...Donatilha...
Tilha, após uma acalorada discussão com sua mãe, saiu de casa com passos pesados e determinados. Pegou seu maço de cigarros, cujas pontas estavam ligeiramente amassadas de tanto apertá-las. Na mercearia local, escolheu a bebida mais barata e forte que encontrou, uma garrafa de aguardente com rótulo desbotado.
Envolta de um agasalho pesado que mal conseguia conter o frio cortante daquela tarde de inverno, A garota começou a caminhar pela estreita estrada de terra que serpenteava em direção ao cemitério. O céu, pesado de nuvens cinzentas, projetava uma luz pálida sobre o ambiente, acentuando a melancolia do cenário. Ao longe, vislumbrou o movimento discreto de um pequeno grupo de pessoas reunidas em torno de uma sepultura recém-aberta, envoltas em murmúrios silenciosos e rostos sombrios.
O vento gelado soprava, fazendo com que as folhas secas dançassem pelo chão. Tilha ignorou a cena funérea à sua frente, focando apenas em seguir em frente, rumo ao seu destino incerto. Levantou a garrafa à boca, sentindo o líquido ardente descer por sua garganta, deixando um rastro de calor que contrastava com o frio penetrante que sentia em seu interior.
Cada passo era marcado pelo som abafado de suas botas na terra úmida, enquanto a paisagem ao redor parecia refletir sua própria tempestade interna. Em seus pensamentos tumultuados, as palavras não ditas ecoavam, misturadas com o aroma amargo do cigarro queimando entre seus dedos trêmulos.
Donatilha finalmente chegou ao seu destino: a lápide da pessoa que mais desgostava. Era irônico para ela estar ali, afastada de todos, refletindo sobre alguém que, em sua concepção, nem mesmo merecia uma lápide. No entanto, mesmo com todo o desgosto, ela não conseguia sentir ódio.
A lápide estava simples e discreta, coberta por musgo e cercada por algumas flores silvestres. Tilha
parou diante dela, deixando escapar uma nuvem de respiração no ar gélido. Observou as palavras gravadas na pedra, uma lembrança constante de uma história não resolvida. Sentiu um misto de emoções tumultuadas: mágoa, arrependimento, e uma estranha sensação de vazio.
Os minutos se arrastavam enquanto ela permanecia ali, perdida em seus pensamentos, tentando reconciliar sentimentos contraditórios. As sombras alongadas pelo sol poente criavam um ambiente ainda mais sombrio ao redor da sepultura. Donatilha acendeu um cigarro, deixando o fumo se perder na brisa fria da tarde. Era um gesto automático, uma forma de conforto em meio ao desconforto emocional.
A garota encarou a lápide com um misto de raiva e tristeza, sentindo as palavras amargas subirem à sua garganta:
— Olha só! Tio, você aí e eu aqui, é irônico, não é? Você acaba com minha vida, mas vai para o descanso eterno, e eu sofro na terra. — Ela cuspiu na lápide, um gesto de desafio e desprezo. — Mas eu não consigo te odiar. Você foi um monstro, mas mesmo assim cuidou de mim.
As palavras ecoaram no silêncio do cemitério, misturando-se com o vento que agitava as folhas ao redor. Ela sentiu um peso se levantar de seus ombros ao admitir aquilo em voz alta, como se finalmente conseguisse colocar para fora a verdade complicada que carregava dentro de si há tanto tempo.
Ela olhou para a lápide mais uma vez, o rosto marcado pelas lágrimas que teimavam em não cair. Era difícil reconciliar as emoções conflitantes, mas aquele momento de catarse trouxe um pouco de alívio à sua alma atribulada.
Com um suspiro profundo, Tilha virou-se e começou a afastar-se do túmulo, deixando para trás um passado tumultuado.
Donatilha caminhou até a lápide de sua melhor amiga, seu coração pesado com a falta que ela sentia. Ela acendeu um cigarro e o deixou próximo à lápide, como costumavam fazer juntas.
— Sabe, Lílian, a vida anda muito difícil. — Donatilha murmurou para a lápide, os olhos fixos nas palavras gravadas ali. — E pensar que teríamos a mesma idade hoje em dia.
O vento sussurrava suavemente entre as lápides, criando uma aura de tranquilidade no cemitério silencioso. Donatilha sentou-se ao lado da lápide, perdida em suas memórias compartilhadas com sua amiga. Lembranças de risadas, confidências e momentos de cumplicidade inundaram sua mente, trazendo tanto dor quanto conforto.
Ela fechou os olhos por um momento, deixando as lembranças fluírem livremente. Sentiu saudade da presença de Lílian, da maneira como ela conseguia entender Donatilha sem precisar de muitas palavras. Era como se uma parte dela tivesse sido arrancada abruptamente, deixando um vazio que nunca poderia ser preenchido completamente.
Com um suspiro, Donatilha pegou o cigarro que deixara ali e acendeu, sentindo o calor reconfortante do fumo misturando-se ao ar fresco da tarde.
O céu começou a escurecer, indicando que a noite estava próxima. — O que está fazendo aqui Donatilha? — A voz severa do padre a tira de seus pensamentos.
...Luke...
Luke recebeu um convite inesperado para velar um corpo na pequena capela local. Era um dever que ele assumia com respeito e seriedade, honrando a tradição da paróquia em cuidar dos seus membros mesmo após a vida terrena.
Ao chegar à capela, Luke encontrou um ambiente silencioso e solene. O ar carregado de emoção pesava sobre os presentes, cada um refletindo sobre a vida do falecido. Era uma oportunidade para Luke oferecer conforto e palavras de consolo à família enlutada, um papel que ele desempenhava com dedicação.
O enterro chegou ao fim, e Luke foi olhar as lápides pelo terreno. Uma voz conhecida o tirou de seus pensamentos, a voz de Donatilha, que, como de costume, xingava. Ele escutou parte de seu desabafo para a lápide.
— O que está fazendo aqui, Donatilha? — perguntou com uma voz severa.
Donatilha levantou os olhos para encontrar o olhar sério do padre Luke, que a observava com uma mistura de preocupação e curiosidade. Ela deixou escapar uma exalação de fumaça do cigarro antes de responder com um tom um tanto desafiador:
— Apenas visitando uma amiga, padre. — Sua voz estava calma, mas carregava um peso emocional evidente.
Luke franziu o cenho levemente, como se estivesse ponderando suas palavras. Ele percebeu a seriedade nos olhos de Donatilha, misturada com uma dor que ele não estava acostumado a ver nela.
— Lamento pela sua perda — disse ele finalmente, com sinceridade. — É difícil perder alguém que amamos.
Donatilha assentiu vagamente, os olhos ainda fixos na lápide à sua frente.
— Às vezes, parece que o tempo não cura tudo, padre — murmurou ela, mais para si mesma do que para ele.
Luke permaneceu em silêncio por um momento, respeitando sua dor e seu momento de reflexão. Ele sabia que não havia muito que pudesse dizer para aliviar sua tristeza, mas queria oferecer algum conforto.
— A presença de alguém próximo nos momentos difíceis pode fazer uma diferença significativa — sugeriu ele suavemente.
Donatilha olhou para ele brevemente, um leve sorriso melancólico surgindo em seus lábios.
— É por isso que estou aqui, padre. Para honrar essa presença, mesmo que não esteja mais fisicamente ao meu lado.
Luke assentiu compreensivamente, sem pressioná-la mais. Ele percebeu que Donatilha estava lidando com suas emoções de uma maneira própria, e não cabia a ele julgar ou intervir além do necessário.
— Se precisar conversar, estarei aqui — ofereceu ele, com gentileza.
Ela acenou em agradecimento, e os dois permaneceram em silêncio por mais alguns momentos, compartilhando o peso silencioso da saudade e da memória. O vento frio continuava a soprar entre as lápides, mas agora parecia carregar um certo conforto, como se as lembranças de Lílian estivessem ali para serem compartilhadas, mesmo depois de sua partida.
Finalmente, Donatilha se levantou lentamente, deixando o cigarro quase apagado na borda da lápide. Ela olhou mais uma vez para o nome gravado na pedra, um último adeus silencioso, antes de se virar para partir.
Luke observou-a se afastar, com um nó silencioso na garganta. Em um momento de impulso, ele correu atrás da garota para acompanhá-la pela estrada.
O céu começava a se tingir de tons alaranjados à medida que o sol se punha lentamente sobre o horizonte. Luke caminhava ao lado de Donatilha pelo caminho de terra que levava de volta à pequena cidade, ambos imersos em pensamentos após a visita ao cemitério.
— Você costuma vir aqui com frequência? — perguntou Luke, quebrando o silêncio que pairava entre eles.
Donatilha olhou para ele de soslaio, seus olhos ainda carregados de emoção. Ela hesitou por um momento antes de responder, escolhendo suas palavras com cuidado.
— Às vezes. Quando as lembranças ficam pesadas demais — admitiu ela, sua voz suavizando-se ao tocar no assunto delicado.
Luke assentiu compreensivamente. — Compreendo. O cemitério pode ser um lugar de paz e de dor ao mesmo tempo.
Ela concordou, parecendo mais vulnerável do que ele a havia visto antes. Era como se a visita à sepultura tivesse aberto uma porta para um lado de Donatilha que ela normalmente mantinha oculto.
— Lílian era... especial — murmurou Donatilha, mais para si mesma do que para Luke.
Luke assentiu novamente, respeitando o momento dela. — Você mencionou que a vida anda difícil. Quer compartilhar comigo o que está acontecendo?
Donatilha hesitou por um momento, olhando para frente enquanto caminhava. Ela então virou o olhar para Luke, seus olhos escuros buscando os dele em busca de compreensão.
— Às vezes sinto como se estivesse à deriva, sem um porto seguro para ancorar. A vida tem um jeito engraçado de nos lembrar do que perdemos, não é? — ela disse, sua voz carregada de resignação.
Luke inclinou a cabeça, captando a dor nas palavras dela. Ele ponderou por um momento antes de responder com gentileza:
— Às vezes, o que parece uma perda pode ser também uma oportunidade para encontrar novos caminhos. Você não está sozinha, Donatilha. Há pessoas que se importam com você.
Ela olhou para ele, tocada por suas palavras. A brisa suave do entardecer parecia acariciar seus rostos, como se o próprio ambiente estivesse envolvendo-os em um momento de calma após a tempestade emocional.
— Obrigada, Luke — disse ela finalmente, com sinceridade. — Por estar aqui, mesmo quando eu não sei como pedir ajuda.
Ele sorriu suavemente. — Estou aqui para ajudar no que puder. Você não precisa enfrentar tudo sozinha.
Donatilha assentiu, sentindo um peso se aliviar de seus ombros. Eles continuaram a caminhar lado a lado, compartilhando o silêncio reconfortante que agora não parecia mais vazio, mas sim preenchido pela presença um do outro.
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Atualizado até capítulo 25
Comments
LMCF
O que começou como uma obsessão vai acabar lhe fazendo um bem não esperado.
2024-06-29
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