Fiquei pensando por muito tempo até decidir não comentar nada com o Estefano sobre o que eu tinha descoberto. Além disso, ele mesmo escolheu não me contar nada e provavelmente não queria que eu soubesse sobre a situação de seu irmão. Mesmo que eu ficasse com essa história pairando na mente e com vontade de conversar com ele, não faria. Ele precisava ter o seu tempo. Não o bastante, ainda precisava lidar com os problemas psicológicos da minha mãe que estavam piorando. Parecia que os remédios não estavam mais dando resultado, talvez ela precisava trocá-los.
Ela também começou a ter mais problemas no trabalho, em um desses dias de crise, chegou em casa muito estressada e parecia desequilibrada. Não quis conversar e foi para o quarto se deitar. No dia seguinte fui avisá-la que precisávamos fazer compras e ela surtou comigo, gritava dizendo que fazia tudo sozinha em casa e não aguentava mais. Eu tentei amenizar a situação e contei que tinha conseguido um novo emprego como professora de inglês. Mas não a acalmou, ela gritava dizendo que não fiz mais do que a minha obrigação.
Três dias depois disso, ligaram do seu trabalho para avisar que ela teve uma crise nervosa e foi encaminhada ao hospital. Fui ao seu encontro desesperada e quando cheguei ela estava apagada porque tinha tomado um calmante muito forte. Quando fui conversar com o médico, fui informada que ela tinha chegado muito mal e descontrolada ao hospital e me recomendou buscar novamente ajuda psiquiátrica, com urgência.
Dias se passaram e Carmélia continuava tendo crises histéricas, eu queria que ela voltasse ao psiquiatra e depois de muito insistir nada adiantou. Então, resolvi buscar ajuda da família, recorri à tia Jade, e por incrível que pareça, conseguiu convencer minha mãe a ir ao médico. Minha tia foi até nossa casa e nos acompanhou ao psiquiatra. Saímos de lá com notícias desagradáveis, o médico recomendou que ela passasse uns dias internada em uma clínica psiquiátrica.
Além disso, deu um atestado médico que a afastava do trabalho por três meses. Fomos para casa e conversamos bastante sobre o que devíamos fazer e chegamos a conclusão de que seria realmente melhor interná-la porque talvez assim ela ficasse melhor. Pesquisamos uma clínica ótima. Conversamos muito com a minha mãe. Foram vários dias a fazendo entender que seria para o bem e necessária recuperação.
Uma semana depois, ela passou por uma nova análise nessa clínica e decidiram por interná-la por um período de um mês. Conhecemos o local, despedimos e lá ela ficou. Poderíamos conversar por telefone, mas as visitas só seriam possíveis vários dias depois da internação. Eu saí de lá confiante e segura que tinha sido a coisa certa a se fazer.
Em casa, os meus dias se resumiam em estudar os materiais de inglês que o Estefano me passou, cuidar de casa e estudar para as provas da faculdade. Eu estudava bastante, faltavam apenas cinco dias para chegar o grande dia da minha estreia como professora. Eu queria me preparar ao máximo. Cheguei a faltar dois dias da faculdade para me preparar. Eu precisava estar mais confiante. Estava muito focada, queria dar o meu melhor, o Estefano tinha confiado em mim.
Ao chegar o grande dia, cheguei na escola de idiomas muito ansiosa e empolgada, tinha treinado muito e estava tentando me manter confiante. O diretor me apresentou aos outros professores, passou algumas instruções e indicou a minha sala de aula. Eu havia chegado cedo, por isso, ainda não tinha nenhum aluno na sala. Esperei por bastante tempo até chegar o horário, estavam presentes dez alunos, de uma turma com treze.
Comecei fazendo as apresentações e passando informações iniciais, logo após, adentrei nos capítulos iniciais da matéria. Felizmente, tive bastante sorte com os alunos, eles pareciam interessados e comportados. Também, eram maduros, entre os vinte e quarenta anos. Após quinze minutos já me sentia confortável.
Depois da aula, fui para a sala onde os professores esperavam, para poder guardar uns materiais, lá conheci uma professora, também novata, que dava aulas de inglês para uma turma mais avançada que a minha. Conversamos bastante, ela me deu várias dicas muito válidas por sua experiência anterior como professora em outra escola. Ela se chamava Luiza, era bem animada e experiente, dois anos mais velha que eu, porém, com um extenso currículo de professora. Foi bastante gentil comigo.
Fui embora muito satisfeita, tinha apresentado uma aula razoável para uma iniciante e conhecido outra professora que me prometeu ajudar no que eu precisasse, parecia que tudo daria certo. Eu finalmente respirei aliviada sabendo que fiz a coisa certa em ter aceitado trabalhar naquela escola. Em casa, liguei para minha mãe internada na clínica para contar como foi meu primeiro dia, pensei que fosse bom para ela se distrair com esse tipo de assunto. Desejava sua rápida recuperação porque caso não apresentasse melhoras poderiam prolongar mais o tempo de internação.
No dia seguinte, achei necessário agradecer ao Estefano e dizer que me saí bem em meu primeiro dia de aula. Mandei uma mensagem dizendo: “Estefano, tudo bem? Está gostando do intercambio? Quero agradecer mais uma vez pela oportunidade que me deu em dar aulas, ocorreu tudo bem no meu primeiro dia, estou muito feliz”.
Após horas ele me respondeu, não sei se estava ocupado ou era o fuso horário. Disse que ficou feliz e que sabia que me sairia bem. Ainda assim, pareceu-me uma resposta apressada, fria e vaga, mas também podia ser coisa da minha cabeça. Enfim, nós estávamos há alguns dias sem nos falar. Seria normal isso acontecer, afastar lentamente era previsível, cada um na sua ocupação diária, em lugares e experiências diversas. Eu já esperava por esse distanciamento, porém, sentia um vazio e tristeza ao pensar nisso.
Tudo que eu precisava fazer agora era focar nas minhas aulas e na faculdade, não podia ficar pensando no Estefano, não podia deixar a saudade dele me consumir, não havia nada que pudesse ser feito diferente. Nunca mais falei com ele depois disso. Mas, vi uma foto que ele postou na rede social, parecia feliz e aparentemente estava se divertindo em um bar com dois novos amigos.
Eu precisava seguir a minha vida e parar de pensar nele. As aulas estavam correndo bem, tudo como o planejado, meus alunos eram muito receptivos e esforçados. A professora Luiza estava me ajudando. Nós até saímos juntas para jantares e bares depois das aulas. Eu fiz uma nova amiga, já estava até contando dos meus problemas em casa, da saúde mental da minha mãe. Tínhamos muito assunto.
Certo dia, eu estava na sala dos professores contando a Luíza como eu estava amando dar aulas e de repente um homem se aproximou e cumprimentou, nunca tínhamos visto ele antes. Logo comentamos o quanto ele era simpático e bonito, mas provavelmente não frequentava muito a sala dos professores. Ele era muito charmoso, vestia-se de uma forma muito despojada e despreocupada, tinha barba, era alto, corpulento e forte.
Nós observamos discretamente enquanto ele se sentou perto de outros professores para conversar como se os conhecesse a um longo tempo. Porém, não podia olhar mais porque estava quase na hora da minha aula. Eu não queria me atrasar porque queria ser a professora exemplar em tudo que podia.
Quando terminei a aula, estava me preparando para ir embora, os alunos saíram da sala. Então, aquele homem entrou e eu, distraída, terminava de apagar a lousa, virei e levei um grande susto porque achava estar sozinha. Ele disse:
— Desculpe te assustar…
— Tudo bem, eu estava distraída.
— Eu sou Daniel, professor de espanhol, muito prazer em te conhecer!
— Eu sou a Lara, prazer.
— Percebi que esse é seu primeiro semestre aqui, certo? Se precisar de alguma coisa pode contar comigo. Dou aulas aqui há três anos.
— Ok. Muito obrigada!
— Bom… Então, já vou indo, foi bom te conhecer, vamos nos esbarrar muito ainda. Até mais!
— Tchau!
Achei simpático e atencioso ele vir em minha sala falar comigo, era importante ter um bom relacionamento com os colegas de trabalho. Fiquei com uma sensação que ainda seriamos amigos, ele parecia bem extrovertido. Quando cheguei em casa e liguei para minha mãe, ela me contou que estava melhor e provavelmente receberia alta em dois dias, que completaria o período de um mês.
Fiquei muito feliz com a notícia. Mas, ela me explicou que ficaria um pouco mole por conta dos remédios que estava tomando e precisava continuar em casa sem conseguir voltar ao trabalho. Por isso, resolvi ajeitar a casa para sua volta, estava bem bagunçada. Eu não era exemplo de dona de casa.
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Atualizado até capítulo 45
Comments
Bell_Fernandez
Meu coração está em chamas, atualiza logo, autora! 🔥
2024-07-17
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