Por Estefano:
Eu costumava me preocupar com as consequências dos meus atos, por isso, fui bastante precavido na vida. Com um lado sentimental, queria o bem das pessoas. No entanto, quando enfrentei problemas familiares e depois que morei no Canadá, aprendi muito sobre a vida. Não podia confiar em todas as pessoas que pareciam legais. E não conseguia confiar no Daniel.
Algo muito evidente, era o amor que sentia pela Lara, desde os tempos da escola. Todos que me conheciam sabiam dos meus sentimentos por ela. Sempre tive esperanças de ficarmos juntos de novo. No entanto, sabia esperar, achava que tudo tinha o momento certo para acontecer. Se eu não fosse tão paciente, nunca tínhamos namorado.
Quando ela terminou comigo eu fiquei arrasado, chorei todos os dias por sentir sua falta. Mas, com o passar dos meses, a esperança de ter ela de volta quando eu voltasse do exterior me alimentou e me reergueu. Se ela ainda me amasse como eu ainda a amava, nós voltaríamos a ficar juntos.
Infelizmente, não foi o que aconteceu, as coisas nunca saem conforme planejamos. Ela estava com outro homem, alguém que não a merecia. E eu não sabia o que fazer, o certo era deixar para lá e seguir a minha vida, ser racional como costumo ser, mas, meu coração não sentia o mesmo, ela ativava o meu lado emocional. E no dia que ela me pediu ajuda na madrugada foi decisivo para o desejo de conquistá-la novamente. Meus sentimentos se afloraram desde aquela fatídica noite.
Certo dia, resolvi lhe fazer uma visita de surpresa, porque se eu dissesse que visitaria sua casa, ela provavelmente fugiria de mim. Ao chegar na casa dela, toquei a campainha várias vezes e sem receber resposta e vendo a porta aberta, entrei. Parecia não ter ninguém em casa, então, acabei encontrando a mãe dela no chão da cozinha, aparentemente desmaiada e vários remédios derrubados no chão. Eu liguei para a emergência e depois uma ambulância chegava com urgência. Acompanhei sua mãe, e levei todos os remédios que via perto dela para mostrar ao médico porque parecia uma overdose.
No dia seguinte a esse ocorrido, fiquei preocupado porque a Lara tinha chorado muito no hospital. Além disso, também era o aniversário dela. Por isso, resolvi vê-la em sua casa. Passei em uma joalheria e comprei um par de brincos de presente. Imaginei que ela estaria triste pelo acontecido e esperava trazer um pouco de alegria.
Quando cheguei na casa dela, ela me recebeu com bastante surpresa, provavelmente não queria visitas. Estava vestida com um moletom e tinha os cabelos presos, sem maquiagem. Ela era deslumbrante, bonita sem tentar ser. Bonita em qualquer momento. Eu amava a beleza natural dela, que não precisava de nenhum esforço para ficar deslumbrante, era naturalmente. Só em vê-la meu coração se agitava, queria abraçá-la e me contive. Ficamos conversando com a mãe dela, quando o Daniel chegou de repente.
Ele sempre tinha um ar de arrogância e superioridade, era um playboy metido e parecia levar tudo na brincadeira. A Lara e ele eram muito diferentes em personalidades, e eu não acreditava naquela história de que os opostos se atraem. No entanto, para ser amigável e apresentar que não me importava com o relacionamento deles, comecei a puxar assunto. Ele disse em meio a conversa que estava noivo da Lara, queria esfregar isso na minha cara, queria se exibir. Eu sentia o meu coração parar, a Lara não podia se casar, caso contrário, perderia ela para sempre.
O Daniel percebeu a minha reação desagradável. Não sei o que ele pensou, acreditei que não sabia do nosso relacionamento passado porque a Lara nos apresentou como velhos amigos. Acho que ele percebeu que eu gostava dela mais do que um amigo pela minha reação ao saber do noivado. Eu não consegui segurar a minha expressão de desagrado.
Me deu vontade de dar um soco na cara dele. Coisa que jamais faria, mas, vontade não faltava. Eu internalizei tudo na minha mente, no entanto, demorei uns minutos para conseguir me recompor. Enquanto eu surtava em silêncio, a mãe dela fazia perguntas sobre o noivado e ele respondia enquanto não tirava o olhar de mim, claramente percebendo o meu surto interior.
Quando a Lara descobriu que ele tinha contado do noivado, pareceu muito decepcionada e disse que era muito recente para dar a notícia. Ainda, deixou evidente que preferia ter contado ela mesma. Depois disso, nos mandou ir embora de sua casa, visivelmente chateada. Nós dois fomos embora e na porta da casa o Daniel me chamou para sair e beber com ele em algum bar. Eu neguei e ele insistiu dizendo que por conta da minha amizade com a Lara, sentiu necessidade de uma aproximação. Então, decidi aceitar o convite e o acompanhei até um bar.
Quando chegamos, eu disse a ele que não tomaria bebida alcoólica porque estava dirigindo e ele disse que tudo bem desde que pudéssemos passar um tempo apenas conversando. Nos sentamos e eu pedi um refrigerante enquanto ele pediu uma cerveja. Falei que não seria bom dirigir após beber, mas, ele afirmou morar perto do bar e por isso, não viu problema em beber um pouco. Achei irresponsável e não questionei. Começamos a conversar:
— Agora que sei que você e a Lara são muito amigos, que tal se você fosse um dos nossos padrinhos de casamento?
— Acho melhor deixar a Lara me pedir isso, mas, duvido que ela faria esse convite. Também, não seria de bom grado.
— Por quê?
— Nada de mais… Esquece… Enfim… Quando vocês planejam fazer o casamento?
— Espera… Como assim? Você é sempre assim de meias-palavras?
— Não, eu não sou. Somente não passo por cima das coisas que envolvem outras pessoas.
— Você parece ter uma paixãozinha pela Lara. Achava que teria chance com ela? – Ele disse, rindo com deboche.
— Que papo imaturo. Achei que você me convidou para sermos amigos e não para debochar. – O Daniel começou a rir ainda mais, agora com ironia.
— Não sabia que eu tinha dito algo engraçado. – Comecei a rir com ele. Também, de forma irônica.
— Você parecia um cara legal na época que dava aulas na escola de idiomas e agora percebo que me enganei, ou então, está com ciúmes de mim com a Lara.
— Nada disso… Eu fiquei intrigado porque você contou do noivado antes dela falar com a mãe. Se são noivos, você deve saber que elas têm uma relação complicada que exigiria uma conversa prévia e você roubou esse momento dela.
— Que exagero! O que você tem com isso? Por que se incomoda? Não queria saber do noivado?
— Eu só quero o bem dela e um noivado é um grande passo.
— Claro, inclusive, estou planejando tudo para o casamento acontecer logo.
— Fico feliz por vocês! Espero que a Lara esteja feliz, isso que importa.
— Claro que ela está feliz, está radiante. Nós estamos muito apaixonados, não vejo a hora de casarmos logo.
— Por que você parece ter tanta pressa?
— Porque gosto dela, é obvio.
— Vocês estão juntos há quanto tempo?
— Tem um bom tempo.
— Tempo suficiente? Você não sabe quanto tempo, né?
— Para quem se ama todo tempo é válido.
— E você a ama?
— Que pergunta idiota! É claro que eu a amo, caso contrário, não teria pedido em casamento.
— E você tem certeza que ela também te ama?
— Você está de zombaria com a minha cara? A Lara é louca por mim e você está me ofendendo com essas perguntas idiotas.
— Calma! Só perguntei…
— Você se acha muito entendedor dos sentimentos da Lara? Está se achando muito… Saiba que agora eu estou muito acima de você. Vocês podem ser bem amigos, mas, não é tão próximo dela quanto eu sou. E para sua informação, ela nunca fala de você, então, acho que está superestimando essa amizade. Não se ache especial para ela.
Fui consumido por um sentimento ruim, fiquei enfurecido. Essas palavras me feriram de uma forma tão grande que comecei a me sentir cego da razão, estava para cometer uma grande bobeira, um erro, e falar coisas que não deveria, agir em desacordo com meus princípios. Apesar disso, ele não estava errado, talvez eu estava me deixando levar por sentimentos que não eram recíprocos há muito tempo.
— Por que você parece tão desapontado, Estefano? Falei algo que não devia? Toquei na sua “ferida”? Na verdade, não queria te ofender, só estava sendo realista. – Mas uma vez senti o tom de deboche.
— Não entendo onde você quer chegar, não entendo qual motivo de ter me convidado até aqui. Você queria apenas jogar essas coisas na minha cara, não é mesmo?
— Ora, que espertinho! O que está dizendo? Foi você que começou, eu estava apenas tentando tornar seu amigo. E parece que você não deseja o mesmo.
— Pensando melhor, eu não devia ter aceitado seu convite, parece que não seriamos bons como amigos.
— Bom… Quem perde é você, pelo menos eu tentei me aproximar. Se você não me aceitar, vai perder o pouco de amizade que resta entre você e a Lara.
— Você acha que tem poder para isso? Quem decide é a Lara, não você.
— Sejamos realistas. Se você não for legal comigo, desaparecerá por completo do contato com ela. Nós vamos casar e se eu não gostar de você e não te aceitar vai refletir na amizade de vocês, querendo ou não. Você está perdendo a chance de continuar sendo um amigo e vai desaparecer da vida dela.
— Estou cansado de escutar suas bobagens, eu não vou ficar aqui para isso, estou indo embora.
— Não vá… Se você sair assim vou achar que é um covarde e eu nunca esperava isso de você, Estefano. Eu gostava de você na escola de idiomas, quando costumava ser um cara legal, nunca pensei que não passasse de um mané iludido e covarde.
Se antes eu estava com raiva, naquele momento, fui dominado por ela. Eu não conseguia mais me controlar, não podia deixar aquele babaca falar assim e não fazer nada. Sabia que me rebaixar e cair no jogo dele, faria eu perder diante dos olhos da Lara, mas, pelo menos, sairia com minha dignidade preservada. Por isso, sem mais pensar, falei:
— Daniel, você está errado sobre mim, não me conhece direito. E dane-se, eu tenho sentimentos pela Lara sim. Sabe por quê? Porque nós namoramos por bastante tempo. Somos bem mais próximos do que você imagina… Quando ela precisou de ajuda em uma madrugada, quem chamou? Fui eu e não você, porque eu estava lá por ela, a qualquer momento. Quem ajudou a mãe dela fui eu e não você. Quando eu perdi o meu irmão, a Lara me consolou… E você estava certo, eu gosto dela mais do que um amigo. Vai fazer o quê? Satisfeito com essas verdades? Você me instigou e agora lide com isso.
Ele arregalou os olhos e abriu a boca. Não esperava tantas descobertas e ficou espantado, sem dizer nada. Eu levantei, joguei o dinheiro do refrigerante na mesa e sai do bar. Provavelmente, fiz besteira falando tudo aquilo e precisava aguentar as piores consequências desse erro. Porém, fui muito provocado e não consegui segurar.
Quando cheguei no estacionamento, senti um puxão pelo braço, virei-me e deparei com o Daniel, com um olhar de fúria e parado na minha frente, apenas olhando sem falar nada. Então, eu disse:
— O que mais você quer comigo? Se quiser, terminamos de conversar em outra oportunidade, não agora.
— Você acha que pode dizer tudo aquilo e sair dramaticamente? Você é louco?
— Eu não diria nada se você não tivesse me provocado. Agora me deixe em paz. Eu nunca tive a intenção de ser seu amigo mesmo.
— Nesse caso, nunca mais quero ver a sua cara. E nunca mais quero que você chegue perto da Lara. Se afaste dela a partir de hoje.
— E se eu não quiser? Você não pode decidir nada disso. Só me afastaria se ela desejasse, sua opinião não importa.
— Ou você faz isso, ou vai se arrepender.
— Você está me ameaçando?
— Sim, estou, espero que tenha entendido o recado.
— Vai faze o quê? Eu não tenho medo de babacas como você.
Quando encerrei a fala, senti seu punho em meu rosto esmagando o meu nariz e quase capotei para trás. O sangue quente se espalhou e escorreu pelo meu rosto. Eu olhei atordoado para ele e vi um sorriso maldoso que contemplou o sangue que me escorria. Fui retribuir o soco, mas, senti alguém me agarrar e conter. Um homem desconhecido tentou apaziguar a briga. Depois o segurança do bar chegou e tudo terminou uma bagunça.
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Atualizado até capítulo 45
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