Capítulo 19

......Tilha ......

Nos últimos dias, Donatilha estava observando atentamente Luke, notando sua rotina e hábitos. Ela começo a colocar todos os dias uma pequena quantidade de sedativos, em seu chá de camomila.

O céu estava repleto de nuvens escuras, e uma fina névoa começava a se formar ao redor da casa paroquial. As sombras das árvores balançavam lentamente com o vento frio, criando uma dança sinistra de luz e escuridão. A lua, quase cheia, lançava uma luz pálida sobre o terreno, acentuando o ambiente inquietante.

Donatilha esperou pacientemente até ver Luke entrar no banheiro da casa paroquial. Este era seu momento. Com movimentos ágeis e precisos, ela escalou a lateral da casa e entrou pela janela que sabia estar sempre destrancada.

Dentro da casa, tudo estava silencioso, exceto pelo som suave da água correndo no banheiro. O ar estava carregado com o aroma suave do chá de camomila misturado ao cheiro característico de madeira antiga. As paredes, cobertas por sombras dançantes, pareciam observar seus movimentos furtivos.

A mesma andou cuidadosamente, seus passos mal fazendo barulho sobre o piso de madeira polido. Cada rangido sob seus pés parecia um trovão em meio ao silêncio opressivo. Chegou até a mesa onde Luke havia deixado sua xícara de chá esfriando. A luz fraca do abajur lançava um brilho morno sobre a porcelana da xícara, criando um contraste com a escuridão ao redor.

Ela rapidamente retirou de seu bolso um pequeno frasco contendo um líquido claro. Sem hesitar, despejou algumas gotas na xícara, misturando-as discretamente ao chá. O líquido se dissolveu sem deixar vestígios visíveis.

Antes de sair, olhou ao redor para certificar-se de que não havia deixado vestígios de sua presença. Sua respiração estava controlada, mas seu coração batia acelerado. Com a mesma habilidade com que entrou, Donatilha saiu pela janela, voltando ao seu esconderijo.

Ela se posicionou em um ponto de observação estratégico, escondida pelas sombras das árvores, aguardando para ver os efeitos de sua ação. Luke saiu do banheiro, enxugando o rosto com uma toalha. Ele caminhou até a mesa e pegou a xícara de chá, levando-a aos lábios sem suspeitar de nada.

Donatilha observou atentamente, ansiosa para ver o que aconteceria a seguir. Luke tomou um gole do chá e, por um momento, pareceu não notar nada de diferente. Ele continuou a beber, até que, lentamente, começou a sentir os efeitos das gotas que Donatilha havia colocado.

Sua visão ficou turva, e ele sentiu um torpor tomar conta de seu corpo. Luke tentou se manter em pé, mas suas pernas quase cederam. Donatilha não percebeu, mas ele não havia bebido todo o chá, jogando metade fora.

O padre, sonolento e sentindo-se extremamente mal, foi cambaleando até sua cama. A mente nublada pela substância, ele desabou sobre o colchão, o mundo ao seu redor girando antes de se apagar completamente.

Tilha, acreditando que Luke estava totalmente inconsciente, voltou a entrar na casa. Seus passos eram leves, quase inaudíveis, ecoando pelo ambiente silencioso. A luz suave da lua filtrava-se pelas janelas, criando padrões de sombra nas paredes.

Donatilha entrou no quarto de Luke, seu coração batendo mais rápido com a adrenalina da situação. A penumbra do ambiente era suavemente iluminada pela luz da lua.

Enquanto seus olhos se ajustavam à escuridão, ela avistou uma foto em um quadro sobre a cômoda. Aproximando-se, pegou a moldura em suas mãos. Era uma imagem de um homem e uma mulher de meia idade, ambos sorrindo com ternura. A mulher tinha olhos azuis, exatamente iguais aos de Luke. O detalhe a fez perceber que estava segurando algo muito pessoal para o padre, uma conexão íntima com sua família.

Colocando a moldura de volta no lugar, Donatilha se virou para olhar Luke, que dormia profundamente na cama. Sua respiração era lenta e regular, os traços faciais relaxados em um sono pesado. Aproximou-se dele, o coração ainda acelerado, a mente fervilhando com a oportunidade de observar de perto alguém que, de outra forma, estava sempre envolto em uma aura de autoridade e reserva.

Tilha estendeu a mão hesitante, seus dedos roçando suavemente os cabelos de Luke. Sentiu a textura macia sob seus dedos, um contraste com a tensão constante que ele costumava exibir quando estava acordado. Era um momento estranho, quase íntimo, que ela sabia que não teria sob circunstâncias normais.

Enquanto acariciava seus cabelos, seus pensamentos vagaram. Ela pensou nas muitas vezes que se sentiu desamparada e sozinha, e de alguma forma, ali, ao lado do adormecido Luke, sentiu uma estranha conexão, um entendimento silencioso de que ambos carregavam seus próprios fardos.

Donatilha suspirou silenciosamente enquanto vasculhava o quarto de Luke. A situação era mais complexa do que ela imaginava. Por que o padre tinha que ser tão difícil, sempre colocando barreiras entre eles? Ela se lembrava de cada encontro, de como o provocava quando estavam juntos na igreja. Às vezes, ele cedia, rindo junto com ela, mas logo o arrependimento voltava a assombrá-lo. Era nítido que ele ainda se culpava pelo que aconteceu no confessionário, um momento de fraqueza que ele não conseguia esquecer.

Apesar de sua rigidez e da postura séria que adotava, Luke era, em muitos aspectos, incrivelmente inocente. Ele estava determinado a salvar a alma de Donatilha, como se ela fosse a única chance de redenção para ambos. Ela sabia que ele se preocupava com ela, mesmo que ele não admitisse abertamente.

Ela se aproximou da cama mais uma vez, observando-o dormir profundamente. Sua expressão relaxada contrastava com a tensão constante que ele exibia quando acordado, um reflexo das responsabilidades e das batalhas internas que enfrentava diariamente. Ele era um homem dividido entre seus votos e seus sentimentos, lutando para manter o equilíbrio entre a devoção e a tentação.

A garota sentou-se na beira da cama, ainda acariciando os cabelos dele. O toque era reconfortante, tanto para ela quanto, aparentemente, para ele. Ela sussurrou baixinho, mais para si mesma do que para ele:

— Por que você tem que ser tão difícil, Luke? — Seus olhos se encheram de uma mistura de tristeza e ternura. — Você tenta tanto me salvar, mas às vezes acho que é você quem precisa ser salvo.

Ela ficou ali, perdida em seus pensamentos, tentando compreender a complexidade do homem diante dela. Não era apenas sobre o desejo ou a provocação; havia algo mais profundo, uma conexão que ela não podia ignorar. Talvez, de alguma forma, eles pudessem encontrar um caminho juntos, um equilíbrio entre a fé e os sentimentos que os aproximavam.

Donatilha montou sobre o corpo adormecido de Luke, inclinando-se para sentir seu cheiro. Era reconfortante, uma mistura de incenso e algo mais puramente dele. Ela fechou os olhos por um momento, absorvendo aquela proximidade tão proibida quanto desejada.

De repente, sentiu um movimento sob ela. Os olhos de Luke se abriram repentinamente, arregalados de surpresa e confusão.

— De... demônio. — Ele sussurrou, a voz rouca e carregada de choque.

A garota se assustou, seu coração disparando no peito. A palavra reverberou em sua mente, carregada de julgamento e repulsa. Sem hesitar, ela se levantou rapidamente, tropeçando ao sair da cama. Com passos apressados e descoordenados, ela correu em direção à saída, o pânico tomando conta de seus movimentos.

Ela saiu pela janela por onde tinha entrado, o frio da noite atingindo seu rosto como uma bofetada. O vento parecia levar embora qualquer vestígio de calor que havia sentido momentos antes. Seu coração ainda martelava no peito enquanto se afastava da casa paroquial, sentindo uma mistura de vergonha e arrependimento.

Atrás dela, Luke permaneceu imóvel por um momento, ele achou que estava em uma longa paralisia do sono. Sua mente ainda turva e o corpo pesado pela influência do chá adulterado. Ele tentou processar o que havia acontecido, mas o cansaço e a confusão o venciam. As palavras que ele havia dito, carregadas de medo e surpresa, ecoavam em sua mente. Com um último esforço, ele caiu novamente em um sono profundo, o rosto marcado pela tensão do que havia acabado de presenciar.

Enquanto isso, Donatilha continuava a correr, seu corpo movendo-se quase por instinto, tentando escapar do peso das palavras de Luke. A noite estava silenciosa, exceto pelo som de seus passos apressados e da respiração ofegante. Ela sabia que não poderia continuar assim para sempre, mas, por agora, tudo o que queria era fugir do confronto e da culpa que sentia.

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