitei. O Daniel nos deixou em casa. Levamos um lanche para minha mãe e conversamos com ela até meia-noite. Depois, fomos para meu quarto dormir. Eu estava cansada, só que a Diana queria conversar e disse:
— Achei o Daniel legal. Eu pensei que sua decisão de casar era precipitada. Porém, agora entendo. Nunca pensei que existiria outro homem a altura do Estefano.
– Poxa Diana, que coisa estranha para se dizer, não faça essas comparações sem sentido. E não me fale do Estefano, estou chateada pelo comportamento dele hoje.
– Quase me esqueci, vamos ligar para ele e perguntar o que aconteceu.
– Não mesmo, está tarde, vamos dormir.
– Não! Amanhã é domingo podemos conversar até tarde sem atrapalhar. Eu sei que você está querendo tirar satisfação pelo constrangimento de hoje.
– Não quero, só quero esquecer disso e dormir. – Mesmo assim, ela não levou a sério minha vontade e começou a ligar para o Estefano, com a ligação no viva voz. Ele atendeu antes que eu pudesse pegar o celular da mão dela e desligar.
– Estefano! Desculpa ligar tão tarde.
– Tudo bem, ainda não estava dormindo, o que foi?
– Me desculpa por hoje, por não contar da presença do casal. – Eu olhei para ela acenando para desligar, mas, não adiantou os meus sinais.
– Está desculpada e nunca mais faça algo desse tipo, boa noite!
– Espera! Para que pressa? Eu queria contar sobre nosso encontro, das minhas impressões sobre o Daniel. – Desejei esganá-la por dizer isso ao Estefano, fiz um sinal de ameaça e ela apenas deu um sorriso e continuou a conversa.
– Não preciso saber disso, não tenho interesse. – Ele falou rispidamente.
– Nossa, Estefano! Você parece estressado, afinal de contas, o que deu em você? Está estranho e saiu correndo como um louco parecendo que viu uma assombração, está evitando o casal? – A Diana era muito direta e sem noção, eu estava desesperada para cortar essa conversa.
– Para com essa bobeira.
– Então, me explica porque você simplesmente não sentou com a gente um pouco, a situação ficou pior do que se tivesse apenas cumprimentado e ido embora.
– Porque não esperava esse encontro armado que você fez, fui enganado. O que eu faria lá?
– Como assim? Você é nosso amigo e fugiu me deixando sozinha segurando vela para o casal. Eu não esperava essa atitude, era para você ter ficado e me acompanhando. E ainda deixou a Lara chateada com você. – Eu tentei tomar o telefone dela que se afastou.
– Por que ela ficaria chateada? Deixa de inventar histórias, Diana.
– Ela foi te chamar e você correu dela mentindo que precisava ir a uma reunião, parecia não querer contato, nem se explicou direito.
– Eu não tinha nada para falar, é isso.
– Você vai ficar nos evitando? Foi muito estranho fugir daquela forma.
– Seria justo evitar.
– Não acho nada justo. Nós somos amigos desde o tempo de escola, você não pode apenas nos ignorar, ok?
– Não estou te ignorando.
– E também não pode ignorar a Lara só porque ela vai se casar. – Eu engoli em seco, então, era isso? O Estefano estava me ignorando só porque eu me casaria? Foi por isso que ele fugiu?
– Não dá mais para ser como antes, nós precisamos de um afastamento. – Ouvir ele dizer aquilo me machucou muito. Nunca pensei na necessidade de me afastar dele.
– Você está dizendo que não vai mais ter contato com a Lara? É isso mesmo?
– Sim, isso mesmo. – Senti os meus olhos se encherem de lágrimas e uma tristeza pairou sobre mim. Eu estava acabando com uma amizade porque iria me casar. Pareceu uma escolha entre o amor ou a amizade. Lutei para não derramar nenhuma lágrima e não ser pega pela Diana, mas, ela pareceu notar e tive que abaixar a cabeça na cama para disfarçar.
– Estefano… Não faça isso com a Lara, ela gosta da sua amizade. Eu também gosto da amizade de nós trés.
– Mais cedo ou mais tarde nos afastaríamos naturalmente, melhor que fosse logo. Eu não posso ficar próximo dela porque não consigo vê-la apenas como amiga e agora que ela vai se casar não posso mais ter esses sentimentos. Por isso, não quero mais encontrá-la e você pode dizer a ela, sei que fará de qualquer maneira. – Senti o olhar da Diana me penetrar, enquanto tentei me controlar ao máximo para não chorar.
– Uau! Você realmente vai conseguir deixar a Lara muito triste. Enfim, espero que reflita sobre essa decisão, preciso desligar agora. – Ela desligou e começou a dar tapinhas nas minhas costas, como um consolo.
No dia seguinte acordei com dor de cabeça. Eu fingi que nada tinha acontecido e quando a Diana tentou falar sobre o assunto a cortei e disse que não queria conversar sobre isso. Tomamos café da manhã e ela foi embora. Eu me senti tão mal que parecia ter perdido uma parte de mim.
O Estefano esteve na minha vida por muitos anos, doía muito deixá-lo. Desde que ele foi morar no exterior tentei me enganar sobre meus sentimentos. Na verdade, eu não queria aceitar que nunca o superei. Se ele tivesse ficado comigo, nós dois enfrentaríamos qualquer coisa. Agora, nunca mais o terei na minha vida e o que mais me mágoa é por termos dito que seriamos amigos para sempre. Eu pretendia cumprir o que disse, sempre seria amiga dele. Porém, aparentemente, ele não falou sério.
Eu pensei que ele era especial e que sempre estaria ao meu lado. Achava que nossa amizade era eterna. Me senti abandonada. Ao refletir sobre tudo, desejei ligar e tirar satisfação, queria que me dissesse tudo o que falou a Diana diretamente. Se ao menos me dissesse pessoalmente, poderia me sentir melhor. Impulsionada por esse sentimentalismo, mandei mensagem, dizendo:
“Estefano, a Diana me contou tudo sobre você querer se afastar. Não achei que fosse do seu caráter ter tal atitude sem ao menos conversar comigo. Saiba que você me surpreendeu negativamente e que ao contrário eu prefiro dizer as coisas diretamente. Você pensava em desaparecer sem me falar nada? Acha que seria justo comigo não me dar nenhuma resposta e simplesmente me dar as costas como fez naquele dia no shopping? Eu cumpriria o que disse sobre ser sua amiga para sempre. Estaria ao seu lado para o que precisasse e pensei que faria o mesmo por mim. Se deseja me evitar, até entendo, mas, ao menos, poderia ter conversado comigo e me explicado sua situação.”
Ao mandar essa mensagem, senti um alívio, eu estava engasgada. Resolvi me livrar desse aperto em meu peito, deixei as lágrimas saírem sem receio. Enquanto eu chorava minha mãe chegou e me perguntou o que estava acontecendo, achou que eu briguei com o Daniel, apenas neguei, abracei-a e ela me consolou.
O Estefano não respondeu à mensagem. No fundo do meu coração, eu queria que ele dissesse que ainda me amava e que não queria que me casasse. Eu escolheria ficar com ele, se assim o fizesse. Eu ainda o amava muito. Queria que ele tivesse lutado por mim e não fez nada, sequer respondeu à mensagem, claramente, decidido a me ignorar e esquecer.
Passei o dia todo chorando, sem acreditar que ele foi capaz de fazer isso comigo. Eu seria capaz de terminar o noivado e ficar com ele de novo se falasse o que sentia. Na verdade, não me sentia preparada para me casar com o Daniel. Se pudesse escolher, o Estefano seria o escolhido.
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Atualizado até capítulo 45
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